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Chapter 66: A Regra Excêntrica

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 66 de 75·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-13 07:04

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A atitude generosa da outra parte fez saber a Han Li que, contanto que as condições que nomeasse não fossem em excesso desmedidas, havia oito, nove em dez de que fossem todas concedidas. Por esta talha, a meta que se propusera alcançar com folga poderia ser ganha sem maior trabalho.

Mas tão dadivosa acolhida era coisa rara em toda a Seita dos Sete Mistérios. Era manifesto que os homens à frente da seita sabiam de sobra o que um médico de consumada perícia significava para aqueles que vagam pelos caminhos bravios do jianghu.

Han Li, por seu lado, não se andou com salamaleques. Pediu na mesma hora que todo o Vale das Mãos Espirituais fosse cedido ao seu único cuidado, e que nenhum estranho se atrevesse a perturbá-lo no vale enquanto ele se entregasse aos seus estudos da arte curativa.

Um pedido que mal merecia o nome de condição foi, como não podia deixar de ser, aceite com presteza pelo Vice-Líder da Seita Ma. Talvez o homem quisesse prendê-lo a si com um laço mais firme; por iniciativa própria se ofereceu a enviar uma donzela jovem e formosa para atender às necessidades quotidianas de Han Li.

Por um instante o inesperado galardão pôs a esvoaçar o coração de Han Li, e esteve quase a aceitá-lo sem reparo; mas quando se lembrou de quantos segredos carregava às costas, recusou a oferta, não sem um travo de pena.

Tal recusa veio a mover o Vice-Líder Ma a não pouca admiração, e pousou um novo olhar sobre Han Li, declarando uma e outra vez que aqui estava um moço capaz e jovem, que não cobiçava as mulheres, e que se tivesse uma filha a daria por esposa a tal marido.

Tais palavras deixaram Han Li sem saber se havia de rir ou de chorar. Não é que desdenhasse dos encantos do belo sexo — é que naquele momento não ousava comprazer-se neles.

E assim, desta maneira, todo o Vale das Mãos Espirituais veio a ser o domínio privado de Han Li, no qual os estranhos, por regra, não podiam aventurar-se.

Com este fim Han Li fez colocar um grande sino à entrada do vale. Quem quer que desejasse falar com Han Li não tinha senão tocar aquele sino, e Han Li deixaria logo o vale para o receber. Tão excêntrica regra ergueu Han Li ao pé do sino com ar do mais desenvolto, de modo que até alguns dos oficiais superiores ficaram por ela obrigados.

E a razão por que Han Li impusera tão rara regulamentação era, em tudo, resguardar-se contra o último resto de esperança de que o segredo da garrafa pudesse filtrar-se para fora. Contanto que nenhum homem invadisse o vale à doida, Han Li podia ter a certeza de que a portentosa maravilha da garrafa não chegaria a um segundo par de ouvidos.

Ao princípio a regra não perturbou no mais mínimo os discípulos mais humildes; mas muitos entre os oficiais superiores se sentiram profundamente contrariados, e murmuravam que Han Li se tinha em excessiva estima, que não conhecia a altura do céu nem a fundura da terra, que nem o próprio Doutor Mo guardara tão grande maneira, e que um mero aprendiz recém-saído da porta do seu mestre — como ousava ensoberbecer-se tanto?

Mas quando Han Li arrancou do umbral da própria morte a um Protetor que jazia gravemente ferido e no último suspiro, e o curou por completo, todo aquele rumor se desvaneceu como fumo, e já não houve homem que disso voltasse a falar.

Pois ninguém quereria ofender um sanador divino por alguma ninharia, quando esse sanador podia, uma dúzia de vezes, livrar a vida de um homem. E assim, o costume do sino — que um homem só podia vê-lo depois de o tocar — veio com o tempo a ter-se por certa maneira caprichosa, própria de tal médico.

Conforme os dias e os meses se iam deslizando, até os vários líderes da seita foram aceitando a regra por graus. Quando buscavam a sua cura enviavam um homem a chamar cortesmente ao sino, e depois, com todo o respeito, convidavam Han Li a acorrer.

Desta sorte Han Li chegou pouco a pouco a ser uma verdadeira raridade nas lendas da Seita dos Sete Mistérios.

Chamar-lhe um dos altos? Não tinha cargo algum, e não exercia o mais mínimo poder. Chamar-lhe discípulo humilde? Mas quem jamais vira um discípulo de maneira tão senhorial, a quem os próprios líderes da seita chamavam com o título honorífico de "Doutor Han"? Do nome de Han Li, poucos havia já que ousassem pronunciá-lo em claro.

Deste número, por certo, o nosso Irmão Mais Velho Li Feiyu era a única exceção.

Ante os demais, Li Feiyu guardava ainda o seu costumado ar de fria altivez; mas no instante em que punha os olhos em Han Li, a sua maneira se trocava logo por uma despreocupada lhanura, e sem cerimónia alguma lhe chamava pelo nome a seco — nem a sua mudada posição o tornara, como a Wang Dapang e aos outros discípulos, distante e em demasia cortês.

E isto, longe de o ofender, não fazia senão tranquilizar Han Li, pois o gosto de um homem só, sem amigo em todo o mundo, não é agradável de levar.

À lembrança da cara regozijada de Li Feiyu, Han Li não podia deixar de pensar em outro rosto — um torcido e enrugado, como uma abóbora que se azedara.

Não havia muito, por acaso tinha topado com outro antigo conhecido dos dias em que haviam cavalgado juntos para a montanha no mesmo carro — um tal Wu Yan, agora discípulo do mais íntimo do Salão dos Sete Extremos. Cairá doente de uma estranha moléstia, nem grave nem leve, mas que vários outros médicos indiferentes havia muito que não logravam curar; e, profundamente atormentado por ela, vira-se obrigado a rogar os bons ofícios do Vice-Líder Ma, e viera suplicar ao sanador divino Han que o atendesse.

Há que dizer que a Wu Yan servia bem a memória, pois em quanto pôs os olhos no célebre Doutor Han reconheceu logo o companheiro daquela viagem de carro de outrora — Han Li. O pasmo e a estranha roda que se estenderam pela sua face ficaram gravados na lembrança de Han Li até hoje, pois nos velhos tempos a maneira de Wu Yan para com ele não fora nada amável — dura e pouco amistosa, na verdade.

A vista do ar envergonhado de Wu Yan moveu Han Li a uma risada secreta, embora não fosse homem de negar a cura a esse por causa disso. Mas, a fim de não deitar por terra a sua própria fama, Han Li fez questão de reforçar a dose do remédio que receitou, de sorte que Wu Yan ficou curado no espaço de dois curtos dias. Só que durante a sua convalescença, por culpa da dose demasiado forte, o homem sofreu alguns graus mais de dor do que doutra forma. Esta foi a pequena vingança de Han Li pela conduta pouco amável do outro em dias passados.

Parecia, pois, que Han Li não era tão magnânimo como se julgava a si mesmo, mas, na verdade, muito afeiçoado a guardar rancor.

E assim, por lentos graus, Han Li veio a ocupar por completo o lugar que o Doutor Mo tivera noutro tempo sobre a montanha — não, subiu mesmo um degrau mais alto.

Agora, cada dia tirava a garrafinha e a colocava em algum lugar aberto dentro do vale, deixando que amadurecesse, no espaço de sete ou oito dias, aquele maravilhoso líquido verde, com o qual apressava o crescimento de raras ervas de longa idade; e delas urdia e compunha uma medicina preparada após outra.

Uma parte muito pequena destas gastava-se nos enfermos que acudiam à sua porta em busca de cura; a maior parte, Han Li tomava-a ele mesmo, para nutrir a essência vital e temperar o seu qi, impelindo para a frente a sua prática da Arte da Juventude Eterna.

Han Li remexeu o corpo que jazia estirado no canapé de espaldar alto, para se pôr mais à vontade.

O canapé em que se sentava era o do Doutor Mo, e no entanto esta não era a câmara do Doutor Mo, mas a morada própria de Han Li — só que ele tinha lançado mão de quanto objeto, na câmara do Doutor Mo, julgava de alguma utilidade, e no tinha levado sem pedir licença para as suas próprias aposentos. Na sua presente posição, ainda que alguém tivesse presenciado semelhante falta de respeito ao Doutor Mo, ninguém ousaria questioná-lo, pois aos olhos dos outros a importância de Han Li pesava já mais do que a do Doutor Mo. Os homens são gente muito prática!

Na verdade, o alojamento do Doutor Mo era com muito o mais espaçoso dos dois, e teria sido muito mais próprio mudar-se diretamente para lá.

Pena que Han Li sentisse sempre uma certa estranheza em habitar nele. Pois a morte do Doutor Mo não era pouca coisa alheia a Han Li mesmo; estabelecer a sua casa com descaro na câmara de um morto a quem a sua própria mão dera morte — o só pensamento lhe corria um arrepio e lhe sentava mal à consciência. Muito mais seguro e muito mais confortável lhe era a sua própria canil, como ele gostava de lhe chamar.

Mas ao pensar no Doutor Mo, Han Li não podia deixar de se acordar da desalentadora questão daquela servidão que ainda devia a um cadáver.

Durante este trecho de tempo tinha examinado o seu corpo por dentro e por fora com o maior cuidado, uma e outra vez, e havia, na verdade, uma certa coisa fria e yin à espreita no seu dantian que desafiava todo o seu sondar. Han Li provou o Pó do Espírito Claro e todo outro método de livrar o veneno que conhecia, mas nenhum surtiu efeito. E assim, parecia que aquela viagem distante que devia empreender-se um ano mais tarde era por completo ineludível.

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