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Capítulo 49: Uma Armadilha Dentro de Outra

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 49 de 57·~6 min de leitura

Atualizado: 2026-08-12 09:55

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Ainda quando os dois estavam no ponto exato de se chocarem, Han Li deu um leve giro na lâmina que tinha na mão, inclinando apenas seu ângulo, muito pouco, só um grau mínimo, nada mais. Mas aos olhos do doutor Mo aquilo operou uma mudança tão grande como se céu e terra houvessem virado de cabeça para baixo.

Uma luz branca brotou de repente diante da vista do doutor Mo. Uma dúzia ou mais de clarões de ofuscante fulgor saltaram, tão feros e sem véu que se cravaram diretamente em seus olhos.

Seu coração clamou "Mal!" e ele se apressou a saltar para trás e a fechar as pálpebras; mas já era tarde. No espaço de um momento, a luz branca estava já dentro de sua visão, sem lhe deixar um fôlego de tempo para contrabalançá-la.

No instante um calor tomou os olhos do doutor Mo, e depois uma amarga dor se apossou dos globos oculares, enquanto as lágrimas jorravam num torrente sem fim. Ele não tinha cuidado de enxugá-las. Apertando os dentes contra o mal-estar, esforçou-se por abrir os olhos e olhar para fora, mas não viu senão uma grande mancha branca. Nenhuma coisa podia distinguir com clareza; até as próprias figuras dos objetos se tinham tornado um borrão vertiginoso, duplicado e indistinto.

Nesse instante, uma fúria e um espanto misturados lhe encheram o coração, e ele se arrependeu amargamente de ter se deixado apanhar de novo, por uma só falta de cuidado, na armadilha do rapaz.

Mas o doutor Mo caminhara muitos anos pelo jianghu, e seu caudal de destreza para afrontar perigos de toda espécie era abundante. Por um lado, não cessava de recuar passo a passo, pondo distância entre si e o outro, buscando ganhar tempo; por outro, recolhia as duas palmas e as brandia diante do corpo, e graças àquelas Mãos de Prata Demoníaca, vedadas à lâmina e à flecha, cobria os pontos vitais de sua metade superior.

Em seu coração resolvera que, até que os olhos se recobrassem, de modo algum voltaria a ser ele a dar o primeiro golpe; todo assalto devia esperar até poder ver com clareza, não fosse cair outra vez na armadilha do astuto rapaz.

Por então, o doutor Mo tinha lançado fora da mente o último vestígio do desprezo que em dado momento sentira. Quanto a perigo, aquela batalha com Han Li não ficava nada atrás das lides mortais que em sua juventude sustentara contra inimigos formidáveis.

Embora não pudesse distinguir os movimentos do outro, o doutor Mo aguçou ambos os ouvidos e escutou com toda a atenção, querendo colher do só som qual seria o seu próximo passo.

Apenas lhe pareceu ver uma figura piscar diante de si, e em seguida chegou um rilhar agudo e rasgador, montado sobre uma rajada de vento frio, que voava direito contra ele pela frente.

Ante a estocada de Han Li, o doutor Mo não sentiu alarme algum, mas um vislumbre de regozijo.

Os recursos do rapaz eram ainda um tanto verdes, quando bem pensado. De se ter mantido oculto e ferido por surpresa, o doutor Mo teria, em verdade, que esfregar a cabeça; mas atacar tão descarada e abertamente pela frente, que havia que temer nisso? Pois aquela arte de rastrear o inimigo pelo ouvido, de discernir entre o som e o vento, ele a tinha levado havia muito ao cume da perfeição. Não digamos uma estocada reta da espada curta: até uma delgada agulha de bordar voando contra ele, ouviria com perfeita clareza.

O doutor Mo ouviu com verdadeira clareza, mas em sua mão afrouxou a propósito um pouco a guarda, deixando uma pequena abertura diante do corpo. Tal como havia previsto, o som da estocada que vinha se deslocou no ato, colando-se por aquele mesmo buraco, e em seguida se encaminhou direto à sua garganta.

Uma careta cruel se espalhou pelo rosto do doutor Mo. Sua mão direita, que havia tempo esperava, saiu no mesmo instante, e num abrir e fechar de olhos apanhou a lâmina, apertando-a com firmeza e sem o menor medo de seu fio agudo.

Seu oponente compreendeu claramente que o jogo tinha acabado, e puxou da espada aos solavancos várias vezes para arrancá-la; mas sob a presa das Mãos de Prata Demoníaca nem um ápice pôde mover-se. O esforço não foi senão força desperdiçada.

Um quê de triunfo se agitou no doutor Mo. Mas não ousou descuidar a mão, e para se certificar de que o outro não despertasse para seu perigo, afrouxasse a presa e se escorresse, não fez caso de que seus olhos ainda não se tinham recobrado. Com uma só mão, desferiu de repente as dez partes inteiras de sua força, e puxou da espada para si, querendo arrastar Han Li num golpe e tomá-lo nas mãos; mas eis que sua presa se sentiu leve e aérea, como se não segurasse mais do que uma pena.

Ficou pasmo até o mais fundo. Sustentava ainda a mesma lâmina na mão; como havia ela de ter se tornado tão leve de improviso? Ainda que Han Li afrouxasse a presa, não deveria pesar tão pouco como isso.

Antes que o doutor Mo pudesse entender o caso, estourou, a poucos dedos de sua garganta, um som agudo e rasgador que fendia o ar, como se algo fino e pontudo se abalroasse contra ele a uma velocidade que passava de todo dizer. Ainda não havia chegado a própria coisa, quando o sopro partido do ar já punha um leve ardor em sua laringe.

Não teve tempo de pensar. Seu corpo, por puro reflexo nervoso, se aprestou todo a esquivar; sua cabeça caiu para um lado, forçada naquela direção, o pescoço torcido até um ângulo que passava do crível, lutando para escapar àquele golpe mortal.

A honda e exercitada maestria de muitos anos por fim entrou em jogo nesse momento. O doutor Mo sentiu um calafrio correr pelo pescoço, enquanto a coisa fina passava de largo, roçando de perto sua carne, apenas arranhando-lhe um pouco de pele e sem lhe causar maior dano.

Tendo esquivado aquele golpe, e temendo que o outro guardasse ainda uma estocada de reserva, o doutor Mo não se deteve a pensar. Sem outra ideia, atirou-se ao chão seguindo o mesmo truque com que Han Li salvara a própria vida no início, e rolou como um burro preguiçoso, para longe de Han Li, antes de ousar se levantar de novo.

Uma vez de pé, o doutor Mo sentiu uma dor ardente no pescoço, e não pôde deixar de apalpar a ferida; sua mão saiu molhada, mostrando que não pouco sangue manara.

Com toda a pressa, pressionou com dois dedos as veias próximas, e com isso estancou a hemorragia.

Só então lhe sobreveio o susto de tudo aquilo. Aquele golpe, sentia, deveria por direito ter sido impossível de esquivar; que seu corpo, por um instinto supremo, tivesse escorrido da morte de modo tão estranho e milagroso.

Ao cruzar esse pensamento pela mente, o doutor Mo ergueu os olhos e olhou para Han Li, e só então notou que as coisas diante dele se aclararam de novo: sua vista voltara em algum momento sem que ele o soubesse.

Ali estava Han Li, fulminando com o olhar o doutor Mo, com o rosto cheio de despeito, não pouco contrariado de que o outro se livrasse mais uma vez da morte.

Tinha na mão uma arma pontiaguda de apenas uma polegada de comprimento; pela forma era uma ponta mais curta que qualquer outra, e contudo seu cabo era ainda o cabo da espada, de modo que o conjunto tinha um aspecto grotesco, e sobre ele havia manchas de sangue: era aquela mesma arma estranha a que ferira o doutor Mo.

O rosto do doutor Mo se fez frio e sombrio, seus olhos cheios de fúria ardente. Que houvesse estado a ponto de perder a vida uma e outra vez era mais do que podia suportar, e já se dispunha a deixar tudo explodir, quando de repente sentiu que a mão direita ainda segurava algo.

Olhou para baixo. Era uma lâmina sem cabo, leve e aérea na mão; ao tomá-la e examiná-la com detença, viu por fim, com um súbito lampejo de entendimento. A lâmina era oca, e pelo tamanho e a forma da cavidade, o que estivera oculto dentro não era outro senão aquela ponta. Aquela lâmina não era senão uma casca, uma coisa para enganar a vista, encaixada sobre a ponta.

Nesse instante, toda a fúria que lhe enchia o peito ficou apagada de um sopro por aquele descobrimento que não havia previsto.

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