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Capítulo 26: Fácil de Conversar

Jian Lai·Capítulo 26 de 32·~18 min de leitura

Atualizado: 2026-08-11 15:11

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Preparar remédio é um ofício delicado — como enfiar linha na agulha —, e Chen Ping'an o exercia com método e cuidado, absorto na tarefa, desprendendo o rapaz uma estranha e misteriosa alegria.

Mas a moça de negro não era pessoa paciente. Na verdade, tirando a lida com a adaga e com a espada, a moça mal conseguia se interessar por qualquer coisa. Ainda menina deixara a terra natal para trás e vagava sozinha pelos quatro cantos do mundo, vivendo na labuta, e por isso a casinha nua e vazia do rapaz, sem um traste que fosse, lhe causava desconforto nenhum — ela já dormira ao relento e comera ao vento tantas vezes que até a pessoa mais esmerada e caprichosa, arrastada pelo vento e pela chuva, acabaria por não se importar com luxos e minúcias.

A moça perguntou: "E a sua mão esquerda, está bem?"

Chen Ping'an, com a mão esquerda enfaixada em tiras de algodão, se aproximara segurando com as duas mãos uma tigela de remédio; quando a moça a apanhou de suas mãos, ele sorriu: "Não é nada. Antes de voltar ao beco, achei umas ervas, pisei-as e espalhei sobre o ferimento. Quando eu trabalhava nos fornos, curava cortes, contusões e coisas assim com essa mesma receita, sempre à prova. É uma prescrição secreta que me deu há muito tempo um velho da loja da família Yang; mas na ocasião prometi a ele não divulgar; se não, moça Ning, viajando você por esse mundo todo como viaja, talvez lhe viesse a calhar. Se quiser, posso ir procurar aquele velho na loja dos Yang e implorar por ela. Só que hoje andei com tanta pressa de chegar à botica que acabei não o vendo; só posso torcer que ele tenha se afastado um instante."

Ao beber o remédio, aquele par de sobrancelhas compridas, que não se pareciam com a folha de salgueiro mas com a lâmina de um punhal estreito, se franziu num leve vinco; ainda assim, sem mudar o semblante, ela esvaziou a poção inteira, devolveu a tigela de porcelana ao rapaz de sandálias de palha que esperava e resmungou: "Bonzão. Nem me espanta que seja mais pobre que rato de igreja — bem merecido, de tanto que se deixa pisar."

Sem dar tempo de o rapaz reagir, a moça acrescentou: "Não leve a mal; eu sou muito franca."

O que a moça provavelmente não sabia é que essa última frase doía ainda mais.

Chen Ping'an abriu a boca, e a fechou.

A moça de negro limpou com o polegar o resto de remédio do canto dos lábios, depois se endireitou e disse com gravidade: "Aquele sábio que agora rege este pedaço de céu e terra — o seu chamado mestre de escola —, embora tenha intenção de arrematar as coisas por você, para que viva sem sobressaltos, você deve saber que a força humana sempre tem um fim, e nem mesmo um sábio é exceção. E mais ainda, a situação daquele senhor Qi não é boa; ele está mais para um bodisatva de barro atravessando um rio, mal salvando a própria pele. O que temo é que depois ele não possa cuidar da sua vida ou da sua morte. E eu, Ning Yao, no trato com os outros devolvo uma gota de favor com uma fonte inteira; mas se alguém me encarar de esguelha, respondo com olho por olho!"

A força humana tem um fim — devolver uma gota com uma fonte — olho por olho — um bodisatva de barro atravessando um rio…

Naquele instante o coração da moça transbordava de um orgulho secreto só dela. Escutem, escutem: será que minha falação não está cheia de sabedoria?

Só que, ao lado da porta de Chen Ping'an, morava uma semente erudita dos clássicos, que todos os dias, ao alvorecer e ao anoitecer, declamava as palavras dos santos para firmar sua vontade — segundo o próprio Song Jixin, "eu nutro meu vasto espírito vital". Então Chen Ping'an, sem nunca ter provado carne de porco, já tinha visto o porco correr; as voltas literárias dos homens de letras não lhe eram estranhas, e até as palavras mais obscuras ele podia pescar pelo contexto, quase todas.

A moça cravou os olhos em Chen Ping'an, procurando no rosto do rapaz pasmo, admiração ou perplexidade — mas Chen Ping'an exibia, exasperante, uma expressão que dizia às claras: "Estou te acompanhando, moça, continue."

A moça se desanimou até a raiz; o seu ar garboso e vivaz perdeu o fio na hora, e ela disse de mau humor: "Por exemplo, eu te salvei a vida, então depois, de minha própria mão, te ajudo a matar o Fu Nanhua da Cidade do Velho Dragão, ou o Liu Zhimao do Lago dos Pergaminhos. Mas se você quiser matar os dois, para arrancar o mal pela raiz, vai ter que coçar o bolso para aplacar o desastre, porque um encontro casual na água, como o nosso, não nos dá um vínculo tão profundo. Então você vai usar uma sacola de moedas de cobre de essência de ouro como meu pagamento."

A moça apontou logo com o dedo aquela sacola de moedas de Saudação à Primavera: "Esta daqui, por exemplo, eu gosto. As outras duas, as de Oferenda e as de Proteção, com esses cunhos feios e essas legendas que não me agradam nada."

E na sequência a moça ergueu o queixo: "Se, além de fechar este negócio, você estiver disposto a me pagar duas sacolas de moedas, então eu deixo arrumadinho o Velho Dragão e a Montanha de Nuvem e Névoa para você. Claro, se eu morrer cedo pelas mãos do Liu Zhimao, esquece o assunto por completo, porque no momento meu cultivo não é alto: dos Nove Reinos Marciais, acabei de subir ao sexto, e como puro artista marcial meu corpo ainda não alcançou uma resistência de respeito; e quanto aos quinze andares da subida do cultivo, quinze limiares, só cheguei ao reino do Portão do Dragão dos Cinco Centrais. Dentro da câmara do elixir tenho seis pinturas, e ainda não consegui dar os olhos ao dragão, nem fazer a Donzela Celestial ascender…"

Nesse ponto Chen Ping'an estava deveras confuso, sem chão nenhum.

A moça se acendeu de indignação e vexame; o seu baixo nível sempre lhe fora motivo de vergonha, e aquela cara de bobo pasmado de Chen Ping'an, de "moça, me explique isso outra vez", dava sem dúvida na sua ferida mais funda.

Vendo o semblante sombrio da moça, Chen Ping'an, por mais tolo que fosse, compreendeu que o clima era ruim, e se apressou a mudar de assunto: "Como é, moça, que antes você estava tão gravemente ferida, e agora parece que já sarou mais da metade?"

A moça baixou um pouco o cenho, cruzou os braços e disse com voz rouca: "Naquele momento eu estava mesmo à beira da morte. Se o Daoísta Lu não tivesse me salvo, eu teria… Enfim — de todo modo, te devo um favor imenso, e menos ainda deveria me aproveitar da sua desgraça para exigir que você tirasse três sacolas de moedas de cobre de essência de ouro. Minha vida, a vida de Ning Yao, não se mede como a da ralé do Liu Zhimao. Então a culpa é minha; faça de conta que eu não disse nada. Quando eu sair desta vila, farei o que puder, me esforçarei para resolver essas preocupações que ficam pendentes para você. Mas já vou avisando de antemão: eu, Ning Yao, só forço a minha força até onde ela alcança, e não vou dar uma vida por uma morte certa, só para trocar uma vida por outra."

Ao que parece, era coisa rara sem preço — aquela baixar a cabeça e admitir a falta da moça —, e por isso o ânimo dela afundou de vez.

Chen Ping'an perguntou: "E qual é a sacola das moedas de Oferenda?"

A moça apontou para um dos saquinhos bordados em ouro.

Chen Ping'an tirou de dentro três moedas, fechou-as na palma e, então, com o braço, empurrou as três sacolas para a frente da moça, e sorriu: "Toma, são suas."

A moça ficou muda. Só depois de um longo tempo voltou a si e perguntou: "Chen Ping'an, quando era criança te bateram na cabeça com a porta?"

Chen Ping'an disse, resignado: "Não. Mas quando eu era garoto e pastoreava gado para os outros, muitas vezes o rabo das vacas me chicoteava."

A moça, de repente, explodiu de raiva, bateu na mesa e exigiu: "Você está a fim de mim?!"

Chen Ping'an ficou pasmado, duro como um toco.

A moça se abriu num sorriso e ergueu o polegar para ele: "Bom gosto!"

E depois curvou esse polegar para si mesma, radiante, e declarou: "Mas eu não poderia aceitar. O homem que eu, Ning Yao, vier a gostar tem que ser o maior imortal da espada do mundo inteiro! O mundo inteiro! O maior! Um grande imortal da espada! Que diante de uma única espada dele se curvem o Ancestral do Dao ou o Buda, que se curve o Santíssimo da estirpe confuciana, todos devem se inclinar, devem abrir caminho!"

Chen Ping'an corou até as orelhas e coçou a cabeça: "Moça Ning, você me entendeu mal — eu não estou a fim de você…"

A moça ergueu uma sobrancelha, pensou um instante, inclinou o corpo para a frente, apertou um olho, ergueu uma mão e, com um dedo de distância entre o polegar e o indicador, perguntou com voz pequena e hesitante: "Nem esse pouquinho de gostar?"

Chen Ping'an, taxativo, disse em tom firme: "Nada! Fique tranquila, moça Ning."

A moça recolheu a mão, soltou um suspiro de chumbo e disse com pena: "Chen Ping'an, mesmo que um dia você tenha a sorte de casar, muito provavelmente vai pegar uma mulher dessas de pouco juízo."

Chen Ping'an, sentado à mesa em frente, sorriu encantado: "Contanto que ela seja boa pessoa, já me basta."

A moça não comentou nada a respeito.

Viver na labuta, contentar-se com a mediania, almejar subir na vida — como dizia a mãe dela, isso vem dos destinos distintos de cada um, sem que haja por força alto ou baixo entre eles.

Só o pai dela tinha uma opinião diferente: o que não está no seu destino, não force; mas não forçar não quer dizer não buscar por inteiro — buscar, é preciso buscar; e se no fim a busca não der fruto, aí já é outra história.

Naturalmente, o pai dela jamais ousaria dizer isso à mulher na cara dela.

Chen Ping'an perguntou de supetão: "A moça Ning também veio à nossa vila em busca de oportunidade?"

A moça não se fez de rogada: "Gastei todo o meu patrimônio, ajuntado em todas as minhas aventuras, mais um favor devido, para trocar por essa vaga de entrar na vila. Mas eu não sou como os outros; não busco oportunidade nem sina. Só quero que alguém forje uma espada para mim, e, se der, a meu gosto. Se é afiada ou não, se pode aguentar um mar de energia de espada — isso é coisa de pouca monta."

Chen Ping'an, perplexo: "Forjar uma espada?"

A moça disse: "Aquele ferreiro, o mestre Ruan — ele tem grande fama por aqui, e guarda uma 'regra inamovível': só uma espada a cada trinta anos. A razão de ele topar vir ocupar o posto de Qi Jingchun é que julgou este lugar propício para acender a forja e fundir espadas. Vou tentar a sorte, ver se ele está disposto a forjar uma espada para mim. Se é que não dá de jeito nenhum, então não tenho remédio, e tomo como meu azar."

Chen Ping'an sorriu: "O homem bom recebe boa paga."

A moça disse, sem forças: "Sem remédio."

Ela olhou de esguelha para o rapaz: "Sua mão esquerda não dói?"

Chen Ping'an piscou os olhos: "Dói, claro."

Ela, duvidosa: "Então como é que você não aparenta?"

Chen Ping'an, como coisa óbvia: "Mesmo que eu me rolasse no chão gritando feito um endemoniado, continuaria doendo do mesmo jeito."

A moça se deu uma palmada na testa: "É mesmo, sem remédio. Duro como meu pai, você; só que o seu talento está muito longe do dele."

Chen Ping'an sorriu sem dizer nada, e ficou contemplando em silêncio o pátio do lado de fora da porta.

A moça empurrou as três sacolas de volta pela mesa. "Não quero."

Chen Ping'an desviou o olhar e disse com voz baixa: "Moça Ning, você já pensou que guardá-las pode não ser uma coisa boa para mim? Desde que vi o senhor Qi, só fiquei mais certo disso."

Uma vez que a moça decidia uma coisa, nunca mais mudava. Balançou a cabeça: "Então é problema seu, não tem nada a ver comigo. Já pensei bem: essa dívida de ter me salvo a vida, um dia eu pago, e sem cortar em nada, para fazer jus ao nome 'Ning Yao'! Mas nesses anos você tem que ficar bem; não vá morrer de um descuido. Só aguenta esse trecho de tempo…"

O rapaz, que até ali fora todo afável, cortou pela primeira vez as palavras da moça por conta própria: "Quem te salvou foi o Daoísta Lu, moça Ning, então você não precisa se sentir em dívida comigo. Se eu não me tivesse acreditado morto e sem remédio na ocasião, e não quisesse deixar o Daoísta Lu fazer um pouco mais pelos meus pais, eu nem teria aberto a porta."

A moça bufou com desdém: "Isso é problema seu!"

O rapaz sorriu e repetiu as palavras dela: "Isso é problema seu."

Ficaram se olhando, num empate.

E, maravilha das maravilhas, foi a moça quem cedeu primeiro, e se queixou, com uma dor de cabeça: "Vamos supor que você goste de mim; de verdade, não posso aceitar."

Chen Ping'an agarrou a cabeça com as duas mãos.

Apanhado com uma moça tão estranha e de uma ideia só, também ele não tinha remédio.

Nesse momento alguém subiu pelo muro do pátio e caiu lá dentro. Não havia que adivinhar quem faria tal coisa: era Liu Xianyang. Ele trotou até o limiar e estava prestes a soltar um berro a plenos pulmões quando pareceu que uma mão lhe fechava a garganta, e nem uma palavra saiu.

Chen Ping'an se levantou de um salto, chegou ao lado de Liu Xianyang e disse em voz baixa: "Posso ir morar na sua casa esses dois dias? Esta moça talvez se hospede aqui comigo."

Liu Xianyang apartou com a mão a cabeça de Chen Ping'an e, esfregando as mãos com avidez, como uma mosca que limpa as perninhas, arrulhou: "Moça, a minha casa é espaçosa e bem mobiliada. Se a senhora não fizer pouco caso, pode se hospedar lá em casa, que tal?"

A moça de negro, de costas para ambos, disse com frieza: "Faço pouco caso."

Liu Xianyang mostrou os dentes num trejeito e, fitando aquelas costas esbeltas e cativantes que traziam a adaga, não desistiu: "Moça, a senhora não sabe: ainda agora duas turmas me encurralaram na ponte da galeria, chorendo e suplicando que eu lhes vendesse a relíquia de família. Recusei todas. E por azar, aquela turma quase me fez levar um esculacho do mestre Ruan. Vejo que a senhora também é forasteira em busca de sorte na vila. Eu, Liu Xianyang, talvez acabe não vendendo para a senhora; mas deixar a senhora dar uma olhada, abrir um pouquinho os olhos, isso eu posso, sem problema nenhum!"

Ning Yao seguiu fria: "Não preciso."

Liu Xianyang se deixou cair no assento que fora de Chen Ping'an e, ao ver o rosto da moça de negro, disse com os olhos arregalados: "Moça, não se faça de cerimoniosa. Chen Ping'an e eu nos esprememos sem problema nenhum nesta tapera; uma vez que a senhora se mudar para a minha casa grandona, não vai mais se sentir apertada, como se não tivesse onde pousar mãos e pés."

Ning Yao respondeu, de cara fechada: "Agradeço a gentileza; e agora, vá se refrescar para lá!"

Liu Xianyang, sem se vexar nem um pouco, levantou-se e disse: "Pois é — um ninho de ouro ou de prata não vale o próprio ninho de palha. Entendido, entendido."

Liu Xianyang arrastou Chen Ping'an para fora do limiar e cutucou o rapaz com o cotovelo: "O que está acontecendo?"

Chen Ping'an disse, sem jeito: "É coisa de não dar para explicar em duas palavras. Só me diz: posso ir dormir na sua casa ou não?"

Liu Xianyang revirou os olhos: "Que pode ou não pode, que nada — mas você tem que me prometer isto: ficar de olho na Zhigui, e sobretudo não deixar que aquele bicho do Song Jixin a forçe e a desonre. Quando chegar a hora, você vai ter que me ajudar a resguardar a pureza da minha futura esposa!"

Chen Ping'an respondeu sem hesitar um instante: "Nem pense!"

Liu Xianyang deu-lhe uma palmada no ombro e disse, cheio de seriedade: "Considere feito."

Lá de dentro da casa, a moça de negro virou a cabeça e disse de repente: "Você sabe que é um molde de espada nascido por natureza? Aquele comprador de porcelana, quando você fez nove anos, não te tirou daqui — muito provavelmente queria que você absorvesse neste lugar mais energia espiritual. Essa escolha foi a certa. Então na casa do mestre Ruan, você não pode perder a oportunidade e fazer com que ele te aceite por discípulo. Lembra: no mínimo, um discípulo da câmara interior; de preferência, um herdeiro direto e sagrado. Quanto a um discípulo de porta fechada, a quem se passa tudo em segredo, não alimente a esperança: seu osso e seu talento ainda não chegaram a um ponto tão espetacular."

Liu Xianyang assentiu com um largo sorriso, resmungando "tá bom, tá bom", enquanto se voltava para Chen Ping'an e apontava com um dedo para a moça da casa e, com o outro, para a própria cabeça.

Chen Ping'an disse: "Ela fala a verdade; leve a sério."

Liu Xianyang largou as brincadeiras, ficou calado e disse em voz baixa: "Acho que tem coisa errada. Aquelas duas turmas da ponte da galeria — quer adivinhar quem abriu caminho para elas? Aquele canalha do Lu Zhengchun, da Rua Fortuna e Posto! É uma doninha dando os pêsames à galinha. Não é que eu esteja caidote por dinheiro; por que diabo eu ia fazer negócio com eles? Além do mais, aquela armadura é uma relíquia que a minha família vem passando de geração em geração. Se eu a vendesse, aí, cada vez que eu sonhasse com meu avô, não seria esculachado por ele até quase morrer!"

Ouvindo tudo aquilo, Chen Ping'an se pôs em guarda como diante de um inimigo temível: "Toma cuidado! O Lu Zhengchun e esses forasteiros — não é gente para se brincar!"

O rapaz se virou e perguntou: "Moça Ning, a senhora sabe a origem dessa gente?"

A moça de negro assentiu: "O velho e a menininha — vêm da montanha Zhengyang, e contam como uma seita justa e ortodoxa do seu continente de Baoping. O velho não é de todo humano… em suma, é cem vezes mais formidável que o Fu Nanhua ou a Cai Jinjian. Aquela senhora e o filho também não são gente simples: afinal, para se entrar na vila em tal companhia, com toda certeza não são ricos comuns. A senhora tem profundezas de sobra, e o menininho também não mostra coração nobre. Então te aconselho que seu amigo se apresse e faça o mestre Ruan o aceitar por discípulo — isso é como um amuleto de proteção pendurado no lado dele. Nesta vila, por mais alto que seja o respaldo, por mais grosso que seja o passado, ninguém ainda ousa medir forças com um sábio."

Chen Ping'an perguntou a Liu Xianyang: "E você tem alguma esperança de virar discípulo do mestre Ruan?"

Liu Xianyang se atrapalhou, enrolado: "Bom — acontece que naquele mesmo primeiro dia que fui de aprendiz ajudante, o jeito como o mestre Ruan me olhou era muito parecido com o olhar do Velho Yao naquela ocasião; vai ver ele me observa um tempo, e depois decide se pega um discípulo ou não. Só que…"

Chen Ping'an o encarou com fúria.

Liu Xianyang deu um risinho envergonhado: "É só que o mestre Ruan tem uma filha, uma joia, que come de um jeito que não dá para acreditar, e me deixou de boca aberta de verdade, então soltei umas brincadeirinhas. Mal eu sonhava que aquela moça, quando brande o martelo na forja, faz isso com um ímpeto feroz e descomunal, e que, no entanto, no trato comum ela é toda tímida e acanhada até o extremo. Como eu ia saber que ela não leva brincadeira? Fui lá e a fiz chorar, e depois, por azar, o pai dela nos pegou em flagrante, e o olhar que me lançou ficou todo torto. Acabou-se qualquer esperança de ser aceito como discípulo. Mas como no fundo eu nunca tive muita graça de virar burro de carga de alguém como discípulo — bastou servir de criado a um velho de gênio tão esquisito quanto o Velho Yao para os dois sabermos o que é bom —, eu só estava mesmo à cata de um prato de arroz na ferraria, entende?…"

Chen Ping'an ergueu a cabeça, de cara preta.

Liu Xianyang, que era meia cabeça mais alto que o rapaz de sandálias de palha, baixou a cabeça sem ousar sustentar o olhar dele.

Aquela cena deixou Ning Yao perplexa.

Era, também, a primeira vez que ela via Chen Ping'an de verdade bravo.

Chen Ping'an perguntou em voz baixa: "Quando você passou junto ao velho pé de acácia, não apareceram umas folhas de acácia no seu corpo, sem motivo nenhum?"

Liu Xianyang balançou a cabeça: "Nenhuma. O que eu recebi foi aquele daoísta adivinho, o que vive olhando de esguelha para a senhora, que me veio com uns agouros de mau presságio; quase destruí a banca de adivinhação dele."

O rosto de Chen Ping'an mudou um pouco, e o cenho se franziu. Voltando-se para dentro de casa, perguntou: "Moça Ning, a título de troca, serviriam três sacolas de moedas de cobre de essência de ouro? E a senhora vai acabar num aperto grande? Nesse ponto, por favor, me avise claramente de antemão."

A moça de negro pensou com cuidado: "O aperto não é pequeno, mas o problema não é grave. Ainda assim, nesses dois dias é preciso ter cuidado; diga ao seu amigo para não sair atropelado pelas ruas, porque no momento a minha situação está bastante ruim."

E continuou: "Duas turmas, duas sacolas de moedas. A história de fazer o mestre Ruan aceitar um discípulo, mais uma sacola. Em suma, quantos casos eu der por feito, tantas sacolas eu cobro. Fica tranquilo: já que aceitei, tenho garantidas, no mínimo, duas sacolas de renda."

Chen Ping'an saiu correndo para dentro de casa e, num pulo, empurrou para a moça as duas sacolas — a de Saudação à Primavera e a outra: "Aceita."

A moça não era, por natureza, de enrolação; aceitou sem birra, guardou as duas sacolas de moedas e, então, disse com um sorriso que não chegava aos olhos: "Tem gente de sobra no mundo que recolhe dinheiro pro próprio bolso; mas um do seu tipo, que gosta de fazer de menino que espalha dinheiro?"

Desta vez o rapaz não discutiu; assentiu e sorriu: "Dinheiro é muito importante, muito, muito importante."

Liu Xianyang, que fora mantido no escuro o tempo todo, aflito, disse: "Chen Ping'an, você endoideceu? Por que dar dinheiro a ela? Duas sacolas inteiras de moedas de cobre — por quanto tempo você não se sustentaria com elas?"

Chen Ping'an respondeu de mau humor: "É o meu dinheiro — que é que você tem a ver?"

Liu Xianyang disse com toda a razão: "Seu dinheiro é meu dinheiro, não é? Pensa bem: se eu viesse te pedir emprestado, você teria cara de me cobrar a dívida?"

Chen Ping'an não disse nada, e se afundou em pensamento.

Liu Xianyang também se deu conta de que suas brincadeiras eram fora de hora, e se calou.

Por um momento, o clima na casa ficou pesado.

Por fim Chen Ping'an perguntou: "Moça Ning, a senhora de verdade não vai, por causa disso, acabar…"

A moça de negro olhou de relance para a espada de bainha branca em cima da mesa e assentiu: "Sem problema!"

E então, não se contendo, disse: "Tão melindroso e indeciso — você não é chato? E ainda me diz que não é um bonzão?"

Chen Ping'an sorriu.

Liu Xianyang pensou um pouco, e não disse nada.

O rapaz alto guardou as palavras na barriga, pensando cá com seus botões — moça, aposto que você nunca viu o outro lado desse sujeito.

Chen Ping'an raramente tinha dias difíceis de conversar; mas quando esses dias chegavam, Chen Ping'an ficava de verdade muito difícil de conversar.

Liu Xianyang já tinha visto.

E Song Jixin, da casa ao lado, provavelmente também já tinha visto.

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