O sino golpeou primeiro. Esmagou-se nos três anciões como um meteoro, Zhu Chanchan martelando suas costas para amplificar o impacto. Mas os anciões estavam feridos, não indefesos. Eles afastaram o sino para o lado e desapareceram em nuvem e névoa.
Yuan Qi lançou-se, seu corpo serpentino enrolando-se em torno de Su Yan — mas a veste amarela caiu do céu como um segundo céu, sua manga abrindo-se em um túnel infinito. Yuan Qi expandiu-se para cem zhang. A manga expandiu-se com ele. Ele caiu, de mãos vazias, despencando em direção à terra.
O sino o pegou. Por pouco.
— Eles o levaram — sussurrou Yuan Qi, encarando o céu vazio. — O mundo é grande demais. Nunca o encontraremos.
Zhu Chanchan sorriu, afiado e pequeno. — Eu marquei o machado de pedra. Eu marquei seus tesouros quando os socquei. — Ela bateu no nariz. — Eles não podem se esconder de mim.
* * *
Sete anos atrás — ou assim a aldeia se lembrava — um pescador chamado Xu Jin puxou um garoto do Yuan River. A criança não tinha família, nem passado, apenas um nome: Xu Ying.
Agora aquele garoto carregava redes e consertava barcos nas margens do rio inchado, sua pele escurecida pelo sol, os ombros largos apesar de sua estrutura magra. Ele se movia com a força fácil de alguém que passara a vida na água.
Um velho apontou para ele do outro lado da praça. — Ele não estava aqui sete anos atrás! Ele apareceu há três meses, e de repente todos vocês pensam que o conhecem para sempre! Ele é um demônio! Um ladrão de memórias!
Os aldeões balançaram as cabeças. — O velho Xu enlouqueceu.
Xu Ying os ignorou. Ele tinha preocupações mais urgentes — como o deus do rio que chutara seu pai por se recusar a construir outro templo.
— Vou cortar essa estátua de barro ao meio — murmurou Xu Ying, agarrando o machado de pedra ao lado da porta.
Xu Jin o arrancou dele. — Você vai nos matar. Conserte o barco. Amanhã pescamos.
Eles partiram ao amanhecer com mingau frio e raízes secas. O Yuan River tinha se alargado dez vezes desde a mudança do mundo, suas correntes ferozes, suas profundezas escondendo coisas que nunca existiram antes. Xu Jin lançou sua rede onde a água se acalmava.
Nada além de peixes do tamanho de dedos.
Xu Ying tentou. Sua rede puxou com força — algo imenso submergiu sob o barco, arrastando-os para a frente a uma velocidade aterradora. As margens passavam borradas. Pessegueiros alinhavam a costa, pétalas cor-de-rosa caindo como neve.
— Solte! — gritou Xu Jin.
Xu Ying se segurou. O barco disparou em direção a uma parede de penhasco — e passou direto por uma fenda estreita na pedra.
Escuridão. Depois luz.
Eles emergiram em um vale escondido onde o sol pendia diferente e o ar cheirava a primavera eterna. O peixe jazia preso na fenda, morto. O machado de Xu Ying gotejava com seu sangue, a lâmina bebendo o qi do cadáver até brilhar fracamente em vermelho.
— Onde estamos? — sussurrou Xu Jin.
Xu Ying não respondeu. Ele estava encarando o machado em suas mãos, perguntando-se por que seu peso parecia tão *certo*, por que seus músculos se lembravam de movimentos que nunca aprendera.
* * *
Meses depois, em uma aldeia rio abaixo, a cabeça de uma serpente emergiu da água. Uma garota sentava em sua coroa, bonita como uma boneca de porcelana, assassina em seus olhos. Um sino de bronze pairava atrás dela, amassado e mal-humorado.
Yuan Qi sorriu para a multidão aterrorizada — acidentalmente mostrando dentes demais. — Estamos procurando um jovem. Alto. Magro. Pele escura.
Ninguém falou.
— O nome dele — disse Zhu Chanchan — é Su Yan.
Uma criança apontou rio acima. — A família Xu... eles perderam o garoto nas montanhas. Há três meses.
Os olhos de Zhu Chanchan se iluminaram. Ela socou o sino, e seu toque ecoou pela água como um chifre de caça.
— Encontrei você — disse ela.