A nuca de Beichenzi formigou. — Su Yan! É vida ou morte! Se não puder lutar, todos morrem!
Ele não sabia o que quebrar o selo desencadearia. Apenas herdara esse dever de predecessores que envelheceram demais. As lendas falavam do poder do garoto selado, mas lendas eram mentiras embebidas em vinho ditas por homens mortos.
O relâmpago atingiu a coroa de Su Yan. De novo. De novo.
Atrás dele, seu Xiyi Domain se manifestou — não o humilde reino de um cultivador Gate-Breaking, mas algo vasto. Picos de bronze ergueram-se de profundidades sombrias. Uma árvore cósmica engolia estrelas. Bestas de tamanho impossível rondavam nebulosas. Cada trovão fazia as visões mais sólidas, mais *reais*.
O demônio revestido de penas hesitou. Então ele carregou, dividindo-se em dezenas de cópias idênticas.
O machado de Su Yan deixou seu cinto.
Um golpe. As cópias desapareceram. A testa do demônio real se fendeu, o machado enterrado até sua bochecha, 煞气 estilhaçando a consciência da coisa. O cadáver imortal se contorceu, uma sombra negra quase se rasgando da carne.
*Como?* pensou Beichenzi, paralisado de horror. *Ele ainda está Gate-Breaking terceiro céu. Sua cultivação não mudou nada.*
Mas Su Yan se movia como água conhecendo a forma da pedra. Cada golpe encontrava a fenda entre músculo e osso, a fraqueza na armadura divina, o momento antes que a defesa se tornasse reação. Ele não era mais forte que o demônio. Ele era simplesmente, impossivelmente, melhor.
O demônio rugiu e inchou, músculos balonando, tentando subjugá-lo com massa bruta. A mão esquerda de Su Yan formou um selo — um pico de montanha de bronze comprimido ao tamanho da palma — e o pressionou contra o peito do demônio.
A carne inflada implodiu. Ossos estalaram como gravetos secos. O cadáver explodiu em mil pedaços contorcidos, e da ruína uma névoa negra retorcida disparou em direção à testa de Su Yan.
Ele a pegou.
O qi negro martelou contra seus dedos, desesperado, antigo, *apavorado*. O rosto de Su Yan não mostrou nada. Seu punho se fechou. Fogo irrompeu de sua palma, e a névoa queimou até virar cinzas.
Mas o relâmpago não parou.
O vórtice acima se alargou, derramando mais poder no reino manifestado de Su Yan. Beichenzi compreendeu com medo súbito, profundo como a alma: o demônio não fora o alvo.
Ele era.
A ponta do dedo de Beichenzi se acendeu com fogo verdadeiro, alcançando o incenso extinto do altar. Se pudesse reacendê-lo antes —
A palma de Su Yan desceu em um tapa. A chama morreu. As costelas de Beichenzi se estilhaçaram. Ele voou para trás, despedaçando o toco esfarrapado do paulownia, rolando até parar com sangue na garganta.
— Eu não vou deixar você escapar! — gritou Beichenzi.
Seu tabuleiro de xadrez caiu do céu, um reino de névoa verde. Seu Primordial Spirit se manifestou, um dedo alcançando como uma montanha em direção a Su Yan —
O machado se ergueu. O dedo caiu, decepado.
A lâmina de Su Yan dançou pelo tabuleiro de xadrez, e Beichenzi assistiu seus dedos caírem um a um, cada um perdido para um golpe que usava sua própria obra-prima contra ele. Ele desabou de joelhos, seu espírito espelhando-o, chorando sangue.
O machado virou-se para seu pescoço.
Luz vermelha cintilou. A dama de vermelho pegou Beichenzi e seu espírito, rolando-os para fora do alcance enquanto a lâmina fendia a terra onde ele ajoelhara.
— Sua veste amarela nos levou até aqui — ela ofegou. — Não tarde demais.
Beichenzi tossiu sangue. — Cuidado. Ele não é humano. É um monstro...
Su Yan girou. O ancião triste estava no altar, um segundo talismã em uma mão, Pure Yang Fire na outra, alcançando o incenso.
Os dedos de Su Yan chacoalharam. Dez feixes de luz perfuraram as defesas de espelho do ancião, atravessaram seu corpo. O ancião caiu do altar, dez buracos fumegantes em seu peito.
Su Yan saltou para o incenso —
A dama vermelha envolveu os braços em sua cintura. O incenso brilhou. Fumaça enrolou-se nos talismãs. Seus caracteres se acenderam, escurecendo, selando.
— Não! — Os braços de Su Yan irromperam, quebrando seu domínio, estalando seus ossos. Ele alcançou o altar.
O ancião triste rastejou em seu caminho, e a mão de Su Yan perfurou seu peito, fechando-se em torno de seu coração.
O ancião olhou para cima, preparado para a morte.
Os dedos de Su Yan afrouxaram. Seus olhos ficaram vazios — o fogo desvanecendo, memórias afundando sob poeira, séculos de experiência enterrando-se em sombra.
Atrás dele, o incenso queimava firme. Os talismãs bebiam a fumaça.
O selo resistiu.
Su Yan afundou de joelhos, segurando a cabeça. — Onde... quem sou eu?
Os três anciões se encararam, quebrados, sangrando e sorrindo como tolos.
— Paz — sussurrou Beichenzi. — Por mais alguns anos, pelo menos.
Nenhum deles notou a marca em forma de relâmpago na testa de Su Yan se apagar lentamente, escondendo-se sob sua pele, esperando.