Com um ar algo clandestino, Xiao Yan se esgueirou para dentro do próprio quarto, fechou a porta às pressas e se lançou a um canto, onde tirou do peito um grande fardo de ervas medicinais e um punhado de cristais mágicos. Com cuidado, acomodou-os num armário e, em seguida, levou as mãos ao rosto e aspirou fundo o aroma de ervas que lhe impregnava os dedos, soltando uma risadinha abafada de alívio.
Para poder se entregar de corpo e alma ao treinamento, Xiao Yan havia desta vez se provido de materiais para oito meses inteiros. A julgar pelas aparências, pretendia passar o resto do ano num amargo e ininterrupto cultivo. Deu ao armário uma palmada carinhosa, esboçou um sorriso e deambulou até a beira da cama, desabando nela com um suspiro. A longa jornada de idas e vindas o fatigara mais do que estava disposto a admitir.
"Yan'er? Está aí?"
Através de seu aturdimento, chegou o som de batidas na porta. Piscando os olhos sonolentos, Xiao Yan saltou da cama na mesma hora, abriu a porta e encontrou o pai, Xiao Zhan, de pé no limiar. Coçou a cabeça e sorriu acanhado. "Pai, aconteceu alguma coisa?"
"Será que preciso de um motivo para vir ver meu próprio filho? Seu pequeno pestinha — faz dois meses que você está se escondendo de mim." Uma palma grande se estendeu e lhe revirou o cabelo com carinho enquanto Xiao Zhan o repreendia entre risos.
Ao ver aquele sorriso cálido e amável, Xiao Yan sentiu um fio de emoção, e o nariz lhe coçou com uma acidez que não sabia pôr em palavras.
"Ainda remoendo aquele assunto? Ha. Ela não soube ver o valor do meu filho — perda dela. O que há para chorar por isso? Um homem jamais deveria fazer espalhafato por essas coisas. Sei bem: o filho de Xiao Zhan não é um inútil."
Com um leve sorriso, Xiao Yan respondeu em voz baixa: "Pai, dentro de três anos irei eu mesmo à Seita Yun Lan."
O sorriso de Xiao Zhan se apagou um pouco, o olhar cravado com força no filho. Após alguma hesitação, disse: "Eu não tenho queixa alguma — mas você tem mesmo intenção de ir? Não digo que você não esteja à altura de Nalan Yanran, mas o poder da Seita Yun Lan..." Xiao Yan sorriu de novo e assentiu, os lábios finos se apertando numa linha de determinada obstinação. "Pai, há coisas que um homem não pode evitar. Se eu hei de ser um homem, devo carregá-las."
"Ha, esse teu temperamento se parece muito com o meu. Teus dois irmãos mais velhos ficariam contentes, creio, ao saber que você passou a ver as coisas assim." Satisfeito pela resolução do filho, Xiao Zhan sorriu com gáudio, suspirou baixinho e assentiu com ênfase. "Bem. Então aguardarei que meu filho me traga honra! Quero que aquele velhaco, Nalan Su, venha um dia me suplicar, trazendo presentes de pedido, e me implore que recupere a carta de anulação que enviei!"
Xiao Yan assentiu e não pôde deixar de rir.
"Toma. Chame de uma pequena ajuda do seu pai." Do peito, Xiao Zhan tirou um frasco de jade branco, um que Xiao Yan conhecia muito bem, e lho estendeu.
Ao ver o Líquido Fundamental que dera a volta inteira para tornar a cair nas próprias mãos, Xiao Yan sentiu um nó de hilaridade agridoce subir-lhe à garganta, embora o rosto mantivesse uma expressão de perplexidade. "Pai, o que é isso?"
"O Líquido Fundamental. Acelera o cultivo do seu Dou Qi. Comprei-o hoje no leilão." Sorriu de orelha a orelha Xiao Zhan.
"Deve ter custado uma boa soma, não?" Ao tomar o frasco de jade branco, uma corrente morna lhe percorreu o peito.
"Quarenta mil moedas de ouro. Mas desde que lhe seja útil, vale cada moeda." Desdenhou Xiao Zhan com despreocupação.
"Você gastou quarenta mil moedas para me comprar este Líquido Fundamental... Os anciãos vão achar de novo alguma desculpa para arrumar confusão por causa disso." Esboçou Xiao Yan um sorriso sem graça.
"Bah. Eu continuo sendo o patriarca deste clã. A única coisa que podem fazer é mexer a língua." Resfolegou friamente Xiao Zhan.
"Pai, obrigado. Na cerimônia de maioridade, daqui a um ano, farei com que todas essas bocas barulhentas se calem para sempre." Apertou Xiao Yan os lábios e sorriu com suavidade.
"Bem! Aguardarei o instante em que meu filho renasça de novo!" Embora não soubesse de onde tirara o filho tanta confiança, Xiao Zhan se deleitava diante de tamanha segurança em si mesmo, e riu de bom grado.
"Agora não vou mais te tirar o sono. Se precisar de algo, vem me procurar — somos família. Não há nada de vergonhoso em pedir." Com um gesto, Xiao Zhan se virou e marchou a passos largos para o pátio da frente.
"Droga, ainda tenho de ir fazer papel de bobo com aqueles velhos gagás. Eram só quarenta mil moedas de ouro. Parece que eu tivesse comido a herança deles, com toda a gritaria que fazem." Restos das resmunguices de Xiao Zhan flutuaram pela escuridão.
Ao ver o pai desaparecer nas sombras, Xiao Yan esfregou o nariz e sorriu para si. "Fique tranquilo, pai. Farei calar aqueles caras com a pura verdade. Há três anos eu podia fazê-los me admirar, e daqui a três anos também poderei."
Após ficar um tempo na porta, guardou o frasco de jade branco e lançou um olhar de esguelha para o canto. "Menina, escutar escondida as palavras alheias — você se diverte com isso?"
"Xiao Yan-gege, como você tem os sentidos aguçados..." Uma moça de saia violeta esvoaçou do canto, inclinando a cabeça, com um sorriso desenhado com graça no rosto.
Xiao Yan balançou a cabeça, sem jeito, diante da brincalhona moça.
"Para onde foi Xiao Yan-gege esta tarde?" Aproximou-se Xun'er com passo ligeiro e perguntou sorrindo.
"Só saí para dar uma volta."
"Ah, é?" Seus olhos límpidos o percorreram de cima a baixo e, de repente, ela deu um passo adiante, curvou-se levemente e franziu o delicado nariz. "Cheira a mulher."
"Co-hem. Não seja boba. Que aroma de mulher poderia haver?" Um leve rubor trepou-lhe pelo jovem rosto, embora agradecesse que a escuridão o escondesse dela.
"Hehe." Ao que tudo indica muito afeiçoada ao apuro de Xiao Yan, Xun'er estourou numa cascata de riso de prata. Quando por fim recobrou o domínio, calou um instante e disse com suavidade: "Ouvi o que o tio Xiao disse ainda agora. Eu acredito em Xiao Yan-gege, de verdade. E... se um dia você de fato tiver de ir à Seita Yun Lan, Xun'er pode ajudar."
Diante disso, Xiao Yan piscou, o olhar cravado com atenção no belo rosto pequeno da moça. Sob contemplação tão sem recato, um rubor delicado de timidez trepou lento pelas límpidas feições de Xun'er, e ela o repreendeu em voz baixa: "O que você está olhando, Xiao Yan-gege..."
"Hehe. Então Xun'er também sabe corar. Como é raro." Após um instante, riu-se de repente Xiao Yan.
Xun'er lhe lançou um seco cenho. Só você, pensou para si mesma, se atreveria a olhar assim para uma moça.
"Está bem, está bem. Tenha um pouco de fé no seu Xiao Yan-gege. A Seita Yun Lan será poderosa, mas eu ainda sou jovem — tenho todo o tempo do mundo. E Yun Yun, quem quer que tenha criado uma mulher como Nalan Yanran, dificilmente será grande coisa." Rindo, Xiao Yan revirou o cabelo escuro da moça. "Já é tarde. Vai descansar."
Ao vê-lo despedi-la com um gesto, Xun'er não pôde senão balançar a cabeça e assentir, para então, sob o olhar de despedida dele, adentrar devagar a escuridão.
Ao dobrar um corredor, o som de Xiao Zhan discutindo com vários anciãos se derramou de algum quarto, e o motivo da disputa, pasmem, resultou ser precisamente o paradeiro daquelas quarenta mil moedas de ouro. Xun'er se deteve, um leve cenho franzindo suas claras sobrancelhas. Com um suave suspiro, seus esbeltos dedos se fecharam sobre um cartão violeta-dourado.
Passou a ponta do dedo uma única vez sobre o cartão, e ele saiu disparado como um pequeno feixe de luz dourada para dentro do quarto brigão. Lançou um olhar indolente à sala que de repente ficara muda e disse com calma: "Considerem o dinheiro daquele Líquido Fundamental como meu. Há cem mil moedas de ouro neste cartão. Os anciãos não precisam incomodar o tio Xiao por causa disso."
Um silêncio profundo encheu o quarto. Após um longo instante, as vozes apagadas e sem graça dos três anciãos responderam num acordo a contragosto.