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Capítulo 40: A criatura sobrenatural

The Mirror of the Xuan Clan·Capítulo 40 de 53·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-03 02:11

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Chen Erniu saltou do catre, apanhou a roupa ao lado da cama, vestiu-a à pressa, de qualquer jeito, e arrastando o filho correu porta fora, perguntando a toda pressa:

"Que diabo se passa?!"

O filho mais velho do clã Chen, um rapaz chamado Chen Sanshui, descia ansiosamente uma espada comprida da parede, gritando:

"Leve a faca, pai, leve a faca! Conversamos pelo caminho!"

Chen Erniu tomou a espada comprida, atou-a à cintura e, a passos largos, saiu para a cabeceira da aldeia.

"Um dos guardas da aldeia levantou-se de noite para rondar os campos, e julgou ouvir um farfalhar entre os sulcos, como se houvesse alguém. Pensou que fosse gente amancebada no campo e agachou-se a espiar — e lá viu um cadáver, todo ensanguentado, com a nuca arrancada. O pobre mijou-se de puro terror."

Chen Sanshui ia contando isso enquanto se apressava a seguir o pai.

"Como morreu?"

"Esbarraram-lhe a nuca e escavaram-lhe os miolos. Uma morte miserável."

Ao ouvir isso, Chen Erniu travou o passo de repente e perguntou, sobressaltado:

"Alguém já avisou a casa principal?"

"Ainda não..."

Respondeu Chen Sanshui, tartamudeando.

"Imbecil! Achavas que um assunto assim se podia calar?!"

Chen Erniu montou em cólera na hora, bradando com a desolação de quem vê um filho sem remédio.

"Já fiz acordo com o guarda e com umas casas ali do campo... pedi que, por enquanto, não dessem conta. É o primeiro homicídio destes anos no nosso Lichuan Pass, e temo que Xu Wenshan tire proveito disso para vos fazer mal, pai."

Vendo o pai encolerizár-se, Chen Sanshui apressou-se a justificar-se.

"Imbecil! Ao homem arrancaram os miolos!"

"Bem..."

Chen Sanshui, vendo o susto e a fúria no rosto do pai, retardou meio compasso, como se enfim a verdade lhe tivesse chegado ao juízo.

"Um crime comum chega a arrancar os miolos de um homem?! E repara bem — eu e aquele Xu Wenshan apenas representamos a contenda para os olhos de outrem; cada um está plenamente satisfeito com o outro. Haveria Xu Wenshan de aproveitar para chutar quem está por terra e fazer-me mal? E fazendo-me mal, não ofenderia à toa as cento e tantas casas de Lichuan Pass?"

"Vocês, os teus irmãos, são todos umas bestas. Esse Xu Wenshan é mais novo que eu, ainda por cima. Se um dia me faltar, com que é que vocês hão de disputar com ele?!"

"Pai..."

Aquela rajada de repreensões envergonhou de tal modo Chen Sanshui que ele baixou a cabeça e apenas balbuciou, sem dizer mais palavra.

O rosto de Chen Erniu tinha-se ensombrado, e uma inquietação funda roía-lhe o peito. Falou com frieza:

"Muito provavelmente anda por aí uma criatura sobrenatural. Vai tu mesmo informar a casa principal."

Chen Sanshui assentiu com força e saiu a correr rumo à Aldeia Lijing. Chen Erniu seguiu o filho mais velho com os olhos até o perder de vista, e só então lhes assomaram ao rosto um tanto de pavor e de pena. Murmurou baixinho:

"Não sei quão pesada seja a mão dessa criatura. Que os olhos de Sanshui andem bem abertos, e talvez conserve um herdeiro ao clã Chen."

Chen Erniu vivera aquela terrível seca de Lichuan Pass. Era então uma criança, e estava sentado no limiar da porta a brincar, quando viu descer sobre Lichuan Pass um grande pássaro envolto em chamas vermelhas, engolir inteiros um punhado de guardas da aldeia como se fossem verminhas, bater as asas e partir — deixando atrás de si umas terras que exalaram vapores quentes durante três meses inteiros.

Os guardas que sobreviveram devoraram quanto houvesse comestível nos arredores de Lichuan Pass. Tiraram água do rio Meichi e derramaram-na nas terras, mas esta sumia sem deixar vestígio. O pai de Chen Erniu acarretou balde após balde de água e regou a terra durante nove dias seguidos, até que, enfim, abraçando a mulher morta de fome, tirou a própria vida.

Chen Erniu abandonou os cadáveres dos pais, apertou os dentes e, de lágrimas nos olhos, fugiu para a Aldeia Lijing. Bateu com a testa no chão até o deixar manchado de sangue, e só então foi acolhido na casa dos Li.

Por aquele tempo, todas as casas da Aldeia Lijing estavam abarrotadas de aldeões que tinham chegado fugidos nos dias anteriores. Alguns tentaram assaltar as grandes casas, mas os rendeiros, que poucos dias antes tinham sido companheiros de infortúnio, esmagaram-nos a pauladas; assim, a maioria baixou a cabeça e atirou-se para a Grande Montanha Li.

Três meses depois, o povo foi voltando aos poucos. Ninguém se atrevia a falar daquele dia, e ninguém ousava perguntar como tinham sobrevivido as cento e tantas almas que ficaram na aldeia. Em silêncio enterraram os ossos que ficaram mondos e limpinhos, e um Lichuan Pass que outrora contara perto de trezentas casas e mil e quatrocentas almas ficou reduzido a não mais de trezentas.

Enquanto olhava o brilho vacilante das chamas diante de si, despertou de golpe das suas rememorações. Chen Erniu afastou o segundo filho, Chen Qinshui, que saíra a recebê-lo, ergueu o archote e ficou a mirar o cadáver ensanguentado que jazia no chão, com o crânio vazio e oco. As lágrimas já lhe corriam pelas faces quando, rangeando os dentes, perguntou:

"Quem é este?"

"O velho Ye, o da cabeceira da aldeia."

Chen Qinshui mirava as lágrimas no rosto do pai, com o coração cheio de apreensão, e respondeu em voz baixa.

"Vai acordar a aldeia toda, manda acender grandes fogueiras e apanhar facas e varapaus."

Chen Erniu deu a ordem em voz baixa, mas enquanto o fazia, um guarda da aldeia chegou a correr da porta e gritou-lhe:

"Guardião Chen, guardião Chen! A casa principal pergunta: há algo de anormal em Lichuan Pass?"

Chen Erniu ficou de pedra e um mar de suspeitas lhe invadiu o peito. Conjecturou para consigo:

"De Lichuan a Lijing não há essas velocidades! Ainda que um espião da aldeia tivesse delatado o assunto, a ida e a volta não poderiam passar tão depressa. Só se a casa principal soube no próprio instante em que o homem morreu — e sendo assim, deve ter algum meio de lidar com a criatura."

As sobrancelhas franzidas afrouxaram de súbito, e um grande peso se levantou do seu coração. Respondeu a gritos:

"Há receio de que ande pela aldeia alguma criatura sobrenatural! Já mandei um homem informar a casa principal!"

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Li Xiangping contemplava em silêncio o espelho cinza-azulado sobre o seu suporte. Os estilhaços quebrados da sua superfície tinham-se refeito um pouco em relação ao dia em que o apanhara, quando menino, mas ainda parecia que podia fazer-se em pedaços a qualquer momento. Um ténue brilho prateado se desprendia da sua face, toda de aparência sonhadora.

"Há quanto tempo partiu aquele homem?"

"Já faz um quarto de hora."

Li Tongya, que andava a olhar com ansiedade pela janela, pousou agora a tabuinha de bambu que trazia na mão e disse:

"Convém sairmos já, não vá essa gente, vendo que não estamos, quebrar os costumes e rodear até o pátio de trás."

"Vamos!"

Li Xiangping deitou um olhar a Li Xuanxuan, sentado de pernas cruzadas em meditação, e murmurou em voz baixa.

Mal tinha saído do pátio de trás, deu de cara com Li Yesheng, que dava voltas pela casa como formiga em panela quente. Os olhos do homem iluminaram-se ao ver os dois e ele apressou-se a vir ao seu encontro:

"Chegou um homem de Lichuan Pass! Diz que acharam um morto com os miolos arrancados!"

"Os miolos arrancados?"

Li Xiangping ficou atónito por um instante e voltou-se para Li Tongya:

"Parece que anda por aí uma criatura sobrenatural."

"Exato."

Li Tongya assentiu com gravidade, pensou por umas tantas respirações e disse em voz baixa:

"Essa criatura partiu assim que arrancou os miolos — sinal de que ainda teme os homens, e de que o seu cultivo não pode ser muito fundo. Sem dúvida deve permanecer no estágio da Respiração Embrionária. Se estivesse na Refinação do Qi, teria podido passar o fio a toda a aldeia e partir cavalgando as brumas."

"Eu vou lá ver!"

Li Xiangping ponderou por uns instantes, franziu levemente a testa e disse a Li Yesheng:

"Junta os moços fortes da aldeia e manda que tragam armas."

"Sim!"

Li Yesheng assentiu e saiu a toda pressa. Só quando o homem se afastou para longe, Li Tongya falou com a testa franzida:

"Não conhecemos a profundeza do poder dessa criatura. Tu e eu não devíamos ir."

"Se não formos hoje, vem abaixo toda a autoridade que a família Li tanto trabalhou para granjear entre as aldeias. Tenho de ir!"

"Tu guardas a montanha aqui, segundo irmão. Eu descerei a sondar a criatura — e conheces o meu feitio; não hei de correr riscos a esmo."

"E se algo nos acontecer, à família Li ficas tu. Na pior das hipóteses, abandonaremos Lichuan Pass e suplicaremos socorro ao clã."

Dito isso, Li Xiangping assentiu a Li Tongya, apanhou o arco e as setas, deitou aos ombros um manto tecido de cipós, de cor pardo-amarelada, e desceu a montanha a toda pressa.

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