A cidade de Guangui ficava no extremo sul da província de Lan. Não era grande — algumas centenas de milhares de habitantes, mal um quinto da Cidade de Jiayuan — mas seu entorno a tornava famosa. Montanhas a abraçavam por três lados e um lago claro se estendia pelo quarto. O ar era ameno, a paisagem suave, e os ricos vinham fugir do calor do verão. Ali cresciam frutas raras que não se encontravam em nenhum outro lugar, e assim a pequena cidade gozava de fama além de seu tamanho.
A oeste de Guangui erguia-se a montanha Tailan, com mais de três mil metros, coroada o ano todo por névoa errante. Era o quarto pico mais alto de Lan. Em seu topo ficava o Templo Tailan, santuário modesto cujos oráculos eram tidos como infalíveis. Oficiais e mercadores subiam a cada ano para queimar incenso e pedir fortuna, e suas doações mantinham aceso o fogo do templo e seu nome difundido.
Ao pé da montanha, num bosque tranquilo afastado do caminho dos peregrinos, um homem estava sentado de pernas cruzadas sob uma grande árvore. Em suas mãos um objeto pulsava com luz carmesim, rolando devagar contra seu dantian. A cada passagem o calor se espalhava pelos meridianos, perseguindo um frio profundo que resistia a partir.
De repente ele estremeceu e abafou um gemido. A luz vermelha diminuiu, revelando um jade azul impecável, puro como água de nascente, com filamentos escarlates brilhando tênues em seu interior. Qualquer um saberia que não era pedra comum. O homem ergueu a cabeça; a luz mosqueava seu rosto comum e esquecível. Era Han Li, desaparecido de Jiayuan dois meses antes.
Olhou a pedra e sorriu com alívio silencioso.
Desde que obtivera aquele Jade do Sol Morno passara meia lua extraindo o veneno frio do corpo, pressionando o jade contra a carne dia e noite na estrada e em estalagens solitárias. Só naquele dia o último vestígio fora expulso. O processo fora miserável — uma coceira azeda até o osso, como se formigas caminhassem sob a pele, e só de lembrar ele estremeceu. No entanto o jade era um verdadeiro tesouro: podia armazenar qi espiritual e amplificar seu escasso poder, tornando a purga muito mais rápida. Sem essa descoberta precisaria de mais dez dias.
Com cuidado guardou o jade numa caixinha de madeira e ocultou-a entre as roupas, contra o peito. Depois levantou-se, alongou os membros rígidos e deixou a mente vagar.
Depois de ordenar seus assuntos em Jiayuan fora à residência Mo, obteve de Yan Shi todas as informações sobre a Montanha do Dominador e seu senhor Ouyang Feitian, e cavalgou dia e noite com um cavalo cedido pela família Mo. Em dez dias alcançou a vila. Por vários dias estudou suas rotinas até que a chance surgiu: Ouyang, sozinho, admirando a lua num pavilhão isolado. Han Li liberou tudo de uma vez e, com um único talismã de espada, decepou-lhe a cabeça antes que pudesse gritar. A facilidade o inquietou — examinou duas vezes cicatrizes e marcas de nascença para ter certeza de que não era um sósia — e só então envolveu a cabeça e galopou de volta a Jiayuan.
Yan Shi verificou o feito e revelou a verdade: Ouyang dominara a arte externa suprema Armadura do Tirano, temperando o corpo até que nem lâmina capaz de cortar ferro como lama pudesse marcá-lo. Han Li compreendeu. Ouyang tomara a luz da espada por projétil comum e nem se deu ao trabalho de desviar, confiante na invulnerabilidade. Essa arrogância custou-lhe a vida.
A troca foi simples. Yan Shi apresentou o Jade do Sol Morno pelo antídoto prometido. Han Li recusou seus insistentes convites para ficar e partiu no mesmo dia para o sul, rumo a Tailan.
No caminho uma única pergunta o ocupava: como se aproximar dos cultivadores do Vale Tailan sem convidar desastre? Nada sabia de sua índole, se eram retos ou demoníacos. Bater com ousadia seria entregar-se como prato para ser devorado se fossem perversos.
Assim, ao chegar a Tailan não se aproximou. Hospedou-se numa aldeia próxima e passou os dias perguntando aos anciãos por histórias estranhas sobre a montanha. Por fim ouviu algo útil.
Na encosta norte havia uma vertente envolta perenemente em espessa névoa branca, tão densa que não se via a mão diante dos olhos. Que a montanha tivesse bruma era normal, mas que uma única encosta permanecesse selada em toda estação sem clarear era antinatural. Aldeões ousados entraram por curiosidade. Cada vez perdiam o rumo, vagando na brancura, só para emergir inexplicavelmente no mesmo ponto de partida, como se a névoa os devolvesse com gentileza. Como não sofriam dano, mais tentaram repetidas vezes, até que pareceu que sua insistência ofendeu o que morava dentro. Desde um dia indefinido, quem entrava já não saía de imediato, mas ficava preso dois ou três dias, vagando faminto e fraco antes que a névoa o libertasse. Depois poucos ousaram de novo, e com o tempo os aldeões simplesmente deixaram a encosta branca em paz.
O coração de Han Li saltou ao ouvir. Aquela vertente selada por névoa era quase certamente o lugar buscado — se não o próprio Vale Tailan, sem dúvida morada de cultivadores. O que mais lhe agradou foi o temperamento de seu mestre: limitar-se a desviar e depois reter sem matar sugeria contenção em vez de sede de sangue. Talvez houvesse espaço para diálogo cauteloso.
Mesmo assim não se precipitou. Permaneceu no bosque dedicado a expelir o último veneno frio, para apresentar-se em sua melhor forma e guardar toda chance de fuga.
Cumprida a tarefa, sacudiu as folhas da túnica e pôs-se a caminho da aldeia onde se hospedava, com intenção de comer, descansar e na manhã seguinte investigar a encosta.
Acabava de entrar quando viu um jovem de quinze ou dezesseis anos de túnica branca na entrada, gesticulando animado diante de vários aldeões. Naquele momento qualquer forasteiro dificilmente seria comum. Han Li estreitou os olhos e com um pensamento lançou a Técnica do Olho Espiritual.
Um tênue halo de luz espiritual envolvia o rapaz, apenas um pouco mais pálido que o seu. Um cultivador, sem dúvida.
Como se sentisse o olhar, o jovem voltou-se. Seu rosto iluminou-se e correu até ele, mangas esvoaçando.
"Irmão, também vai ao Vale Tailan? Sou Wan Xiaoshan da família Wan da montanha Kuya! Vamos nos apresentar juntos?" gritou antes de recuperar o fôlego, olhos brilhantes.
Han Li o viu com clareza: sobrancelhas nítidas, pele clara, o ar mimado de jovem mestre de grande família.
"Claro," respondeu Han Li com calma. "Mas sabe onde fica o Vale Tailan?"
O rapaz coçou a cabeça, sem jeito. "Meus mais velhos só disseram que fica ao norte de Tailan, sua entrada selada o ano todo por névoa. Do resto não faço ideia. Perguntei àqueles aldeões e também não sabiam! Você deve saber, irmão?"
Reprimindo um sorriso, Han Li perguntou: "É sua primeira viagem longe de casa, irmãozinho?"
"Dá para perceber?" Wan Xiaoshan corou e assentiu. "De fato é a primeira vez que me afasto tanto."
"Então siga-me," disse Han Li. Até então não tinha certeza de que a estranha encosta fosse o Vale Tailan, mas as palavras do rapaz dissiparam sua última dúvida. "Eu o levarei."
"Maravilha! Enfim poderei ver como é de verdade!" celebrou o jovem, a excitação apagando seu nervosismo.
Han Li sorriu levemente enquanto partiam juntos. Daquele jovem cândido poderia aprender muito sobre o mundo do cultivo sem revelar sua própria ignorância.
"O que espera ver no Vale Tailan?" perguntou com naturalidade enquanto caminhavam para a encosta que já havia explorado.
"Oh, muitas coisas! Quero ver os feitiços e artes secretas de outras famílias e seitas, e trocar por coisas que desejo," respondeu o rapaz sem reserva.
Han Li emitiu um suave som de reconhecimento, mas por dentro os pensamentos se tensionaram. Pelo tom, muitos cultivadores estavam se reunindo no Vale Tailan. Algum grande acontecimento devia estar em curso.
Uma leve inquietação o acompanhou enquanto guiava o caminho, a névoa branca da encosta norte já visível tênue entre as árvores.