—Ah! —Han Li ergueu uma mão bem alto e cerrou o punho, soltando um grito de alegria.
Naquele momento, seu temperamento de criança se mostrava por inteiro, sem nenhum disfarce.
Sua suposição se revelava evidentemente certa: portas e janelas fechadas estorvavam a capacidade da garrafa de atrair os fios de luz branca. Era somente em terreno amplo e desimpedido que a garrafa absorvia melhor a luz e podia formar um aglomerado de luz maior. Embora ainda não soubesse de onde vinham aqueles fios, nem para que lhe serviriam os minúsculos pontos de luz que a garrafa engolia, estava claro que dera um grande passo rumo ao desvendamento do mistério.
Han Li sentia que estava prestes a decifrar o segredo da garrafa, e isso o deixava mais entusiasmado do que nunca.
Somente quando o céu esteve quase a clarear é que o brilho ao redor da garrafa foi se apagando aos poucos, até que a garrafa recuperou sua quietude. Durante todo aquele tempo, Han Li observou suas transformações ao lado dela, sem deixar ao mesmo tempo de vigiar para que ninguém descobrisse o que ali acontecia.
Ele se inclinou, recolheu a garrafa e a examinou.
Nada mudara em relação a antes; a rolha continuava presa a ferro e fogo, e não se soltava.
Han Li se decepcionou, mas vendo que o dia vinha rompendo, guardou a garrafa a contragosto. Ainda precisava voltar correndo à câmara de pedra para se assentar em meditação e cultivar.
Nos dias que se seguiram, a certa hora de cada noite, a garrafa produzia o mesmo espetáculo estranho. Inumeráveis fios de luz, como mariposas que se atiram à chama, eram atraídos para a garrafa e, por sua vez, se convertiam numa profusão de minúsculos pontos de luz que a garrafa devorava avidamente.
Justamente quando Han Li começava a crer que aquilo voltaria a acontecer todos os dias, no oitavo dia sobreveio outra mudança.
Quando Han Li chegou ao seu lugar de costume, tirou a garrafa e a pôs no devido lugar, a absorção dos pontos de luz mal durou um breve quarto de hora antes de parar. Então, as veias verde-escuras da garrafa se acenderam de súbito num deslumbrante fulgor verde, e em sua superfície afloraram uns antigos caracteres dourados e símbolos. Aqueles caracteres estranhos eram de feitura suave e traços curiosos, portando em si um indescritível sabor de alta antiguidade, e não cessavam de cintilar e errar pela face da garrafa.
Aquele espetáculo tão insólito durou apenas um instante antes de voltar a desaparecer, deixando tão somente uns quantos caracteres dourados que se salientavam da superfície da garrafa, como se tudo houvesse regressado ao ponto do qual partira.
Depois de ter presenciado tantos acontecimentos estranhos nestes últimos dias, Han Li já não se assombrava tanto com eles como no começo. Ainda que na garrafa ocorressem coisas ainda mais peregrinas, já não conseguiriam deixá-lo boquiaberto.
Tomou a garrafa com despreocupação e, quase sem pensar, tentou abrir a tampa.
Suavemente, sem o menor esforço, a rolha se desprendeu em sua mão.
Inacreditável! Han Li ficou a olhar, estupefato, para a rolha que tinha entre os dedos.
Será que havia resolvido tão sem esforço, sem gastar truque nem engenho algum, aquela dificuldade, aquele grande tormento que levava dias sem conseguir resolver?
Quando Han Li se certificou de que o que via diante dos olhos era real, de que o segredo da garrafa jazia já ante sua vista, não pôde mais conter a emoção do coração. Aproximou o olho da boca da garrafa e espreitou o interior.
Dentro da garrafa, uma minúscula gota de esmeralda, não maior que um grão de soja, rolava lentamente, tingindo toda a parede da garrafa de um verde brilhante.
O que era aquilo?
Han Li se sentiu antes decepcionado. Depois de tanto esforço, não obtivera senão uma coisa tão insossa.
Desanimado, recolocou a rolha na garrafa, guardou-a na bolsa de couro e se encaminhou para sua morada, deixando que toda aquela empolgação de um instante atrás se dispersasse aos quatro ventos.
Ainda que a rolha houvesse por fim se aberto, o resultado o deixava plenamente insatisfeito.
Han Li decidiu que, quando não tivesse nada melhor a fazer, voltaria a inquirir o segredo daquela gota verde. Quem sabe, com o tempo, ela lhe deparasse uma pequena surpresa.
O que ele precisava fazer agora era voltar e dormir bem, para repor o sono perdido. Todas essas noites não descansara como devia, e sua prática de dia sofrera muito por causa disso. Além disso, seu ânimo abatido despertara algumas perguntas do Doutor Mo.
Desde que Han Li se tornara discípulo pessoal do Doutor Mo e rompera a primeira camada da Fórmula, passara a sentir que já não tinha motivo algum para continuar cultivando-a. A isso se somava que os resultados da prática o desagradavam tanto que não conseguia reunir ânimo para isso, por muito que tentasse.
Por isso o Doutor Mo o repreendera com severidade por causa do assunto.
Mas quando chegava a hora de praticar, Han Li continuava sonolento, apático, sem energia alguma.
Semelhante estado de coisas levou o Doutor Mo quase ao limite da exasperação, e durante uma temporada chegou a se perguntar se não teria escolhido o discípulo errado.
Ao pensar nisso, Han Li se sentia por sua vez um pouco injustiçado. Não era que ele quisesse estar assim, mas realmente não se encontrava em boa forma.
O que Han Li não podia ter imaginado é que, no próprio dia em que despertou daquele sono, voltaria a se entregar, por vontade própria e de todo o coração, a um frenesi de cultivo.
A razão de semelhante reviravolta não era senão umas poucas palavras leves do Doutor Mo.
— Cada vez que levares esta Fórmula a um nível superior, duplicarei a prata que te pago a cada mês — disse o Doutor Mo, que enfim vira o desejo de riqueza em Han Li e achara o remédio desde a própria raiz. Com uma só frase simples, amarrou-o à carruagem de guerra do cultivo desesperado.
Nos dias que se seguiram, Han Li se esforçou com todas as forças por dominar o nível seguinte da Fórmula.
A cada dia, da alvorada ao meio-dia, do meio-dia ao entardecer, entrava duas vezes na câmara de pedra e se assentava em meditação e cultivo, levando uma vida monótona, repetida sem fim, e pondo tudo o mais nas costas.
Para que pudesse se dedicar de ânimo inteiro à sua arte, sem que o mundo de fora o perturbasse, o Doutor Mo fechou por enquanto todo o Vale das Mãos Espirituais aos de fora, atendendo e curando os enfermos para além da entrada do vale, e providenciando que Han Li nunca mais se preocupasse nem com a roupa nem com a comida de cada dia.
E assim, aos poucos, o assunto da garrafa foi se apagando da memória de Han Li.
Foi o outono e veio o inverno; passou a primavera e chegou o verão.
Num piscar de olhos, haviam se passado quatro anos, e Han Li tinha catorze.
Tornara-se um rapaz moreno de pele, taciturno e resoluto, dos do campo. Visto de fora, não se diferenciava em nada de qualquer garoto de uma família camponesa ordinária: igualmente pouco chamativo, nem garboso e esbelto nem elegante e galante.
Percorria cada dia entre a câmara de pedra e sua morada, de sua morada à câmara de pedra, e de vez em quando ia até o Doutor Mo aprender um pouco de medicina e folhear os diversos livros de seus aposentos. E assim todo o vale se tornou seu mundo inteiro, e, a seu tempo, cultivou sua Fórmula até o terceiro nível.