Pei Du leu a noite toda.
Os textos abarcavam quatro mil anos. Um registro da dinastia Qin mencionava um jovem na queima de livros, rastejando das fossas de enterro ileso. Uma conta Han o colocava entre os quarenta mil sepultados vivos em Changping. Apareceu durante a rebelião de Chen Sheng, aprendendo chamadas de raposa junto a fogueiras. Amarrou o pai de Liu Bang a uma panela de cozinha diante de dois exércitos.
Cada dinastia. Cada catástrofe. O mesmo rosto juvenil nas margens da história.
Pei Du deixou o pergaminho final. Suas mãos estavam firmes, mas seu coração de dao tremia.
"Chefe de família," disse Pei Jingting cuidadosamente, "estes são contos populares. Um jovem imortal desde antes do tempo registrado —ninguém acreditaria."
"Tens razão." Pei Du assentiu lentamente. "Seu nome nunca aparece em histórias verdadeiras."
"E Su Yan pode não ser esse jovem. Fala com sabedoria, mas age com coração de criança."
"Brinca a adultez," concordou Pei Du. "No entanto, sua guia do ancestral de sobrancelhas brancas através da tribulação —isso também soa impossível."
"É útil. Deveríamos cultivá-lo, não consumi-lo."
"De fato. Cada clã o quer. Se atacarmos, nos tornamos o inimigo de cada clã." Pei Jingting fez uma pausa. "Temia que cobissasses sua carne. Pai injertou carne amaldiçoada para sobreviver. E se houvesse carne não amaldiçoada? Eternidade verdadeira sem o preço..."
"Não o digas." A voz de Pei Du estalou como um chicote. "Meu coração de dao não é suficientemente forte para resistir a essa tentação. Vai-te. Silencia a cada discípulo que buscou esses textos."
* * *
Su Yan chegou à fazenda Pei com a *Escritura do Espírito Primordial para Desafiar a Calamidade* completada. Pei Du estudou-a durante uma hora, o assombro aprofundando-se em reverência.
"Tua tradução excede décadas do trabalho de nossos discípulos mais brilhantes."
"O texto original estava incompleto. Terminei o que faltava."
Os olhos de Pei Du ampliaram-se. "Completaste a escritura de um imortal antigo?"
Su Yan produziu o pergaminho revisado. "O original apenas refina a alma e forja o Espírito Primordial. Carece do método para atravessar calamidades. Adicionei isso."
Não mencionou a contribuição de Veyon, protegendo seu amigo.
Pei Du leu as adições, mãos tremendo. "Vem. Há algo que deves ver."
Numa câmara interior, textos antigos jaziam abertos —cada registro de jovens imortais que possuía a biblioteca Pei. Su Yan os leu, seu rosto mudando de curiosidade para choque a horror. Imagens de Sujiaping fulguraram por sua mente. Seu sentido espiritual fraturou-se.
Pei Du pressionou um selo na testa de Su Yan. "¡Ha!"
O grito estabilizou sua consciência. "Os Selos do Coração Firme. Da próxima vez que tua mente se fraturar, sara-te a ti mesmo."
Demonstrou intrincados selos de dedos. Su Yan seguiu, a clareza retornando.
"Obrigado, Chanceler."
"Quase destruí meu coração de dao com cobiça. Deveria agradecer-te." Pei Du fez uma pausa. "Su... irmão. Devo confessar —considerei matar-te. A tentação da vida eterna..."
"Entendo."
"Mas tua honestidade me recompensa. A família Pei guardará teu segredo. Buscarei mais registros do teu passado."
Su Yan inclinou-se. Pei Du devolveu a reverência. "Se escapar da morte, será graças a ti hoje. Bi He te escoltará para fora."
Caminhando pelos jardins da fazenda Pei, Su Yan admirou um pavilhão cénico. *Perfeito para saborear carmim com Rusi,* pensou. *Penade que seja a fazenda Pei.*
Vários jovens se aproximaram. O líder sorriu. "O apanhador de serpentes Su?"
"Sou eu."
"Sou Pei Jing, segundo filho. Hoje recebo amigos do palácio. Junta-te a nós."
Num pavilhão junto ao lago, Pei Jing e seus companheiros sentaram-se. Quando Su Yan se moveu para sentar-se, o rosto de Pei Jing escureceu. "Estás aqui para entreter. Não te sentas. Tira tua serpente. Atua, e talvez te arrojemos prata."
Su Yan caminhou até à beira do lago. "Senhor Sétimo, sai."
Uma pequena serpente emergiu de seu colarinho. Os jovens riram.
"Senhor Sétimo," disse Su Yan, "dancemos."
Seu qi irrompeu. A serpente expandiu-se, cem zhang de ferocidade antiga deslizando sobre o lago. Qi de espada ardia. A serpente mergulhou.
O pavilhão explodiu. Pei Jing e seus convidados caíram na água, partidos e encharcados.
Su Yan riu, pisando os escombros. "Sou um convidado aqui. Até teu chanceler me trata com cortesia. Quem és tu para me humilhar?"
Pei Jing irrompeu da lama, quatro céus de gruta manifestando-se. "Atreves-te—"
Uma voz trovejou como relâmpago. "Basta."
Pei Du entrou em vista, rosto de pedra. Olhou para o príncipe do palácio morto na lama. Olhou para seu filho partido. Olhou para os anciãos do clã reunidos, fome em seus olhos.
"Trazei o segundo filho."
Serviçais arrastaram Pei Jing para a frente. Pei Du desembainhou seu cinto de jade e o açoitou —uma e outra vez, carne rasgando-se, sangue espirrando, até que Pei Jing já não pudesse gritar.
"Desde hoje, Pei Jing não é filho meu. Matou o príncipe e dois discípulos do clã num ataque de loucura. Entreguem-no à corte imperial. Eu mesmo irei pedir perdão."
Voltou-se para os anciãos. "Continuo sendo o mestre aqui. Quem se atreve a exceder-se?"
Um ancião sussurrou: "Chefe de família, somos velhos. Nos resta pouco tempo..."
"Teus ancestrais morreram. Comerás um homem vivo?" A voz de Pei Du era gelo. "Desde hoje, a fazenda Pei está selada. Quem sair, morre."
Voltou-se para Su Yan. "O clã não está unido. Não posso contê-los muito tempo. Vou ao palácio —estarei aprisionado lá, vivo mas incapaz de sair. A fazenda Pei não é segura. A fazenda Yuan também não. Levarei-te à família Guo."
Na carruagem, Su Yan perguntou: "Chanceler, não me queres fazer teu elixir?"
Pei Du olhou para ele. "Se és esse jovem imortal, incontáveis poderes maiores que o meu o tentaram. Onde estão agora? Só te vejo a ti, sentado íntegro diante de mim."
Su Yan olhou pela janela. "Não sei quem sou."
Uma voz gentil ecoou em sua memória. *Su Yan. Su Yan. Lembra-te do teu sobrenome. Nunca esqueças o teu nome.*