Su Yan esvaziou o copo. O gosto era familiar — amargo, doce, e depois nada.
A sopa de Mengpo.
O sonho tinha sido real. Três mil anos atrás, ele vivera naquela cidade. Casara-se com Feng Xue'er. Perdera tudo quando as pessoas desapareceram, e então bebera o mesmo chá para esquecer.
Beichenzi observava do outro lado da sala, o rosto pálido. *Ele se lembra,* pensou o velho. *O selo está rachando.*
— Ancião Beichen — disse Su Yan, baixinho. — Conte-me sobre Heaven-Man Resonance.
A mão do velho tremeu ao redor da peça de xadrez. — História antiga. Ninguém sabe com certeza.
— O senhor estava lá.
Beichenzi riu, alto demais. — Sou apenas um humilde mestre nuo que viveu alguns séculos a mais. Como eu saberia —
— Mentira! — Zhu Chanchan socou seu ombro. Os artefatos escondidos em seu reino interno tilintaram perigosamente. — O senhor é um cultivador. Por que fingir ser nuo?
A cultivação de Beichenzi irrompeu — nove grotto-heavens atrás dele, enraizados em névoa púrpura. — Viu? Mestre nuo.
Zhu Chanchan coçou a cabeça, confusa.
O olhar de Su Yan permaneceu firme. — Eu pensava que Zhou Qiyun fora o primeiro a trilhar ambos os caminhos. O senhor os percorria muito antes dele.
O sorriso do velho se apertou. — Eu me aventuro. Agora — o que queria saber?
— A dinastia Great Han. Os magos realizaram Heaven-Man Resonance em Diqiu. Eles contactaram algo. A cidade desapareceu. — Su Yan se inclinou para frente. — O que eles tocaram?
A testa de Beichenzi brilhava de suor. — Apenas rumores. Dizem... que a ressonância foi longe demais. Eles tocaram não os deuses do céu, mas algo de outro vazio. Um lugar chamado Weixu, escondido no abismo.
*Weixu.* A palavra se instalou nos ossos de Su Yan como gelo.
— Os cultivadores não conseguiam ascender — continuou Beichenzi, a voz baixando. — Então eles aprofundaram seus sentidos, alcançando cada vez mais longe. Encontraram seres em Weixu que lhes ensinaram técnicas de ressonância mais fortes. Técnicas que lhes permitiam tocar aquele mundo diretamente. Alguns diziam que entrar em Weixu era o verdadeiro caminho para a imortalidade.
Su Yan pensou em suas próprias experiências — os sussurros na escuridão quando entrava no dao profundamente demais, a sensação de ser puxado em direção a algo vasto e faminto no abismo.
— Então as artes nuo apareceram — disse Su Yan. — E a cultivação morreu.
Beichenzi abriu as mãos. — A conexão foi rompida. Ou talvez... algo tenha vindo através.
Eles viajaram em silêncio. Yuan Qi os carregou para o sul em direção a Mount Song, seu corpo serpentino cortando as nuvens. A terra tinha mudado — novas montanhas surgiram de abismos, rios fluíam onde antes não existiam. O mundo ainda estava nascendo.
Ao entardecer, alcançaram o pico sagrado. A luz do sol iluminou a cachoeira que caía de seus penhascos, pintando o céu de ouro e carmesim.
— Ali — disse Beichenzi, apontando para o cume mais alto. — A melhor vista por quilômetros. Podemos avistar qualquer árvore de pouso de fênix daqui.
Su Yan assentiu. — Ancião Qi, se faz favor.
Yuan Qi sorriu. — Hora de se exibir.
Ele reuniu sua sword-qi e saltou no ar, sua forma imensa cavalgando vento e trovão em direção ao pico. Os olhos de Beichenzi se arregalaram — a serpente também cultivava ambos os caminhos.
Eles acamparam em um palácio perto do cume. Zhu Chanchan não conseguia ficar parada. Ela mantinha lançando olhares para a escuridão além da luz da fogueira.
— Vem hoje à noite — sussurrou ela. — O Heavenly Demon.
Su Yan alimentou mais uma lenha nas chamas. — Então estaremos prontos.
Bem abaixo, no Sima Grotto-Heaven, escavadores da família Li fizeram uma descoberta. Suas tochas iluminaram algo que não deveria existir — um cadáver revestido de penas e ouro, o rosto sereno, o corpo intocado pelo tempo.
O corpo de um imortal.
E algo mais se agitou dentro dele, despertado pela luz.
Algo faminto.