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Capítulo 33: Trato Feito em Segredo

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 33 de 33·~6 min de leitura

Atualizado: 2026-08-08 16:14

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Han Li agarrou a corda do balde de madeira e o atirou ao poço lá embaixo. Um puxão para trás, um erguer para cima, e o balde subiu transbordando de água de nascentes. Erguendo-o sem o menor esforço por cima de sua cabeça, torceu o pulso e, num jorro de água, verteu um balde de água fria desde o alto da cabeça até a planta dos pés.

"Ah, que frescor!" "Ah, que bem faz!" exclamaram a um tempo Han Li e outro rapaz, num arrepio de agrado. Não era para menos, que estávamos no mais recio do verão, quando o calor aperta em demasia; ambos levavam as costas descobertas, e verem-se borrifados de cabeça com aquela nascente de gelo era um consolo para todo o âmbito do corpo.

"Eh! Irmão mais novo Han, de verdade que és mestre em achar lugares de fina escolha. Este pocinho tão escondido, como diabo chegaste a dar com ele!" falou de pronto um dos moços, um rapaz de rosto frio e adusto.

"Isso não é nada. Lugares ainda mais difíceis de achar, não poucos topei eu; só que de nenhum deles corre a água tão fresca quanto desta." O outro rapaz tomou de boa vontade o elogio alheio por inteiro, sem a menor acanhamento. Este rapaz não era outro senão Han Li; o outro era Li Feiyu, vindo buscar remédio.

Desde que Li Feiyu, em sua primeira visita, tomara da mão de Han Li o remédio para a dor e o provara na volta, achando-o de maravilhosa eficácia e que aliviava em boa medida o tormento da Pílula que Drena a Medula, já não pudera desvencilhar-se dele. Desde então, sem o pó medicinal de Han Li, não lhe era possível suportar o suplício que a pílula lhe trazia, e assim a provisão que deveria durar-lhe um ano inteiro foi, no espaço de poucos meses, esgotada pelo próprio Li Feiyu.

Atormentado até o cúmulo por aquela dor inumana, Li Feiyu não teve outro remédio senão engolir o orgulho e acudir por seu gosto a pedir a Han Li o remédio. E Han Li, que à sazão andava buscando como fortalecer seu próprio poderio, ao saber que o outro entrara no Salão dos Sete Extremos, pôs direto a condição de que, em paga, lhe fossem ensinadas as artes sem par de dito salão.

Li Feiyu, a quem não ficavam senão uns poucos anos de vida no melhor dos casos, assentiu com pasmosa prontidão e empenhou sua palavra com todo o coração. E Han Li, para guardar seu segredo de olhares estranhos, achou certos esconderijos sumamente recônditos na cordilheira das Montanhas Caixia, de mais de uma dúzia de léguas, onde os dois pudessem consumar seus tratos.

A intervalos fixos, os dois se davam cita às escondidas; Han Li entregava o remédio, e o outro lhe ensinava alguma das artes marciais aprendidas no Salão dos Sete Extremos. Desta sorte ambos ficaram muito contentes da troca, e assim prosseguiu por mais da metade de um ano.

Nestes meses de trato, Li Feiyu e Han Li cada um veio a ter o outro por homem digno, e sem se dar conta se tornaram amigos entranháveis que nada se ocultavam. Li Feiyu ficou muito satisfeito dos lugares que Han Li lhes achara, e sobretudo deste que tinha o poço, pois de ao redor dele se erguiam cainhas a pino, fechando uma pequena bacia de terra, e o único passo para entrar era uma cova estreita e escondida pela qual havia, de gatinhas, de rastejar-se com mãos e joelhos. E o mais estranho de tudo: a boca da cova se abria no próprio oco de uma velha acácia que se agarrava à beira do penhasco. E o que mais importava: neste abafamento, aqui havia um poço tão fresco e agradável.

Depois de soltar os ossos e os nervos, regar-se aqui com alguns baldes de água fria era ventura que não admitia comparação.

Depois de se aclarar, Han Li deu uma olhada no sol, que já subia alto, e perguntou: "Essa Força Píton Furiosa que me ensinaste na última vez é brava e cabeçuda demais. Não creio que me venha bem. Não tens alguma arte mais ligeira e suave?"

"Irmão mais novo Han, acaso pensas que o Salão dos Sete Extremos é coisa só minha, que possa aprender a arte que me apeteça? Também eu não posso escolher senão uma pequena porção dele para estudar. Minhas próprias artes se inclinam ao claro e ao bravo, de sorte que naturalmente hei de aprender suas artes mais violentas e mais rijas." Li Feiyu cravou em Han Li um olhar de esguelha e lhe respondeu sem boa vontade.

"Irmão mais velho Li, mas olha quem és," tornou Han Li com um risinho de ovelha envergonhada, vendo o outro um ponto zangado, e se apressou a acrescentar uma palavra ou duas de lisonja. "Tu és o mesmíssimo primeiro de todos os nossos discípulos. Como haveriam de medir-te com um membro vulgar do Salão dos Sete Extremos?"

"Coisa rara!" zombou Li Feiyu com um sorriso que não era sorriso. "Conseguir um requebro de nosso grande gênio Han!"

"Gênio eu?" riu-se Han Li. "Não me derrubas acaso cada vez com um ou dois golpes teus?"

"Bah! Isso é porque me valho da verdadeira energia, e quebranto tua sutileza com minha pura torpeza. Isso não é grande habilidade. Se houvesse de prescindir da verdadeira energia, garanto-te que em cem lances não chegaria a pôr-te um dedo em cima."

"Mas quem vai jamais a um duelo e prescinde da verdadeira energia? Irmão mais velho Li leva sua modéstia longe demais."

"Modéstia? Nem um ápice. Jamais antes aprendeste arte marcial alguma, nem jamais brigaste com homem algum; a única coisa que estudaste nunca foi essa desprezível e quebrada técnica de coração que nem um resultado tem. E com tudo isso, em tão curto tempo consegues calar até a medula da arte da espada. Se não és um gênio, o que és? A propósito, essa fórmula tua não tem nem um ápice de poder em si. Por que ainda a socas dia após dia?"

Han Li soltou um sorriso amargo e mudo e pensou para si: "Crês que o faço por meu gosto? Sou um tigre encavalado do qual não posso apear-me; aprendê-la hei, ou não."

"Irmão mais novo Han, não sou eu mestre prolixo," prosseguiu Li Feiyu, aconselhando-o uma vez mais com solenidade e veemência. "Mas com o dom que mostraste neste meio ano de aprender as artes marciais, deita fora quanto antes essa fórmula quebrada, e aprende de mim alguma arte verdadeira com empenho. Ousaria jurar que em não mais de dois anos te destacarás entre a multidão e farás boa figura; e então entre os dois governaremos a Seita dos Sete Mistérios. Não seria isso ventura sem igual?"

O coração de Han Li se comoveu, pois embora o outro lhe dissesse isso mesmo muitas vezes até o enfadar um pouco, era capaz de perceber a sincera lealdade do homem. Ainda assim, meneou suavemente a cabeça em sinal de negativa, e desviou a conversa: "Dentro do Salão dos Sete Extremos, não haverá alguma arte marcial que possa vencer o inimigo sem se valer da verdadeira energia?"

Vendo Han Li mudar de tema, e sendo ele mesmo relutante em insistir numa velha questão, Li Feiyu não insistiu, sabendo que como ele mesmo, o outro devia guardar algum pesar secreto que não podia trazer à boca. Abaixou a cabeça e cismou um pouco, logo a ergueu e disse: "Há na verdade justo tal arte de espada, rara, que não precisa da verdadeira energia para executar-se. Só que ..."

"Só que o quê?" Han Li, ao ouvir que se dava uma arte a sua medida, se apoderou do deleite e o apertou com ânsia. "Só que esta arte de espada jaz no Salão dos Sete Extremos há mais de cem anos, e em todo esse tempo nenhum homem logrou dominá-la. Até se conta que o ancião que primeiro a ideou passou desta para melhor sem tê-la domado. E o mais estranho é seu nome—o Estilo de Espada do Piscar de Olhos. Dize-me, não é nome para maravilhar?" Assim Li Feiyu falou, maravilhando-se uma e outra vez de tão rara arte.

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