Ao ver o rapaz avançar lentamente em sua direção, Xiao Mei e suas acompanhantes pararam de uma vez, e o som de suas risadas despreocupadas foi se apagando aos poucos.
Várias donzelas de traços finos que se encontravam ao lado de Xiao Mei abriram seus grandes e límpidos olhos para contemplar o jovem que outrora fora aclamado como a glória da família. Em seus rostos juvenis, a expressão era difícil de decifrar — se pena, lamento, ou algo completamente distinto, ninguém pudera afirmar.
Xiao Mei permaneceu cravada no lugar, com o coração preso num emaranhado de pensamentos. No fundo de seu ser, também a ela nada teria agradado tanto quanto conversar longamente com o rapaz que em outros tempos admirara com tanta devoção. Mas a realidade lhe dizia com clareza que o abismo entre os dois não fazia senão se alargar a cada dia que passava, e que fixar o coração num inútil, um ser do qual toda esperança fugira, era às claras uma insensatez.
Do outro lado do grande salão, Xiao Yan se reclinava com desleixo contra uma estante, com um pergaminho desdobrado diante de si. Seus olhos percorriam o método de cultivo da Palma de Pedra Triturada, embora de quando em quando seu olhar se deslizasse até o campo de treino, onde o combate ardia com fúria. O espaçoso salão parecia, na verdade, dividido em dois mundos distintos — para o oeste, um clamor incessante; para o leste, uma calma serena e aprazível.
Sobre o campo de treino, o adversário de Xun'er era também um rapaz, se bem que aparentasse uns dezessete ou dezoito anos. Tinha um porte bastante apurado, pouco distinto do Jie Lie'ao que haviam topado naquele dia no mercado. O jovem se chamava Xiao Ning. Era o neto do grande ancião da família, e seu talento para o cultivo não era de modo algum coisa menor — com apenas dezessete anos, já havia alcançado a oitava etapa do Dou Qi, e dentro de toda a família somente Xun'er conseguia se manter acima dele.
Xiao Yan jamais guardara grande impressão desse primo paterno seu. Nas raras ocasiões em que seus caminhos se cruzavam, limitavam-se a trocar um cumprimento distante e formal antes de seguir cada um para seu lado. Talvez fosse por causa da atmosfera tensa e pouco harmoniosa entre seu avô e o próprio pai de Xiao Yan, pois Xiao Yan sempre alcançava a perceber que esse primo seu parecia de tudo menos bem disposto para com ele. E talvez fosse também pela indecorosa lassidão e desânimo que o próprio Xiao Yan exibira como um manto durante os últimos anos, pois em todo aquele tempo esse primo jamais se dera ao trabalho de vir procurar encrenca comigo…
Sacudindo as lembranças com um leve e fantasmagórico sorriso, Xiao Yan devolveu a atenção ao pergaminho da Palma de Pedra Triturada e retomou seu estudo.
Sobre o campo de treino, Xun'er se movia como uma pálida borboleta violeta, esquivando com elegância e presteza o feroz e implacável embate de Xiao Ning. Mas durante todo aquele tempo, sobre seu delicado e refinado rosto persistia uma calma imperturbável, tão lisa e imóvel quanto água em repouso — como se não estivesse combatendo em absoluto, mas apenas passando o tempo. E, de fato, sua pequena e macia mão parecia desviar os ataques de curto alcance de Xiao Ning com um quê de tédio, enquanto seu olhar deambulava ocioso por todo o salão.
Então, de súbito, seu olhar errante se deteve em seco.
Caíra sobre o jovenzinho reclinado contra a estante do lado leste, com a cabeça enfiada na leitura. E a essa vista, um sorriso leve, gentil e por completo suave aflorou ao rosto composto de Xun'er — tão belo que todos os rapazes reunidos junto ao campo ficaram enfeitiçados à passagem daquele sorriso, fugaz como uma flor que se abre de noite.
—Prima Xun'er, cuidado! —Justo quando a atenção de Xun'er vagava para outros lugares, ergueu-se do meio da multidão um grito urgente de algum rapaz.
Sentindo atrás de si a violenta energia que se abatia impiedosa, Xun'er ergueu uma delicada sobrancelha — mas, nesse mesmo fôlego, seu olhar voltou a varrer até o jovenzinho sob a estante.
Nesse preciso instante, também Xiao Yan ergueu a cabeça. Ao contemplar Xun'er, surpreendida de maneira tão súbita em pleno campo, franziu levemente o cenho e sacudiu a cabeça com impotência, um lampejo de preocupação apenas disfarçado cruzando-lhe os olhos.
Ao perceber essa mistura de terno reproche e de inquietude na expressão de Xiao Yan, Xun'er piscou seus belos e grandes olhos com ar travesso e brincalhão, e logo sua esbelta figura se deslocou de súbito um único passo para a esquerda. Com apenas aquele passo — estranhamente sobrenatural em sua impossível graça — deslizou-se para fora da trajetória do ataque de Xiao Ning com uma precisão perfeita e infalível.
Enquanto seus pés se moviam, um tênue fulgor dourado brotou da delicada palma de jade branco de Xun'er. Como uma borboleta que se interna através de um muro de flores, passou direto pela tranca das duas mãos de Xiao Ning e, ao fim, deixou cair um golpe de palma leve e errante contra seu peito.
Seus dedos, leves como plumas, tocaram uma única vez o piso de pedra azul, e Xun'er descreveu um círculo gracioso para dissipar a força contrária que lhe fora devolvida. Depois voltou um olhar sereno e firme para Xiao Ning, que fora arremessado a cambalear uma dúzia de passos pelo menos, até que um pé o carregou por completo para fora dos limites do campo de treino.
Diante da visão de Xun'er derrotando Xiao Ning com uma única palma, o espaço em torno do campo ficou brevemente em silêncio. No instante seguinte, um coro de vivas repletos de admiração estourou de uma vez.
—He, he, a prima Xun'er merece sua fama de primeira entre a geração jovem da família —de verdade, ela só fica mais forte. —Embora tivesse sido derrubado da plataforma por Xun'er, Xiao Ning não deixou por isso de exibir um sorriso afável e desembaraçado em todo o rosto, enquanto avançava e falava com voz suave e gentil.
Fixando com firmeza o olhar na donzela diante de si — formosa como um lótus verde —, quase não conseguiu ocultar a admiração que ardia nos olhos de Xiao Ning. Embora fossem primos de nome, ele bem sabia que a maioria das pessoas da família não compartilhava laços de sangue próximos, e que entre ele e Xiao Xun'er não havia uma gota sequer de parentesco.
Como se não sentisse no mínimo o calor abrasador do olhar de Xiao Ning, Xun'er negou com um leve, cortês e ao mesmo tempo distante sacudir de cabeça, e murmurou:
—O primo Xiao Ning é cortês demais ao ceder.
Com isso dito, e sem aguardar ocasião alguma de Xiao Ning estreitar seu afeto, girou sobre os calcanhares e pôs-se a caminhar, sorridente, na direção daquele rapaz do leste do salão que ainda se curvava sobre seu pergaminho.
Como foco em torno do qual girava todo o salão, o menor movimento de Xun'er atraía por força a atenção de todos os que ali se encontravam. Uma miríade de olhares seguiu seu caminho, arrastando-se passo a passo, até finalmente se pousarem sobre o jovenzinho sob a estante.
Mas de todos aqueles ardentes olhos que inundavam o campo de treino, o rapaz parecia não tomar a menor nota. Absorto por completo como estava, permanecia inteiramente perdido dentro de seu próprio pequeno mundo.