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Capítulo 35: Roubando os Manuais

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 35 de 63·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-12 01:22

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Uns dias mais tarde, certa tarde, Han Li se esgueirou de novo para fora do Vale das Mãos Espirituais, e foi encontrar-se com Li Feiyu.

Falando com rigor, no entanto, mal era esgueirar-se. O Doutor Mo havia muito viera a conhecer a fundo o hábito de Han Li de sair do vale, e no entanto jamais lhe pôs estorvo nisso, senão que o sofria ir e vir com perfeita liberdade.

Essa política de não perguntar por ele nem buscar detê-lo havia posto, no início mesmo, um temor rastejante no coração de Han Li. Que engrenagem, perguntava-se, estaria o bom doutor voltando secretamente em sua cabeça? Estaria apenas esperando sua hora, ou armando alguma armadilha invisível? Mas depois de ter ido e vindo a salvo várias vezes, e de achar que na verdade não se enviava homem algum para sombrear seus passos, seu coração ficou em boa medida aliviado, e se fez bastante ousado para atender a seus próprios assuntos sem ulterior desconfiança.

Mais tarde, depois de longo e cuidadoso tatear do assunto, Han Li veio por graus a algum vislumbre da razão pela qual o outro era tão frouxo com ele. Pois o Doutor Mo, em assim tolerar as liberdades de Han Li, tinha suas próprias e apertadas estreitezas a considerar.

É verdade que já esmagara Han Li sob os dois grandes cadeados da Pílula do Verme Cadáver e das vidas de sua própria família, de sorte que o moço não ousasse coicear contra o aguilhão. Com tudo isso, o bom doutor sabia também que governar um homem por meios tão brutais era encher-lhe o peito de rancor e ressentimento, e que um servo ressentido não pratica arte alguma de bom grado. Se além disso viesse a acorrentar o rapaz os próprios ir e vir, não faria senão empurrá-lo a maior fúria, e obrar o mesmíssimo revés de seu desígnio. Pois o verdadeiro desejo do Doutor Mo não era senão este: que Han Li se aplicasse por seu livre-arbítrio e com zelo à Arte da Juventude Eterna. Não podia amarrar o rapaz de pés e mãos e forçar-lhe pela violência o cultivo; isso fora buscar a ruína.

E assim veio a ser que quanto mais claramente percebia Han Li todo o assunto em sua causa e sua consequência, mais crescia seu coração em audácia. Onde antes julgara mister guardar-se um tanto da vista do Doutor Mo, e esgueirar-se com cautela para fora do vale por algum caminho escondido, agora lançava todos esses cuidados ao vento. Sem palavra sequer de licença, varria com desembaraço diante das próprias ventas do bom doutor, e ia-se.

E com tudo isso, por mais que Han Li levasse tão descuidado e desordeiro aspecto na superfície, como se já não lhe importasse nada o homem, em seu coração seguia vigiando e atalaiando com todo seu cuidado acostumado. No ponto mesmo de sair do vale, invocava a Arte da Juventude Eterna, erguendo ouvidos e olhos e todos os sentidos a uma altura inconcebível, até ter recolhido sob sua guarda todo ser movente dentro de algumas dezenas de jardas.

Han Li estava seguro de que ainda que o próprio Doutor Mo viesse a persegui-lo em pessoa pelo caminho, não poderia escapar da rede de seus sentidos. Numa refrega limpa e aberta bem poderia ser inferior ao outro; mas quando se tratava do domínio e do manejo dos cinco sentidos, Han Li não abrigava a menor dúvida em suas próprias forças.

Assim, a todo o longo do caminho, fez seu passo cauto junto aos discípulos que patrulhavam a montanha, e entrando por aquele mesmo túnel escondido que corria sob a velha acácia, rastejou-se até o lado do poço onde antes se tinham visto.

Mal esteve dentro, viu Li Feiyu sentado descalço à borda mesma do poço. O moço ia com a cabeça baixa, os dois pés desnudos metidos no frio da água da nascente, e "zape, zas, zas!" batia a água com toda sua força, fazendo saltar frentes de gotículas de mil cores que se espalhavam pelo ar, e não era pequena a alegria que em tal divertimento achava.

Ao ouvir entrar Han Li, Li Feiyu nem sequer ergueu a cabeça, senão que logo entoou uma queixa:

"Irmão Mais Novo Han, chegas cada vez mais tarde com cada dia que passa! Cada vez me fazes esperar um bom meio-dia e ainda mais. Não poderias, por uma vez, chegar cedo?"

"Perdoa-me, eu—" Han Li sacudiu a terra pegada a suas roupas com a mão, e já estava dando alguma forma de desculpa—

"Pega!"

Li Feiyu nem sequer esperou que Han Li acabasse de falar, senão que lhe atirou diretamente o grande pacote que trazia oculto atrás das costas.

"Que é isso? Algo bom de comer?" Han Li não podia tirar pés nem cabeça do assunto; mas logo sentiu o pacote duro e rijo ao tato, e pasmosamente pesado além do mais, de modo algum como coisa que se pudesse comer.

"Só pensas em tua barriga! Não foste tu que me mandaste trazer para fora o manual do Estilo de Espada do Piscar de Olhos?" Li Feiyu cravou-lhe um olhar de soslaio, e logo acrescentou, com súbito desdobramento de grande seriedade, "Toma, pois. Não é o que pedias?"

"Isto—isto é o manual? Não podes estar falando a sério! Com certeza não te foste enganar com a pedra de amolar de teu quintal, tomando-a por um livro, e a meteste dentro!" Han Li contemplou a coisa monstruosa que lhe pendia dos pulsos, com um acabado ar de incredulidade no rosto.

"Que pesado!" Fazendo força com a de seus dois braços, deu-lhe um torpe tateio para aferir seu peso—e quase veio de costas, cambaleando sob a carga.

"Ah, ah, ah!" Li Feiyu não pôde conter-se por mais tempo; abrindo de par em par sua grande boca, prorrompeu numa gargalhada selvagem que não podia conter, até que enfim rolou pelo chão dando-lhe golpes, lambuzando-se todo de brisas e torrões, desfeito de rir.

Han Li observou com desconfiança as estranhas maneiras de seu companheiro, e logo deu uma olhada àquele pacote enormemente envolto.

"Pum!"

Empurrou o fardo com suavidade com o pé. Pois, caramba!, de verdade parecia que levasse livros dentro.

Sem prestar já atenção alguma a seu amigo, que a estas horas quase se contorcia de alvoroço a um lado, Han Li acariciou o queixo pensativamente, e logo, de cócoras com um agachão das nádegas, sentou-se junto ao pacote.

Para ele, andar adivinhando a feitura de um objeto que podia no ponto conhecer abrindo-o, não era senão uma tola perda do trabalho de sua mente.

Um par de palmas limpas e de tez branca veio pousar sobre o teimoso nó do pacote, e logo os dez dedos começaram, um após outro, a dançar e a saltar com os movimentos mais leves; um borrão de pontas de dedos piscou sobre o envoltório, e o grande nó que estava atado tão duro e apertado se afrouxou, como por milagre.

"Tas, tas!"

Um estouro de aplauso agudo e sonoro ressoou no ar.

Han Li não se pôs de imediato a abrir o pacote. Em seu lugar, virou a cabeça, e olhou para trás ao companheiro que há pouco se desconjuntava.

Em sei lá que momento, Li Feiyu cessara por completo sua risada, e até calçara os sapatos. Ali estava agora, batendo com todas suas forças as duas mãos, animando-o com gana e sem medida, sem que parecesse importar-lhe um ápice as palmas avermelhadas de tanto aplaudir.

"Arre, arre! Cada vez que te vejo executar as Mãos de Seda Enrolada com tão maravilhosa perfeição, parece-me coisa pasmosa. Essa arte parece feita para ti e só para ti, como se tivesse nascido para vir justo a teus dedos—pois não se passaram senão dois curtos meses desde que te a ensinei!" Assim disse Li Feiyu enquanto seguia batendo palmas, "arre, arre"-ando seu louvor sem fim entre palavra e palavra.

"Não terás, porventura, amarrado um único livro num pacote tão enorme, tão somente para que eu te fizesse uma exibição por teu recreio?" demandou Han Li, com não pequena mostra de descontentamento.

"De modo algum. Abre o pacote, e entenderás tudo de uma vez." Li Feiyu recolheu seu ar de zombaria, e seu rosto se tornou de pronto grave.

Han Li, ao vê-lo cair de sopetão em tão solene modo de falar, viu-se preso de uma grande curiosidade; voltando a cabeça de novo, deixou cair seu olhar uma vez mais sobre o pacote que jazia ante ele.

Ladeando a cabeça, considerou o assunto por um momento, logo esticou o indicador e o dedo do meio, e ergueu com suavidade um canto do envoltório, puxando-o para fora—e deixou à vista tudo o que havia dentro.

"Isto é—" Num só alento, um suor sujo de frio denso se derramou pela testa de Han Li, e seus olhos estiveram a ponto de saltarem das órbitas.

"Bem, e agora? Não estás um pouco pasmado?" Li Feiyu se aproximou com calma, e lhe deu uma palmada no ombro.

Han Li se voltou como aturdido, e olhou de frente o outro, sem fala por longo tempo.

"Por que me olhas assim? Tem por seguro que não penso entregar-me a ti em paga!" zombou Li Feiyu, mostrando toda a dentição.

Foi como se, ao soar aquela brincadeira, Han Li voltasse por fim a si.

"Traço uma linha limpa entre os dois de agora em diante!" gritou, com grande fúria de ultraje. "Deste dia em diante, não te conheço, e tu jamais puseste teus olhos em mim!"

"Ou me enganam os olhos, ou ficaste louco!" prosseguiu Han Li, apontando com o dedo a vasta pilha de folios grandes e pequenos que ante ele se amontoavam, e vociferando contra Li Feiyu. "Trouxeste para fora uma boa terça parte de toda a biblioteca do Salão dos Sete Extremos, e se o protetor que patrulha o salão chegasse a cheirar isso, tanto tu quanto eu o teríamos muito difícil até para morrer uma morte decente!"

E assim era na verdade; pois no canto superior esquerdo de cada uma daquelas capas, estava marcado num círculo de tinta de pincel os mesmos caracteres dourados e flamejantes: "Da Coleção do Salão dos Sete Extremos."

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