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Capítulo 32: Nasce a Fidalguia

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 32 de 33·~6 min de leitura

Atualizado: 2026-08-08 16:25

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Han Li se virou e foi andando para a porta. Ao chegar ao limiar, voltou-se de súbito e soltou mais uma pergunta: "Aquele companheiro que se tinha sempre de pé por trás das costas do Doutor Mo, e que em todo este tempo não proferiu palavra alguma, que qualidade de homem é?"

Diante daquela pergunta tão súbita e desusada, o Doutor Mo sorriu um pouco e, com astúcia ladina, respondeu sem responder: "Estás tão perspicaz que pois adivinha, e juro que o hás de acertar sem dificuldade."

Han Li meneou a cabeça e saiu com desembaraço da câmara do Doutor Mo, sem que pudesse dizer-se se era que não sabia adivinhá-lo, ou que não queria sequer dar-se ao trabalho de intentá-lo.

Assim que Han Li pôs o pé fora da porta, seu semblante se ensombreceu até a penumbra mais tétrica. Naquela pendência com o Doutor Mo não oferecera a menor resistência antes de ficar preso num abrir e fechar de olhos, o que não provava senão quão novato ainda era ele, que se figurara poder aparar o golpe por duas voltas servindo-se de sua casquivana perspicácia. E para completar, o frasco de água de cinco venenos que fabricara com tal suor de engenho jamais cumpriu seu ofício, pois lho arrebataram antes que pudesse servir. Devia voltar a seus aposentos e cismar com empenho como fortalecer as próprias forças. Com tais pensamentos batendo-lhe no peito, pôs-se a andar a grandes passos para sua morada, de nenhum modo resignado a ficar assim sob o jugo do Doutor Mo.

Dentro da câmara, o Doutor Mo ficou boquiaberto contemplando o chão de tábuas, onde um buraco negro, grosso como uma tigela de arroz, fora queimado de lado a lado. Pois instantes antes disparara, com mão distraída, um tiro de prova desde o cilindro de ferro, e o veneno que dele saiu despedido roera as tábuas com facilidade despreocupada. Diante de tão raro poder corrosivo, o Doutor Mo já não pôde conter o espanto que lhe subia ao peito; saltou no ar e despejou um torrente de pragas: "Moleque de má laia! Quando aprendeste a temperar semelhante veneno? Jamais te ensinei coisa desta sorte. Tinha-o eu por não mais que um comum pó que deita dormindo a homem e a deus. Tão cruel e desapiedado é este brejeiro, que voltaria o rosto contra seu próprio mestre sem pestanejar."

Han Li, que nada sabia do susto que dera ao Doutor Mo, voltou a seu aposento, atirou-se de comprido sobre seu colchão e caiu num sono fundo e pesado; pois tão grande revés de fortuna lhe esgotara corpo e mente por igual, e lhe era mister descanso para reparar as forças.

Han Li tardou longo trecho em recobrar de todo o espírito, e quando ao fim despertou de seu sono ergueu-se e estudou o céu. No oriente assomava um pálido fulgor de alvorada; assim compreendeu que era de manhã do dia seguinte, e longa fora a dormida. Ainda assim, não se levantou do leito, senão que reclinou o queixo sobre ambas as mãos, com os braços apoiados nos joelhos, e se pôs a cismar como poderia desenvencilhar-se do aperto do Doutor Mo.

Evidente é que dentro do ano era ele inteiramente seguro; pois seu mestre, por salvar a própria vida, não só lhe perdoaria senão que se afadigaria com todas as forças por mantê-lo incólume. Mas se continuaria a salvo uma vez consumado o ano, já é coisa que não podia dizer-se à ligeira.

Da Fórmula Sem Nome não tinha Han Li por que se inquietar, pois apenas uns dias atrás já a cultivara até o quarto nível, e daqui a um ano o quinto cairia de certo em sua mão sem grande trabalho. O negócio da Pílula do Verme Cadáver também era fácil de aplainar: com o tempo, não teria senão mostrar a seu mestre o progresso de seu cultivo e, antes que o outro esperasse cura, ameaçá-lo de reter o antídoto como penhor de trato; pois o velho, por amor de seu couro, não havia de arriscar-se a ofendê-lo por coisa semelhante.

Então, de repente, Han Li recordou algo. De sua pessoa tirou um frasco de remédio e deitou dele uma só pílula de um verde de esmeralda, que engoliu com a cabeça lançada para trás. Quando o poder da droga começou a obrar, assentou-se em silêncio e voltou seu olhar ao interior de seu próprio corpo.

"Ah!" murmurou entre dentes, meio rindo: "Nisto da Pílula do Verme Cadáver não me enganou o velho raposo Mo. Até este Pó do Espírito Claro, que desfaz cem venenos do mundo, nada pode contra a coisa. Deveras hei de aguardar o ano inteiro antes de poder arrancar-lhe o antídoto." Dito isto, guardou o frasco de novo no seio, levantou-se da cama e baixou ao chão.

Pôs-se a rodear a única mesa que mobiliava o aposento, com as mãos cruzadas às costas, revolvendo na mente, enquanto passeava, as muitas perguntas que o assediavam. E é que, na verdade, Han Li não cria de todo quanto lhe contara o Doutor Mo, sabendo bem que muito disso havia de ser falso; mas mesmo sabendo-o não podia resistir-se, pois o velho lhe tinha retida a família como refém.

Duvidava Han Li com harta razão de que o Doutor Mo guardasse de verdade sua palavra uma vez passado o ano. Se a coisa fosse tão plana quanto o outro a pintara, fácil seria de arranjar, e ele não teria por que brigar em absoluto; mas temia que o homem escondesse em seu plano alguma parte que lhe fosse em dano, e se voltasse contra ele com mão cruel em chegando a sazão. Se não fizesse preparativo algum, não ficaria sem o menor vão para se defender?

Uma e outra vez deu Han Li voltas à coisa na cabeça, e não achou modo bom de se desfazer dela. Como estavam as coisas, nem ele nem o Doutor Mo podiam estar tranquilos. Um temia que o descuido de seu cultivo custasse ao velho a mesmíssima vida; o outro temia que, uma vez seu mestre pusesse de parte toda congoixa, se lhe lançasse em cima sem clemência. Na verdade poderia ele ainda usar isto como um chicote para ameaçar o velho e fazê-lo temer mexer-se; mas como o adversário lhe aferrara o nervo vital de sua família, não lhe ficava senão encolher-se e ceder à necessidade.

"Pois acaso hei de apostar minha própria vida à palma da mão alheia, e confiar que o outro me mostre mercê quando chegar a hora?" Han Li estava por perder o ânimo. Mas no instante derrubou tal tolice. "Não, jamais farei tal coisa. Meu próprio destino não há de pender de um capricho alheio. Deixar quanto é meu em mãos de outro é a mais tola ideia que homem algum possa acalentar."

E no entanto, depois de espremer o cérebro até doer, deu Han Li ao fim com um plano que plano era, ainda que nada heroico. Resolveu fortalecer a própria pessoa por muitos lados, e entesourar quantos pontos pudesse urdir, de sorte que lhe infundissem respeito a seu mestre; e se o homem de verdade quisesse golpeá-lo, ainda lhe ficaria algum vão para se salvar. Era um expediente tosco, que não podia senão plantar-se à defensiva e deixar que o primeiro golpe caísse sobre o inimigo; mas por ora nenhum outro caminho se lhe abria, e este, sem cair de todo mal, era o mais prudente e acertado.

Tomada sua resolução, decidiu Han Li sair a dar um passeio. Empurrou a porta e saiu ao campo aberto diante de sua morada, esticou-se preguiçosamente e soltou um bocejo enorme. De cara ao vento matinal e pungente, cravou os olhos no vermelho sol que se erguia pela metade sobre o horizonte, e uma fidalguia heroica lhe inchou o peito: "Meu próprio destino só pode estar em minha própria mão, e jamais homem algum o há de mandar."

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