Núcleo Dourado.
As palavras atingiram Zhao Tianxing como um golpe físico. «A filha de um True Person de Núcleo Dourado? Em Songyang?»
Zhang Yu assentiu em silêncio. Conhecia a hierarquia. Refinamento de Qi. Construção de Fundação. Núcleo Dourado. Cada reino era um muro — escalado só pela elite. Um cultivador de Núcleo Dourado tinha se formado numa escola-chave, entrado numa universidade top-ten, se juntado a uma seita importante e ascendido as camadas de Kunxu a alturas que Zhang Yu nem conseguia imaginar.
Alguém daquele nível voltando pra Songyang — Camada 1 — era como um imperador se aposentando numa vila de camponeses. Não fazia sentido.
O motorista sorriu, ansioso por exibir seu conhecimento de insider. «Não só a senhorita Li. O pai dela — Starfire True Person — é originalmente de Songyang. Tá se aposentando. Voltando pra casa.»
*Aposentando na zona de iniciante*, pensou Zhang Yu. *Bizarro.*
«Tem mais», continuou o motorista. «A exposição inclui uma pintura do próprio Starfire True Person — a Pintura de Combate Celestial. Dizem que contém uma arte marcial suprema oculta.»
«Muitos dos presentes não estão só fazendo networking com a senhorita Li. Tão tentando compreender a pintura e extrair a técnica dela.»
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Torre Central de Songyang. Andar 999.
Zhang Yu estava de pé na janela do chão ao teto, olhando para baixo o mar de nuvens abaixo da cidade. Nunca tinha estado tão alto. O mundo lá embaixo parecia uma maquete — ruas do tamanho de veias, prédios como brinquedos, pessoas invisíveis.
Ajeitou o novo uniforme de segurança. O tecido era melhor que a roupa escolar.
Desde que entrou na Torre Central, sentiu que tinha cruzado pra um sonho. Seu bairro suburbano vagamente se parecia com sua vida passada. A infraestrutura da Songyang High já superava qualquer coisa daquele mundo. Mas a Torre Central — 999 andares dela, saturada de tecnologia movida a mana, elevadores impulsionados por arrays que te lançavam centenas de andares pra cima em segundos sem um arranhão — era outra coisa inteiramente.
*Mesma cidade. Três mundos diferentes. Os subúrbios pra mortais. O centro da cidade pra cultivadores. E esta torre pra os realmente ricos.*
*Uma cidade. Três camadas. Três estratosferas de existência.*
«Zhang Yu.» A voz de Zhao Tianxing veio de trás. «O capitão mandou a gente patrulhar. Devíamos ir.»
Zhang Yu se virou. Zhao Tianxing usava o mesmo uniforme. Mas onde Zhang Yu usava como se pertencesse, Zhao Tianxing parecia que estava tentando sair da própria pele. Curvado. Inquieto. Um homem que tinha se mijado e fingia que nada tinha acontecido.
*Ele acha que todo mundo tá julgando. O uniforme, o emprego, a pobreza de tudo.*
Na verdade, ninguém estava olhando pra ele. No momento em que vestiu aquele uniforme, tinha virado decoração — um elemento de fundo, como uma planta em vaso. Ligeiramente mais notável que a vegetação. Menos interessante que as obras de arte.
Zhang Yu deu um tapa no ombro dele. «Peito pra fora. Cabeça erguida. Somos segurança da Torre Central, não entregadores. De que você tá com medo?»
Zhao Tianxing se encolheu com o volume. «Baixa a voz. Vai incomodar as pessoas.»
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A exposição ocupava um andar inteiro — mais de mil metros quadrados. Mesas de buffet. Estações de bebidas. Parecia menos uma galeria e mais uma festa. A peça central — a Pintura de Combate Celestial — pendia sob um pano, esperando a revelação pessoal de Li Xuelian.
Zhang Yu e Zhao Tianxing foram designados a patrulhar o perímetro. Trabalho fácil. Nada acontecendo. Sem multidões ainda.
E aqui estava a coisa estranha — o Contrato do Ritual não o incomodava. Nem um pouco. O Ritual direcionava seus esforços rumo a realizar o desejo do Deus Maligno: estudar, cultivar, trabalhar, ganhar dinheiro, se formar, conseguir um emprego. Trabalho temporário contava. Patrulhar um andar de exposição vazio era trabalho. O Ritual estava satisfeito.
Pela primeira vez em dias, Zhang Yu se sentiu relaxado.
Passaram pela montagem do buffet. Empregados arrumavam pratos em mesas longas. Zhang Yu apertou os olhos.
«Isso é... frutos do mar?»
Zhao Tianxing olhou. Lagostas. Abalone. Mariscos brilhando no gelo.
«Vida marinha», disse Zhao Tianxing. «Aquele de concha — vi quando saí com minha mãe. Tipo quarenta mil yuans a libra.»
«Mas isso é a Torre Central. Normal aqui.»
Na primeira camada de Kunxu — 20 milhões de quilômetros quadrados — não tinha oceano. Frutos do mar eram astronomicamente raros, importados de camadas superiores ou cultivados em ambientes artificiais. O Zhang Yu original só tinha visto na internet. Nunca pessoalmente. Nunca num prato.
«Quarenta mil a libra?» A mente de Zhang Yu acelerou. «O que faz? Aumenta mana?»
Neste mundo, tudo — comida, roupa, abrigo, transporte — se conectava com cultivação. Cada produto prometia algum aprimoramento. Cada refeição era uma pílula disfarçada.
Zhao Tianxing pensou. Balançou a cabeça. «Nunca ouvi nenhum benefício. É só... bom de comer.»
«Só... bom de comer?»
Zhang Yu encarou as bandejas. Comida que existia puramente por prazer. Não cultivação. Não aprimoramento. Só sabor.
O conceito parecia alienígena.
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«Você dois seguranças.» Uma voz fria de trás. «Não patrulhando. Vagando perto da comida. O que estão fazendo?»
Zhao Tianxing quase pulou do uniforme. «A gente não—»
Se virou e congelou.
Bai Zhenzhen estava ali. Uniforme de garçonete. Bandeja debaixo do braço. Expressão como uma manhã de inverno.
Mas Zhang Yu só se virou, casual. «Zhenzhen. Que coincidência te ver aqui.»
Zhao Tianxing sentiu o sangue sair do rosto. Uma colega de turma. Vendo ele de uniforme de segurança. Trabalhando um emprego temporário. Os rótulos iam se acumular — pobre, trabalhador de meio período, liso. Sua posição social ia despencar. Se contorceu como se tentasse dançar e morrer ao mesmo tempo.
«Não esperava que você pulasse décadas de construção de carreira e fosse direto pra segurança», disse Bai Zhenzhen sem inflexão.
Zhao Tianxing agitou as mãos. «Não é— eu só tô aqui com o Zhang Yu—»
Zhang Yu deu um tapa no ombro dele. «De que você tá nervoso? Você ganha oitocentos por hora. Uma hora do seu trabalho alimenta um mortal por dez dias. As pessoas deviam ter inveja.»
«Oitocentos?» Zhao Tianxing piscou. Nunca tinha pensado nisso como impressionante.
Mas Bai Zhenzhen tinha ficado muito quieta. Algo frio emanava dela.
Zhao Tianxing conhecia Bai Zhenzhen de fama. A melhor do ano. Rainha de gelo. Intocável. Só se relacionava com Zhang Yu e Zhou Tianyi. Tinha ouvido que ela era brilhante e orgulhosa e completamente inacessível.
Agora estava em silêncio, encarando. Zhao Tianxing concluiu que Zhang Yu tinha dito algo errado e chateado ela.
«Você ganha oitocentos por hora?» perguntou ela. A voz era ártica.
«Sim.» Zhao Tianxing assentiu, sem entender a pergunta.
Uma voz chamou do outro lado da mesa. Uma garçonete sênior. «Garota nova! Vem pratar os pratos! Para de ficar aí parada!»
Bai Zhenzhen se virou. «Preciso voltar ao trabalho. Te vejo depois.»
Ela se afastou. Por dentro, os pensamentos dela queimavam.
*Segurança ganha oitocentos por hora? Eu ganho quinhentos. Devia ter candidatado pra segurança.*
Zhao Tianxing olhou ela se afastar. «Bai Zhenzhen também trabalha aqui?»
«O que tem de estranho? Quem neste mundo não tá trabalhando?» Zhang Yu tinha reconhecido o uniforme dela no momento em que viu. Dada a situação financeira dela, trabalho de meio período era esperado.
O que o impressionava era que ela trabalhava, estudava e ainda mantinha o número um do ranking.
*O talento da Zhenzhen é monstruoso. Entre todos os discípulos iniciantes de Songyang, ela provavelmente é só um pouco mais fraca que eu.*
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*Novos termos: Starfire True Person (星火真人) — cultivador de Núcleo Dourado, pai de Li Xuelian. Pintura de Combate Celestial (天人演武图) — pintura que supostamente contém arte marcial oculta. Construção de Fundação (筑基) — reino de cultivação acima de Refinamento de Qi. Núcleo Dourado (金丹) — reino de cultivação acima de Construção de Fundação.*