Mas Han Li não dispunha de tão longo prazo para esperar. Em quatro ou cinco meses no máximo, o Doutor Mo mostraria a cara e sairia abertamente contra ele; e antes que esse dia chegasse, ele devia ter adquirido alguma medida de meios com que se defender.
E assim assentou por fim num caminho: cultivaria apenas algumas daquelas artes, as mais simples e à mão, tais que pudessem pôr-se em uso de imediato; e todo o resto o deixaria de lado até que —se por algum afortunado acaso lograsse arrancar vivo o seu couro de entre as mesmas fauces do tigre— pudesse voltar a elas com calma.
Deste modo a extensão do seu treino se recortava com brusquidão, e mais depressa poderia aprender essas várias destrezas rápidas e fáceis.
E contudo, no seu coração Han Li sabia muito bem que, ainda que lograsse dominar por completo cada uma daquelas artes, não havia segurança alguma de que igualasse o seu inimigo.
Se o que o Doutor Mo deixara cair da vez anterior não fora uma vã fanfarronice, então, com o antigo posto do homem de senhor de quanto contemplava, devia esconder-se ainda no seu poder não pequeno cabedal de artimanhas cruéis e venenosas que jamais mostrara na sua passada disputa. O que então desdobrara era, com toda a probabilidade, apenas a metade da sua verdadeira força.
Mas, por mais que Han Li evocasse na mente aquela presteza semelhante a um fantasma, o sangue se lhe gelava nas veias, e era agudo na verdade o temor que sentia pelo Doutor Mo.
Sabia muito bem que o pouco que podia aprender em tão breve tempo era coisa mesquinha, e que quase não podia ameaçar o Doutor Mo de modo algum; mas permanecer ocioso com os braços cruzados e deixar-se levar e usar à vontade de outro —essa era uma néscia que Han Li jamais, jamais cometia.
Compreendia, também, que se ele e o homem tornassem a vir às mãos, a única oportunidade de vitória que poderia arrebatar residia no desprezo do outro por ele. Somente se o Doutor Mo, tornado descuidado pela sua boa opinião do próprio poder, deixasse cair a guarda sobre ele, e fosse ferido por alguma ação tomada de surpresa, poderia haver alguma esperança, por ténue que fosse, de ganhar a vida.
Nos dias que se seguiram, Han Li confiou à memória o conjunto inteiro do Estilo de Espada do Piscar de Olhos, e de entre eles escolheu para si várias artes que prometiam o uso mais imediato. Sobre estas se pôs a estudar, dando voltas na mente a como poderia dar com um modo rápido e frutífero de as cultivar.
Após alguns dias de quebrar a cabeça, tirou daqueles livros um método completo e coerente de prática. Que tão tediosa tarefa pudesse acabar-se em tão breve espaço, devia-o ele à sua própria diligência, e não estava pouco satisfeito da sua própria eficiência.
Na meia-lua que se seguiu foi despachando um por um os assuntos balofos que restavam, cuidou de que tudo ficasse em ordem, e não deixou atrás de si nada que pudesse turvar a sua atenção de então em diante.
Primeiro, em certo dia devolveu os manuais, todos eles intactos e sem toque, às mãos de Li Feiyu; e aproveitou a ocasião para lhe contar também dos espiões da Gangue do Lobo Selvagem com que topara pelo caminho, assim como de como vira através da máscara do homem que guardava as grandes cozinhas.
Quando Li Feiyu ouviu tudo, ficou a um tempo assombrado e satisfeito. Deitou um braço sobre o ombro de Han Li e gritou "bom irmão!" uma vez e outra; que Han Li lhe fizesse tal presente de uma façanha tão grande apenas lhe deixou recobrar o fôlego, e o comoveu sem medida.
O que não sabia era que Han Li se afadigava nesses mesmos dias pela segurança da sua própria vida, e que não tinha o menor ânimo de andar à caça de espiões. Passar a façanha adiante sem gastar um ápice do seu esforço, e ganhar de passagem um favor —que mal havia nisso para ele?
Visto aquele assunto, Han Li percorreu a seita em pessoa, buscando os mestres ferreiros de mãos mais prontas, e pôs ante cada um os seus vários encomendas: umas espadas curtas com bainha de distintos modelos, sobre as quais requereu que se lavrassem certos pequenos segredos; e junto destas, um número de peças sem nome cujo propósito ninguém podia adivinhar, assim como vários sinos de ferro pequenos e bem fundidos, tudo isto para se terminar com a maior pressa. Por tudo isto Han Li desembolsou não pouca prata, de modo que sentiu uma dor penetrante pela bolsa esvaziada.
Uns dias depois recebeu as mercadorias dos ferreiros; e ao ver as brilhantes espadas curtas e os destros sinos de ferro, ficou bem contente, e louvou a destreza dos artífices uma vez e outra, julgando bem gasta a sua prata.
Essa mesma noite, Han Li se desvaneceu sem deixar rasto do seu alojamento, deixando atrás de si, à cabeceira da cama, um único papelito, no qual estava escrito:
"Ancião Mo, não há razão para que vos afaneis e vos inquieteis. Não fujo por temor, senão apenas porque morar aqui convosco no mesmo vale pesa em excesso sobre o meu ânimo, e condiz mal com a prática da Arte da Juventude Eterna. Pelo qual o vosso discípulo resolveu buscar para si algum recanto quieto entre as colinas, e entrar ali em reclusão para cultivar. Tende por seguro: exatamente daqui a quatro meses, voltarei em boa hora a encontrar-me convosco. Respeitosamente, o vosso discípulo Han Li."
Recostado na sua poltrona, o Doutor Mo sustinha com a mão esquerda o papelito e o lia com cuidado, o rosto envolto em negros nimbos. Na mesa, ao seu lado, jazia outra nota mais, na qual se assentava a lista do que Han Li encarregara ultimamente aos ferreiros.
Em toda a estância não se erguia som algum senão o ténue bater do indicador direito do Doutor Mo sobre o tampo da mesa.
De súbito soltou um resmungo frio; e o papel da sua mão se desfez num fino pó, que se espalhou pelo chão.
Furiosamente se levantou do assento e deu uma volta ou duas pelo cômodo, com a testa franzida em meditação. Depois de andar um trecho, de cá para lá, deteve-se e se pôs a murmurar consigo:
"Esse malvado pirralho! Não sei o que maquinas, mas qualquer truque que queiras jogar, não podes correr para além do alcance da minha palma. Essa pessoa tua, hei de tê-la —aconteça o que acontecer."
Dizendo isto, o Doutor Mo se voltou em redondo, foi à janela e soltou dos lábios um longo e grave assobio. No instante entrou pela janela um passarinho sem nome de plumas amarelas, deu duas voltas pelo aposento e se pousou no seu ombro.
Não bem se pousara o pássaro quando se pôs a fricar o bico carinhosamente contra o seu rosto, fazendo ouvir ao mesmo tempo um claro gorjeio.
"Vamos, vamos, sei que tens fome. Toma —esta é a tua favorita, uma Bola de Castanha Amarela."
À vista do pássaro, uns vestígios de sorriso assomaram ao sombrio rosto do Doutor Mo, e um olhar de ternura entrou nos seus olhos. Tirou do bolso uma única semente amarela de comida de pássaro e a meteu no bico da criatura.
"Vai, pois. Como antes, mantém estreita vigília sobre esse homem; mal saia destas montanhas, volta voando a mo dizer." Encarregou-o como a um homem com quem falasse.
O pássaro, após ter provado a comida, revoou pelo aposento num pequeno arrebatamento de júbilo, com o seu gorjeio claro e ansioso. Quando acabou, deu uma volta e se disparou pela janela, desaparecendo no céu.
"Ha! Com o Pássaro de Asas de Nuvem a vigiá-lo —o pássaro que dizem voar mais depressa que uma flecha disparada de um arco forte—, já verá que truques podes jogar agora." Falou consigo em voz fria e sombria.
"Quatro meses, dizes? Esperarei que chegue esse dia. O plano está quase maduro. E agora, que se ponha no meu caminho qualquer homem ou estorve os trabalhos desse plano, e o matarei. Ponha-se-me no passo, e talarei o próprio deus; farei em pedaços o próprio buda."
"Ha, ha! Ha, ha!" O Doutor Mo de súbito se largou e estalou numa risada abandonada e desmedida, com os olhos doidos de loucura.