O doutor Mo pousou com leveza no exato lugar onde Han Li estivera de pé e, sem pausa alguma, girou sobre si mesmo como um espectro para voltar a encarar o rapaz. Todo vestígio do orgulho que antes houvera em seu semblante havia desaparecido, restando apenas um rosto vazio e inexpressivo, ainda que em seus olhos luzisse uma estranheza quase imperceptível.
Han Li, por sua vez, não se achava em estado melhor. Ofegava com longas golfadas de ar, tinha o rosto algo pálido, um suor frio perlava-lhe a testa, e em suas faces subira um rubor pouco natural.
Tudo aquilo deixava claro que o próprio meio pelo qual Han Li acabara de salvar a vida lhe consumira a maior parte das forças, e era bem provável que não pudesse executar o mesmo artifício uma segunda vez.
Han Li soltou um profundo suspiro e procurou deixar o corpo frouxo, buscando aliviar a pesada tensão que o uso do Passo da Fumaça Errante juntara em seus músculos. Tal como estavam as coisas, não podia fazer nada além de aproveitar toda ocasião para recuperar um pouco de forças e conservar assim alguma esperança de vitória no embate seguinte.
Baixou os olhos para a mão esquerda, que ainda tremia levemente. Ela se lhe havia quedado por completo dormente, sem o menor tato, e não podia mais erguer uma espada. Aquele jogo de espada com a mão esquerda que tão afanosamente treinara ficava, por ora, inutilizado; não lhe restava senão combater com a mão direita.
Ao pensar nisso ergueu-se nele um sorriso amargo. Perdera a maior parte das forças, não podia executar o prodigioso Passo da Fumaça Errante e, para piorar, via-se reduzido a lutar com uma só mão. Dificilmente poderia estar em situação mais desesperadora. Não lhe restava senão recorrer àquele último golpe secreto que tão cuidadosamente reservara.
Han Li olhou para o sol além dos beirais, meditou um instante e julgou que o momento estava, de fato, próximo e favorável para trabalhar aquele golpe.
Voltou a olhar para a espada cravada na parede. Daquela arma, bem o sabia, já não podia esperar recuperá-la; o homem jamais lhe permitiria aproximar-se para arrancá-la de seu jeito.
Han Li refletiu um momento e, então, tirou do peito outra arma. Era igualmente uma espada curta com bainha, de pouco mais de meio pé de comprimento; tão curta era que melhor caberia chamar-lhe adaga do que espada. Ao desembainhá-la, parecia muito mais larga e grossa que uma adaga comum, e reluzia com um brilho frio e claro que denotava um fio mui agudo.
Lançou a bainha de lado, tomou a lâmina com a mão direita, esticou por completo o braço e apontou obliquamente com a ponta para seu oponente, assumindo uma postura de ataque.
O doutor Mo observou tudo aquilo sem se apressar em arremeter. Cruzou as mãos às costas e, de súbito, o semblante se lhe tornou bondoso. Com voz suave, exortou:
"Han Li, que tenhas escapado de mim uma e outra vez excede de fato quanto eu havia calculado. Mas, achas que desta vez poderás ter a mesma sorte e escapar de novo de sob minha palma? O passo que acabaste de usar é prodigioso, não nego; contudo, parece carregar não poucos limites. A julgar pelo estado de tuas forças, não podes esperar executá-lo de novo com proveito. Vem, rende-te sem rebuliço. Bem podes ver que não tenho intenção de te ferir com gravidade. Se obedeceres às minhas palavras, talvez as coisas não venham a se torcer tão mal quanto imaginas."
O modo como o doutor Mo mudava de feição como um camaleão pôs a Han Li a pele arrepiada. Um momento fazia o mestre bondoso, o seguinte era frio e cruel, e agora lhe falava com grave preocupação, exortando-o a entregar-se ao destino. Han Li mal sabia o que pensar dele. Acreditava deveras o homem que tamanho embuste pudesse fazê-lo perder a cabeça e cair num engodo tão grosseiro?
Mas aquelas mesmas palavras davam a Han Li mais confiança. Se o homem não houvesse chegado a temê-lo, por que haveria de se rebaixar a lisonjas tão pueris para enganá-lo?
Num só fôlego Han Li viu tudo com clareza. Suspirou, moveu a cabeça com suavidade e não respondeu palavra alguma; apenas brandiu duas vezes a adaga na direção do corpo do outro, com o que deixou bem expressa sua intenção.
As veias da testa do doutor Mo saltaram e palpitaram um par de vezes. Ao ver que Han Li não atendia a seus conselhos e antes o provocava com a arma, não pôde mais conter a ira.
"Não sabes quando estás bem!"
Deu um grande passo à frente e soltou entre os dentes: "Um passo que cruza mil léguas."
Então, de repente, todo o seu corpo flutuou com ligeireza até um ponto a tão poucos passos de Han Li, como se houvesse praticado a arte de encolher a própria terra, de modo que um homem não podia senão maravilhar-se.
Han Li parecia, por seu lado, não pouco assustado. Um gesto de pânico tomou-lhe o rosto e ele se apressou a recuar dois passos, pondo alguma distância entre ambos, antes de dispor a adaga em cruz diante de si e girá-la até formar uma pequena lâmina de luz fria que barrava o passo ao doutor Mo, como se houvesse esquecido por completo a surra recebida no último encontro.
O doutor Mo sorriu para si mesmo, e de modo algum seria tão generoso a ponto de avisar seu rival de suas intenções. Dividiu as duas palmas, enviando-as por dois caminhos distintos contra Han Li, sem prestar atenção alguma ao frio lampejo da lâmina.
Ainda quando as duas mãos de prata iam a ponto de se colar dentro daquele anel de luz da espada, do outro lado chegou uma risada suave, uma risada livre e desafogada, a risada do caçador que vê sua presa pisar na armadilha.
O coração do doutor Mo se apertou. Sem pensar, ele brecou o avanço e sua figura ficou por um momento suspensa. Então chegou aos seus ouvidos uma voz tão fria quanto gelo:
"Desta vez, quem caiu de verdade na armadilha foste tu. Olha bem a adaga que tenho na mão!"
Ao ouvir tais palavras, o doutor Mo não pôde senão voltar o olhar para a adaga. Eis que o rapaz, em algum momento, cessara o giro e se dispusera numa postura estranha: o torso um tanto inclinado para trás, a adaga segura em uma só mão e estendida diante da cintura, a parte inferior do corpo numa tensa postura de arco prestes a se lançar no instante mesmo, de modo que todo ele parecia um homem que tivesse tenso um arco e encaixado a flecha.
E quanto àquela arma de que tratavam as palavras, salvo um leve lampejo de luz azulada, não havia nela nada que saísse do comum. Isso deixou o doutor Mo algo perplexo. Seria possível que o rapaz, adotando semelhante postura e enganando-o com essas falsas palavras, pretendesse perturbar-lhe a mente e tirar assim alguma vantagem barata?
Ao pensar nisso, o doutor Mo quase riu, e já se dispunha a zombar do rapaz, quando de repente Han Li se lançou para frente como se disparado de um poderoso arco, feito uma única flecha que voava do outro lado. Tal era a velocidade de sua chegada que até o semblante do doutor Mo mudou por completo.
Com presteza o doutor Mo juntou as mãos abertas, querendo apanhar a lâmina do outro entre as palmas; mas eis que a adaga deu um leve sacolejo e se transformou numa dúzia de lâminas de igual aparência, que embatiam de todos os pontos, de tal modo que já não se podia distinguir a verdadeira da falsa.
O doutor Mo bufou, e sua estima por Han Li caiu mais um ponto. Empregar um ardil tão oco e aparatoso diante de um mestre como ele, não era acaso buscar a morte? De uma única olhada podia enxergar onde se achava a lâmina verdadeira.
E assim, abriu bem os olhos, fixando-se na chegada da lâmina real, e sem mudar em nada a postura das mãos, não fez senão acelerar o avanço, querendo num só golpe fazer em pedaços aquele fio agudo e deixar o rapaz para ser preso de mãos vazias.