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Capítulo 27: Dar os Olhos ao Dragão

Jian Lai·Capítulo 27 de 32·~15 min de leitura

Atualizado: 2026-08-11 17:03

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Não fazia muito que Liu Xianyang chegara ao Beco do Vaso de Barro quando o beco recebeu outro visitante raro: um garboso jovem erudito de túnica azul chamado Zhao Yao, cujo porte tinha não pouca semelhança com o do professor Qi Jingchun.

Zhao Yao era o neto mais velho do tronco de um dos quatro grandes sobrenomes do vilarejo. Ao contrário dos vadios da laia de Lu Zhengchun — jovens de famílias igualmente ricas, que passavam os dias na ociosidade —, Zhao Yao gozava de excelente reputação. Muitas das velhas viúvas e dos órfãos solitários do vilarejo haviam recebido bondades do jovem. Se alguém tomasse isso pela estratégia de "um sábio famoso que forja sua fama longe da corte", como contam os livros, pareceria superestimar as ambições de Zhao Yao: um caso de medir o coração de um cavalheiro pela vareta de um homem mesquinho. Pois desde os dez anos o jovem fora dado a fazer o bem aos outros, e ano após ano jamais vacilou. Até os anciãos da Rua Fortuna e Posto, que tinham visto o menino crescer, não podiam deixar de dar um polegar para cima, e cada vez que repreendiam os próprios filhos, puxavam Zhao Yao como modelo de excelência. E esse mesmo hábito, com o tempo, deixava o rapaz sem quase nenhum amigo de coração entre seus pares.

A turma de Lu Zhengchun era gente desembaraçada e livre, que não queria tratar com um rato de biblioteca o dia inteiro a recitar os clássicos. Imaginem toda a turma subindo animada num muro para espiar a bela viúva, e de repente alguém ao lado recitasse "não olhar para o que não convém ao ritual". Não estragaria toda a diversão? Enfim, nesses anos o jovem Zhao Yao preferia tratar com gente de fora da Rua Fortuna e Posto. Ruas e becos, grandes e pequenos, ele percorrera quase todos — exceto o Beco do Vaso de Barro, porque naquele beco vivia Song Jixin, um jovem de sua mesma idade que muitas vezes fazia Zhao Yao se sentir pequeno em comparação.

Mas se fosse para falar a sério de amigos, Zhao Yao só contaria com Song Jixin como seu companheiro de xadrez. Embora perdesse para Song Jixin há anos, o ferrão da derrota era uma coisa e a teimosa ânsia de vencer outra, e pelo imenso talento natural de Song Jixin, Zhao Yao nutria no fundo uma sincera admiração. A única coisa que o entristecia era certa intuição: embora Song Jixin brincasse e risse com ele sem reservas no trato diário, ele suspeitava que o outro jamais o tivera de verdade por amigo do peito.

Zhao Yao nunca antes fora à casa de Song Jixin, mas assim que pôs os olhos em certa residência soube na hora que devia ser a dele. A razão estava nos dísticos de primavera colados junto ao portão: uma quantidade incomum de caracteres, e escritos a todas as vistas pela mão de Song Jixin. O raciocínio era simples: o estilo variava de tal modo que cada caractere parecia saído de um traço diferente. Tomemos esses dois caracteres que significam "cavalgar o vento": escritos num só e contínuo fôlego, seguindo o capricho do coração, com um ar de leveza errante. O caractere que significa abismo, com seu radical de água à esquerda, guardava uma intenção funda e evocativa. O único caractere que significa "maravilha", num grande traço ascendente, borbulhava de uma ousadia de espírito como um trovão de dez mil juns. Enquanto o caractere que significa "reino", estava escrito reto, equilibrado, harmonioso, como um sábio sentado com dignidade, sem a mais leve mácula que se lhe pudesse encontrar.

Zhao Yao permaneceu junto ao portão do pátio, quase esquecendo de bater. Com o corpo inclinado para a frente, olhava aqueles caracteres como enfeitiçado, o espírito por completo perdido, sentindo que quase perdera a própria coragem de erguer a mão à porta. Precisamente porque havia trabalhado com tanto afinco a caligrafia, copiando modelo atrás de modelo, era que mais conhecia o peso da força, a profundeza da substância, a plenitude do espírito que habitava aqueles traços.

Com a pena a colmá-lo, Zhao Yao tirou uma bolsa de dinheiro, curvou-se para deixá-la diante do portão e dispôs-se a partir sem dizer palavra.

Nesse instante o portão do pátio se abriu de repente. Zhao Yao ergueu a vista e viu Song Jixin, que parecia prestes a sair com sua criada Zhigui, os dois rindo e papeando.

Song Jixin fingiu surpresa e caçoou: "Zhao Yao, curvando-te tão baixo diante de meu portão — que negócio trazes em mãos?"

Envergonhado, Zhao Yao recolheu a bolsa e abria já a boca para se explicar quando Song Jixin lhe arrebatou das mãos a bolsa bordada, rindo de orelha a orelha: "Ora! Zhao Yao veio com presentes à minha porta: aceitos, aceitos! Mas olha, eu sou gente de casa pobre; não tenho presente digno do olho do Irmão Zhao. Como a todo dom deve suceder um dom, desta vez deixa que eu falhe na cortesia."

Zhao Yao sorriu com amargura: "Esta bolsa de moedas de Proteção — toma-a como meu presente de despedida, e não precisa de presente de volta."

Song Jixin virou a cabeça e cruzou um olhar cúmplice com a criada, entregando-lhe a bolsa. "Vê? Eu te disse: Zhao Yao é o homem de letras mais cortês de todo o vilarejo. O que achas?"

A moça pegou a bolsa, apertou-a contra o peito e, com os olhos reduzidos a duas frestas de alegria, deu um passo ao lado e fez uma profunda reverência — um wanfu —, dizendo: "Agradeço ao Mestre Zhao o presente. Meu amo disse que a casa que acumula boas obras terá bênçãos de sobra, e que quem faz o bem colhe um campo de fortuna. Sua serva deseja ao Mestre Zhao erguer-se direto às nuvens azuis, a jornada de dez mil milhas de uma ave roc."

Zhao Yao apressou-se a devolver a reverência: "Agradeço as palavras de bom augúrio, Senhorita Zhigui."

Song Jixin coçou a nuca e bocejou. "Vocês dois não se cansam?"

Zhigui respondeu sorrindo: "Se eu pudesse enfiar no bolso uma bolsa cheia de moedas a cada vez, sua serva faria dez mil wanfu e jamais se cansaria."

Zhao Yao disse, envergonhado: "Então a Senhorita Zhigui sairá decepcionada."

Song Jixin agitou uma mão ampla. "Vamos, beber!"

Zhao Yao torceu o gesto; Song Jixin o instigou: "Grande parvo! Ler os livros e sair só com regras mortas de letra, e nem um ápice do donaire de um sábio famoso — como podes viver assim?"

Zhao Yao tentou: "Um copinho, para aquecer o espírito?"

Song Jixin revirou os olhos. "Uma grande bebedeira, morto para o mundo!"

Zhao Yao ia falar quando Song Jixin lhe lançou um braço ao pescoço e o arrastou.

Quando a criada Zhigui fechava o portão a chave, o lagarto de quatro patas tentou escapar às escondidas e, de um chute, rolou de volta ao pátio.

Ao passar junto à casa vizinha, a moça ergueu-se quietamente na ponta dos pés e lançou um par de olhares de soslaio, alcançando a ver a alta figura de Liu Xianyang. Este a viu por sua vez e na hora seu rosto florou num sorriso radiante. Ia cumprimentá-la quando ela já recolhera o olhar e se afastara em passo rápido.

O vilarejo tinha uma estalagem de vinho, aliás — só que não era nada grande, e no entanto custava caro. Mas Zhao Yao era, afinal, um rebento do clã Zhao, de excelente nome ainda por cima, e o estalajadeiro, célebre no vilarejo inteiro como o "galo de ferro", naquele dia parecia ter perdido o juízo, batendo no peito para jurar que não cobraría um único centavo. Que dois tais eruditos se dignassem a beber em seu humilde estabelecimento, dizia, era uma honra que dava luz à sua sala; na verdade, deviam ser eles a cobrarem-lhe a ele. Song Jixin estendeu na hora uma palma aberta, todo sorrisos, a exigir a prata no ato. O estalajadeiro, desconcertado, apressou-se a dar-se uma saída airosa, dizendo que ficava a dever, a dever — que amanhã mesmo mandaria uns jarros de bom vinho à casa do Mestre Song. Zhao Yao desejou naquele momento cavar um buraco e se meter dentro. Mas o estalajadeiro, bem conhecedor do feitio estranho do grande jovem amo do Beco do Vaso de Barro, não se enfadara de verdade; ele mesmo acomodou os três junto a uma janela sossegada do segundo andar.

Song Jixin e Zhao Yao falaram pouco, e Song Jixin nem apressou a beber nem jogou artimanhas para encher o outro de vinho — o que deixou Zhao Yao, que se envalentara como quem vai para a morte, perplexo.

Da janela do segundo andar da estalagem via-se de frente uma das placas do Arco Memorial de Doze Pilares, com seus quatro caracteres: "não ceder diante do dever."

Song Jixin perguntou: "O Mestre Qi de verdade não sairá do vilarejo contigo?"

Zhao Yao assentiu: "O Mestre mudou de itinerário de repente, dizendo que pensa ficar na escola e dar a penúltima lição, o 'Conhecimento do Ritual'."

Song Jixin refletiu: "Então o Mestre Qi vai expor uma grande doutrina, para transmitir a todo o mundo o ensinamento do Mais Santo da linha confuciana — para nos dizer que no princípio do mundo não existia lei alguma, e que por isso os sábios usaram o ritual para transformar e educar a multidão. Naqueles dias, todos os soberanos reverenciavam o ritual, sustentando que ir contra a razão e o ritual era entrar no castigo, e daí nasceu a lei. Ritual e lei, ritual e lei — primeiro o ritual, depois a lei…"

Zhao Yao, já meio bêbado, falava com a língua travada: "E tu o achas justo? E por que o Mestre não dá logo a última lição, a 'Reverência ao Ritual'?"

Song Jixin respondeu sem responder: "Antes de sair deste vilarejo — os demônios de montanha e os fantasmas d'água, os imortais, os deuses, os espíritos: acredita e estão; não acreditas e não estão. E quanto a como ensina o Mestre Qi, e como escuta o aluno, que cada um siga seu fado."

A criada Zhigui também bebera um copo de vinho, e luzia um ar tonto, encantador e travesso, e de ponta a ponta não pousou nem uma vez os olhos naquele arco imponente.

No Arco Memorial de Doze Pilares, ao pé de suas colunas de pedra, estavam talhadas as nove bestas estranhas que são os Nove Filhos do Dragão, e além do Tigre Branco, a Tartaruga Negra e o Pássaro Vermelhão.

Os moradores do vilarejo, que ali moravam geração após geração, há muito se haviam acostumado ao espetáculo.

Zhao Yao não pôde conter um arroto, ergueu-se cambaleando e disse: "Parto de ti, senhor; espero que voltemos a nos ver."

Song Jixin pensou, ergueu-se também e disse com um sorriso: "Claro que nos veremos, Zhao Yao. Não te aflijas de que o caminho adiante não guarde ninguém que te conheça."

Zhao Yao, com os dois olhos a nadar, mordeu a língua e falou com toda sinceridade: "Song Jixin, sai tu também logo deste vilarejo. No mundo inteiro, quem não conhece teu nome? Estás certo de triunfar!"

Song Jixin, que claramente não levou as palavras a sério, despediu-o com a mão: "Anda, anda — um fio de tolices de bêbado, uma ofensa ao saber e à compostura."

Uma vez os dois saíram da estalagem, separaram-se. Antes de partir, Zhao Yao — e o vinho, como se diz, envalenteia o coração de um covarde — fez uma pergunta: "Song Jixin, que tal irmos dar uma olhada nos escritórios do superintendente do departamento dos fornos? Eu poderia convencer o porteiro…"

Song Jixin, com o rosto frio, soltou uma única palavra por entre os dentes apertados: "Sai!"

Zhao Yao foi-se cabisbaixo e desalentado.

A criada Zhigui olhou aquelas costas que se afastavam e murmurou: "Amo, ele o dizia de boa fé."

Song Jixin zombou: "Neste mundo, quantas boas intenções de boa gente acabam em más obras e frutos amargos? Por acaso são poucas?"

Ela pensou, e parecia de fato ser uma dessas verdades insípidas e sem sabor, então não insistiu.

A casa de Zhao Yao, na Rua Fortuna e Posto, ficava ao norte do vilarejo, enquanto o Beco do Vaso de Barro ficava a oeste, onde se amontoavam os pobres. Quando Song Jixin e sua criada passaram juntos sob o arco, ela ergueu a vista para a placa que dizia "Espírito Que Sobe Perfurando a Taça e o Touro", e pareceu de novo uma anciã entrada em anos.

A donzela, cujo verdadeiro nome era Wang Zhu, sorriu de lábios cerrados e dentes ocultos.

De volta à residência ancestral da Rua Fortuna e Posto, os criados lhe disseram que a velha matriarca o esperava no escritório, e que devia ir na hora, sem um instante de demora. O erudito de túnica azul, a feder a vinho, sentiu a cabeça a girar, mas armou-se de coragem e se apressou para o escritório.

O clã Zhao não dava sinais de riqueza no vilarejo; guardava suas riquezas bem recolhidas em seu interior, ao contrário do clã Lu, com seu ar de exibição e sua vanglória de família de bibliotecas e sábios. O escritório também estava mobiliado com um gosto clássico e antiquado.

Uma anciã apoiada num bastão estava de pé junto a uma escrivaninha, acariciando-lhe a superfície, o rosto curtido e colmado de uma nostalgia pesarosa e ensimesmada.

Ao sentir o tufo denso de vinho de seu neto mais velho, a anciã não se enfadou; sorriu e o fez entrar com a mão. "Yao'er, entra logo. Que fazes aí plantado no limiar? E o que são uns copos de vinho para um rapaz? Não é como se bebesse urina de cavalo — nada de que se envergonhar!"

Zhao Yao sorriu com amargura e cruzou o limiar, oferecendo à velha matriarca o mais respeitoso dos cumprimentos. A anciã resmungou, impaciente: "Isso é o único mal de ler tantos livros: tanto regra sobre regra que o erudito passa a vida dando voltas como um fantasma contra a parede. Enjoado, de verdade. Toma teu avô: absolutamente do melhor em tudo, só que quando se punha a me falar de grandes doutrinas, se alongava e se alongava sem fim, até me deixar maluca. E aquele ar que ele se dava, aquela pose — viva, viva, pedindo a gritos uma surra! E eu jamais conseguia vencer uma discussão contra ele, o que me dava vontade de lhe dar um golpe com o bastão…"

De repente a anciã achou o próprio galimatias engraçadíssimo e soltou uma gargalhada. "Quase me esqueço — naquela época eu não precisava de bastão."

Perguntou, rindo: "E então, estiveste a beber com aquele pequeno ingrato de olhos brancos de sobrenome Song?"

Zhao Yao disse, sem saída: "Avó, quantas vezes hei de te dizer? Song Jixin é um homem de grande talento, de compreensão rápida — em tudo o que aprende vai um passo à frente dos outros."

A anciã bufou: "Ele? Inteligente, inteligentíssimo, concedo. Mas teu avô o leu de uma só mirada há muito tempo, 'julgado aos três, conhecido aos oitenta' — viu o pequeno desgraçado de cima a baixo. A natureza dele ficou selada desde o princípio. Queres saber o que disse teu avô?"

Zhao Yao apressou-se a responder: "O neto não deseja saber!"

A anciã não deu ouvidos aos desejos de seu neto precioso e continuou por conta própria: "Teu avô disse: 'Poucos anos, muito cálculo no coração. Pena, mas o que há de arruinar o nome de nossos maiores — em certo sentido, esse será ele.'"

Depois apontou para Zhao Yao. "E teu avô disse ainda: 'Doce e aprazível, cortês e frugal — nada de extraordinário à primeira vista, e no entanto o que há de nutrir a própria força vital de nossos descendentes — esse será meu neto!'"

Quando terminou, a anciã sorriu. "Aquele velho louco — azedo como um picles a vida inteira, e no fim, por uma vez, disse uma palavra boa e agradável ao ouvido."

Zhao Yao, algo perplexo, ia falar quando a avó suspirou com emoção: "Velha, velha!"

O jovem reteve as palavras e deu um passo adiante com um sorriso para tomar o braço da anciã. "A avó vive tanto quanto a Montanha do Sul; ainda está jovem e robusta."

A anciã esticou uma mão ressequida e deu umas palmadinhas no dorso da mão de seu neto precioso. "Melhor que teu avô, sim. Lendo os livros aprendeste não só a cuspir preceitos mortos de letra, mas também a dizer palavras agradáveis para alegrar uma alma."

O jovem sorriu: "O avô era um homem de autêntica erudição. O próprio Mestre Qi disse que o avô tinha um método próprio no estudo, e uma perspicácia singular para escrever o caractere 'retidão'."

Diante disso, o rabo de raposa da anciã apareceu na hora, uma autocomplacência incontível que ela não podia ocultar, embora fingisse um bufado: "E por que não? Olha que homem eu soube escolher para mim!"

Zhao Yao apertou os lábios para conter o riso.

A anciã o levou até a cadeira atrás da escrivaninha, e o jovem viu que sobre a mesa repousava um dragão de madeira talhado, enroscado, lavrado com traço cheio de vida — só que, por razões que não sabia explicar, ao examiná-lo de perto aquele dragão verde de madeira tinha olhos sem pupilas.

A anciã pegou um pincel já embebido e imerso em tinta — um pincel novo e afiado cujo cabo era feito do galho de um velho carvalho chinês —, segurou-o entre as duas mãos, trêmulas, e o ofereceu a seu neto mais velho.

Enquanto o perplexo Zhao Yao recebia o pincel, seu ombro baixou — a avó lhe pusera a mão em cima — e ele se deixou cair no assento cujo direito pertencia somente ao chefe do clã Zhao.

Recuando um passo, a anciã disse com extrema solenidade: "Zhao Yao, senta-te! Hoje tu, no lugar dos antepassados em fila do clã Zhao, darás os olhos ao dragão."

——

Fileiras de ídolos de barro arruinados e desmoronados jaziam espalhados por um chão coberto de mato, tortos para um lado e outro, desatendidos e sem ninguém que os chorasse.

Assim fora por mil anos e mais, e vez após vez caíam àquele lugar novas figuras de barro. Os moradores do vilarejo não só se haviam tornado indiferentes a um sem-fim de coisas corriqueiras; na verdade, ao se depararem com esses ídolos, há muito lhes restara pouca reverência.

Os velhos de vez em quando resmungavam aos netos que não fossem brincar naquele lugar, mas aos pequenos continuava encantando esconder-se entre os ídolos e caçar grilos e coisas do tipo. E era de se esperar que quando aquelas crianças crescessem e murchassem até virarem velhos cabeludos, também avisassem aos seus que não brincassem ali — e assim passava de geração em geração, sem vento nem onda, plano e sem relevo.

Ali podia se ver uma cabeça rolada pelo chão, um torso partido em dois, uma palma separada do resto — como se alguma mão tivesse colado os fragmentos a esmo, conservando apenas a aparência de um todo; e ainda daquilo só restava um resíduo de dignidade.

Um jovem de alpargatas de palha chegou apressado da direção do Beco do Vaso de Barro. Na palma apertava três moedas de oferta. Ao chegar ao lugar, foi dando voltas e reviravoltas, murmurando todo o tempo, até que com familiaridade assombrosa achou certo ídolo, agachou-se, olhou para todos os lados — e não viu alma alguma —, e então deslizou silenciosamente as moedas de cobre numa fresta do corpo quebrado do ídolo.

Depois se levantou e procurou um segundo ídolo, um terceiro, fazendo o mesmo com cada um.

Antes de partir, o jovem permaneceu só em meio à erva verde e viçosa, com as palmas juntas, a cabeça baixa, murmurando: "Paz nos fragmentos, paz nos fragmentos. Rogo-vos que cuideis de meu pai e de minha mãe, para que em sua próxima vida não padeçam penúria… Se puderdes, dizei-lhes que agora eu estou bem, e que não se preocupem…"

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