Beichenzi e o Deus da Terra da Terra Divina não dormiam bem há dois anos. O Dragão Ancestral os caçava através da terra, forçando-os a se esconder como ratos.
Dois anos atrás, o dragão havia encontrado o templo do Deus da Terra na Terra Divina. Um golpe de sua garra reduziu o santuário a escombros e cortou o suprimento de incenso do deus para sempre.
Os quatro vigias — Beichenzi, o Deus da Terra, Yutang e o Ancião Chou — lutaram juntos e escaparam, mas perderam Su Yan no caos. Dividiram-se em pares e buscaram. Cada pista se transformou em fumaça. Quando finalmente chegou a notícia de que Su Yan havia aparecido no Pântano Yunmeng, correram para encontrá-lo ido de novo, levado pela estrada da cidade de pedra para o céu.
A Estrada para o Céu era proibida mesmo para eles. A permissão exigia petições, aprovações, assinaturas. As viagens de ida e volta se mediam em anos.
Então o selo de supressão de dezesseis caracteres piscou. Uma runa se atenuou, e um canto da prisão se abriu.
As mãos de Beichenzi tremeram.
—A primeira vez, alguém invadiu de fora. Como uma fuga de prisão: abriram a porta, depois mudaram de ideia e a selaram de novo. Mas agora... —Voltou-se para o Deus da Terra—. Agora o prisioneiro está forçando a fechadura por dentro. Conhece o mecanismo. Está testando cada chave.
O pequeno deus ficou pálido.
—Se encontrar a chave certa, sai caminhando. E não voltará a entrar.
—Devemos relatar isso. Eles podem trocar as runas, comprar mais alguns milhares de anos.
—Meu templo é escombros. Não tenho como chegar às cortes superiores. Precisaria pedir emprestado o santuário de terra de outra província, apresentar uma solicitação de transferência, esperar aprovação... —O Deus da Terra gemeu—. Quando a papelada se resolver, seremos poeira.
* * *
O corvo dourado planou sobre o pântano, deixando uma esteira de fogo. Mesmo Beichenzi, observando da cidade distante, sentiu um arrepio primordial. O pássaro era antigo além de toda medida, sua aura sufocando cada besta dos pântanos.
Capturou um crocodilo de cem metros da água, reduziu-o a carne cozida com um hálito de chama, e acomodou-se na árvore Fusang para comer. Os refugiados se reuniram abaixo, pegando pedaços de carne chamuscada como maná.
Quando terminou sua refeição, o corvo notou Su Yan ainda perplexo com a runa de prisão.
—Garoto —chamou de cima—, essas são runas imortais. Registram o Dao dos imortais. Não se quebram facilmente.
Su Yan inclinou a cabeça.
—Ancião, se as reconhece, deve tê-las visto antes. Pode me dizer como quebrá-las?
O corvo estendeu o pescoço até que seu bico quase tocasse a testa de Su Yan. Estudou-o com olhos leitosos e falhos.
—Sou velho demais. Reconheço essas runas. Vi você. Mas não lembro onde.
Levantou a cabeça, e sua voz rolou sobre a água como trovão.
—Minha memória apodrece. Esqueço as feridas em meu corpo, as razões pelas quais estou aqui. Em três mil anos, morrerei de velhice. Minha juventude ainda pode esconder-se em algum canto de minha mente. Garoto, se for corajoso, entre em minha memória e busque o que perdi.
O sino vibrou com advertência.
—A-Ying, este pássaro está senil. Sua mente está colapsando. Se entrarmos e a memória colapsar conosco dentro, ficaremos presos ou apagados.
Su Yan olhou para Yuan Qi, congelado em sua prisão de runas.
—Temos que salvá-lo. Vovô Sino, você causou isso. Vem comigo.
O sino afundou.
—Está bem.
Su Yan pediu ao corvo que cuidasse de Yuan Qi. O velho pássaro entrecerrou os olhos para a serpente selada, assentiu, e imediatamente pareceu esquecer a conversa.
—Lembrará? —perguntou o sino.
—Só esqueço minha juventade! —rugiu o corvo, indignado—. Os eventos recentes lembro perfeitamente!
O sino não discutiu. Sabia melhor do que enfurecer uma criatura que podia engolir estrelas.
As chamas os envolveram. Su Yan sentiu-se arremessado através de um túnel de fogo: memórias passavam em velocidade, montanhas e rios, campos de batalha de deuses e demônios, sóis voando para trás através do vazio. A voz do corvo ressoou, tornando-se distante: "Enviá-los-ei à minha memória mais antiga. Comecem do princípio. Não deverão perder o que buscam."
O fogo se desvaneceu. Su Yan encontrou-se dentro de um ovo quente e redondo. Ouviram-se rachaduras. A luz se derramou.
—Mamãe! Mamãe! —gritou uma voz de menino—. O ovo que aqueci todos os dias eclodiu! Tenho minha própria besta espiritual!
Su Yan viu seu próprio rosto: mais jovem, queimado pelo sol, vestido com um tapa-sexo de pele de leopardo e um colar de dentes de besta. Pulava para cima e para baixo, louco de alegria.
—Vou te dar um nome —anunciou o menino—. De agora em diante, você será Jin Buyi. O Jin Buyi que nunca é abandonado e nunca abandona!
O pintinho olhou para cima para o menino que passaria a eternidade procurando-o.