À mesa, Xiao Yan deslizou um olhar velado para o outro lado, onde Xiu Yu mastigava o jantar com uma expressão ríspida, seus dentes rangendo a cada mordida como se estivessem destroçando um inimigo pessoal. Xiao Yan curvou levemente os lábios, recordando a sensação peculiar e inesperadamente prazerosa que experimentara minutos antes. Os dedos de sua mão direita, por reflexo involuntário, se movimentaram sobre sua própria palma, como se ainda pudesse sentir algo ali.
No lado oposto, Xiu Yu — que não desviava os olhos ferozes de Xiao Yan durante toda a refeição — notou o gesto. Seu rosto cambaleou entre cores opostas: verde, vermelho, outra vez verde, outra vez vermelho — um semáforo de humilhação e fúria.
Xun'er, sentada ao lado, observou a troca de olhares entre os dois com expressão perplexa. Franziu levemente as sobrancelhas, inclinou a cabeça como quem não compreende a situação, e por fim, apenas sacudiu a cabeça com uma leve resignação. Engoliu a comida em sua boca com calma e elegância, sem dizer palavra.
O olhar de Xiu Yu avançou para o lado — e parou em Xiao Ning, que estava ao seu lado. O garoto estava radiante. O arco de sua boca quase se estendia até o comprimento de metade do rosto. Xiao Yan, tocando suavemente a borda da mesa com os dedos, sorriu interiormente com malícia.
*Esse sujeito provavelmente já recebeu o Líquido Fundamental. Mas o que ele não sabe é que, para níveis acima do oitavo estágio de Dou Qi, o efeito do Líquido é praticamente insignificante…*
Sorriu em silêncio e virou o olhar por distracção ao redor da mesa. O pai e os demais anciãos estavam radiantes, sorrisos enormes no rosto. Xiao Yan se perguntou com confusão: *Refeição em família do clã — isso não costuma acontecer apenas em ocasiões especiais? O que há de tão celebratório hoje? Será que gastar uma fortuna no Líquido Fundamental é motivo para uma festa?*
Xiao Yan, perdido em devaneios, não sabia que a celebração tinha uma origem bem diferente de sua imaginação. A refeição familiar daquele dia não era para comemorar a aquisição do Líquido Fundamental.
Era por causa daquela frase solta pelo misterioso encapuzado de preto — *ele* — no momento da partida.
*Colaboração com um Alquimista de Segundo Grau ou superior.* Para o Clã Xiao, significaria lucros que fariam os outros clãs olharem com inveja ardente. Quem sabe, poderiam inclusive ultrapassar os outros dois grandes clãs e se elevar ao topo.
Não era de admirar, portanto, que até o pai — normalmente sereno e controlado — estivesse tão alegre. E os anciãos… esses estavam literalmente incapazes de fechar as bocas, os velhos olhos semicerrados, como se uma oportunidade inesperada tivesse caído do céu e os deixasse meio atordoados.
A refeição se encerrou sob uma atmosfera de celebração. Ao ver o pai acenar com a mão — sinal de que podiam se levantar — Xiao Yan pulou da cadeira antes de qualquer outro, saiu correndo do salão e desapareceu sem olhar para trás, rumo ao seu quarto.
Pouco depois de sua saída, Xiu Yu — mordendo os dentes — saiu em perseguição, mas não encontrou nem sinal de ninguém. Frustrada, apenas golpeou o chão com o pé e partiu, carregando consigo uma raiva quase insuportável.
…
De volta ao seu quarto, Xiao Yan — agora mais cauteloso após aquela experiência — não cometeu o mesmo erro de antes. Não pediu imediatamente a Yao Lao para refinar. Fechou janelas e porta com cuidado, rolou preguiçosamente para a cama e adormceu profundamente.
Na madrugada, quando o mundo havia se calado completamente, Xiao Yan — ainda deitado — abriu os olhos de repente. Seu corpo se ergueu da cama com agilidade felina. Abriu o armário, retirou os materiais e os posicionou com precisão sobre a mesa.
Depois, virou-se. A poucos palmos do chão, flutuando como uma entidade espectral, Yao Lao se materializou — sua forma etérea pairando a uma altitude de mais ou menos trinta centímetros.
"Mestre", Xiao Yan perguntou em voz baixa, "agora sim, podemos começar?"
"Ah, finalmente você aprendeu a ser mais cauteloso", respondeu Yao Lao, aproximando-se da mesa. Seus dedos virtuais — etéreos e translúcidos — tocaram cada um dos materiais em sequência, verificando-os com uma leve inclinação de cabeça. O tom de voz era calmo, mas carregava um leve filo de severidade. "O refino de medicamentos exige um ambiente de quietude absoluta. Se for interrompido, as consequências são sérias. Hoje em dia, eu não sofri retrocesso, mas no futuro, quando você próprio dominar a arte do refino e ainda assim agir com tamanha negligência — não será um prejuízo de material. Será sua vida."
Xio Yan coçou a nuca com um sorriso constrangido e assentiu obedientemente, reconhecendo seu erro.
Vendo a atitude dócil do aprendiz, Yao Lao relaxou levemente. Estendeu a mão aberta e, após um breve momento de silêncio, uma chama branca começou a subir de sua palma — lenta, controlada, como uma flor abrindo sob a luz da lua.
Enquanto controlava a temperatura da chama com sua percepção espiritual, Yao Lao aproveitou o intervalo para lançar um olhar ao jovem que olhava fascinado para a labareda em sua mão. Após uma leve hesitação, falou em tom informativo:
"Alquimistas geralmente conseguem determinar o grau de outro alquimista observando a cor de sua chama."
"Na maioria das vezes, as chamas de alquimistas comuns são de um amarelo pálido. Quanto maior o grau, mais intensa a cor — e mais forte o poder."
Xiao Yan piscou rapidamente. Apontou para a chama branca nas mãos de Yao Lao e perguntou com total perplexidade:
"Então… por que a sua é branca?"
"O que eu descrevi antes são as chamas comuns entre alquimistas — aquelas geradas a partir do próprio Dou Qi. Mas existe uma segunda via, menos convencional…" Um sorriso sutil brotou no rosto de Yao Lao, carregando um toque de orgulho inconfundível.
"Chama emprestada."
"Chama emprestada?" O termo não era desconhecido para Xiao Yan, mas seu significado profundo o deixou completamente confuso. *Uma chama para refinar… pode ser emprestada?*
"Isso mesmo — chama emprestada." Yao Lao assentiu firmemente. "Neste vasto e infinito mundo, existem certas Chamas Celestiais — fenômenos sobrenaturais do céu e da terra. Podem ser aquelas labaredas que nascem no núcleo de meteoros que caíram do espaço, ou fogueiras ancestrais que ardem nas profundezas de vulcões há milênios… Essas Chamas Celestiais possuem um poder muito superior ao das chamas comuns geradas por Dou Qi. Quando usadas no refino, até aumentam a eficácia do medicamento final."
A expressão de Yao Lao se tornou mais séria.
"Porém, todas as Chamas Celestiais são extremamente instáveis e violentas. É raro encontrá-las, e mesmo quando se tem a sorte de cruzar seus caminhos, controlá-las é quase impossível."
"Muitos alquimistas passaram a vida inteira procurando uma Chama Celestial sem jamais encontrá-la. E mesmo que a encontrassem — para controlá-la, é preciso conduzi-la para dentro do próprio corpo. Mas essas Chamas são, sem exceção, destrutivas e caóticas. Até o aço mais resistente, como o aço mithril, não resiste ao calor de uma Chama Celestial. Quanto mais o corpo frágil de um ser humano… A tentativa de fazê-lo seria suicida."
"Por isso, apenas uma minoria muito pequena e muito sortuda consegue — por circunstâncias inteiramente acidentais — refinar uma única parcela de uma Chama Celestial, desenvolvê-la e nutri-la como uma semente de fogo própria. E essas pessoas… sem exceção, são as figuras mais proeminentes do mundo alquímico."
Xiao Yan ficou hipnotizado. Depois de um longo momento, lambiou os lábios e fixou o olhar na chama branca de Yao Lao — imóvel, fascinado. Ao focar com atenção, percebeu algo estranho: a chama emanava uma sensação quase gélida, como se irradiasse frio em vez de calor.
"A chama do mestre — é também uma Chama Celestial, não é?" perguntou Xiao Yan em voz baixa, testando.
"Ah, sim", respondeu Yao Lao, e seu rosto envelhecido se iluminou por um instante, os olhos brilhando com uma paixão quase ardente. "No mundo alquímico do Continente Dou Qi, todas as Chamas Celestiais conhecidas até hoje foram catalogadas em um ranking: o **Ranking de Chamas Celestiais**. São vinte e três, no total. A minha… é a décima primeira — a **Chama de Gelo de Ossos**."
Xiao Yan engoliu em seco.
"Essa Chama Celestial só aparece uma vez a cada cem anos, no instante exato em que o sol e a lua trocam seus domínios — o momento de transição entre o dia e a noite. E só nos locais mais frios e sombrios do mundo, onde a escuridão se torna absoluta."
Xiao Yan não piscou. Seus olhos estavam fixos na chama branca-azulada que dançava lentamente na palma de Yao Lao, oscilando como um espírito entre a luz e a escuridão.
"Chama de Gelo de Ossos…" murmurou ele, em voz tão baixa que mal podia ser ouvida, como se pronunciasse o nome de algo sagrado e proibido ao mesmo tempo.