"Mana, condensado e firme, torna-se azur originário."
Li Tongya moveu a mão e dissipou a pálida essência azur de luz lunar que acalentava na palma, e o coração lhe bateu de gozo contido. A Roda da Origem Azure não era portão que merecesse tal nome, mas era a quarta roda da Respiração Embrionária, e que, ao cabo de meio ano de próspero e desembaraçado avanço, tivesse condensado o mana por inteiro o satisfazia em grande maneira.
"Só que poder azur há nisto de pouco comum. Tanto cresceu, que se assemelha à Roda da Capital de Jade que descrevia a Arte do Cultivo da Roda da Origem Azure. Bem se vê que esta Escritura de Nutrir a Roda com Alento Lunar da minha casa não é coisa comum."
Li Tongya ergueu a sua lâmina verde e pôs-se a polir-la com uma tira de pano branco. A gente do Caminho Antigo de Li se valia quase sempre de facas e de bastões; esta espada preciosa ele só a encontrara depois de mendigar por quatro aldeias, até vir dar com a família Liu de Jingyang. Aquela casa era o clã natal de Liu Rouxuan. Em logo que souberam que Li Tongya buscava espada, impuseram-lhe aquele tesouro guardado no fundo do seu cofre, envolto e enterrado. Não quiseram moeda dele, por mais que ele insistisse, e a uma voz declararam que era o dote de Liu Rouxuan.
"Seis meses de treino, e enfim passei o limiar, e posso desferir com firmeza esta Aura de Espada de Água Escura."
Li Tongya juntou dois dedos e os passou devagar pelo fio verde. No ponto, a lâmina exalou uma ténue aura de espada cinzenta, delgada como asa de cigarra que se estendesse sobre o aço afiado, e de um cortante que fazia chorar a vista de o mirar.
Saiu do pátio, buscou um recanto solitário entre os outeiros e pôs-se a praticar a espada onde nenhum o visse.
"Ha!"
Deu algumas voltas pela clareira; logo ergueu a lâmina verde, moveu o pulso, e a espada cintilou sobre o grande baniano que tinha diante. A árvore antiga desabou com um só trovão, erguendo uma nuvem enorme de poeira.
"Cortante é na verdade."
Mirou o toco liso e sentiu que o seu golpe mal encontrara estorvo algum, que partira pela cintura aquela grande árvore como se fosse um junco.
Praticou a espada por um tempo, com o ânimo aceso; pendurou logo a lâmina ao cinto, assentou-se a regular o alento e a repor o mana gasto, e dirigiu os passos ao pequeno pátio de Lijing.
As peras de origem branca daquele pátio estavam maduras, penduradas brancas e redondas e refulgentes da ponta de cada pé de amarelo-pálido, cansando a vista de tão belas. Colhiam-se com muito mais facilidade do que o arroz espiritual: bastava arrancá-las com mana e guardálas em caixas de jade. Quinze peras de origem haviam chegado a maduras de uma só vez, e Li Tongya teve de pedir emprestadas duas caixas de jade a Wan Tiancang antes de as poder albergar a todas.
"Armazém Celestial, irmão, mas quanto ao tributo—"
"Segui o Caminho Antigo de Li para leste, até chegardes ao Pico da Coroa de Nuvens da família Xiao," disse Wan Tiancang, movendo a mão e explicando-se com esmero, "e aí pagarão o seu tributo a uma todas as casas da Prefeitura de Lixia. Trazirá igualmente cada família o que lhe sobrar ou o que produzir, para troco, aos mesmos pés daquele monte."
"Assim é."
Após consultar Li Xiangping e Li Mutian por espaço de uma taça de chá, Li Tongya tomou a Pera Pino-Lua que lhe enviara a família Wan, junto com vários manuais de artes e técnicas, embrulhou o arroz e as peras espirituais da sua casa, e deslizou-se em silêncio para a família Wan. O carro deles se erguia parado à orla do Caminho Antigo de Li. Não fosse o clã Ji a ter notícia disso e vir cercá-los; e assim a família Wan não enviou senão Wan Yuankai, da Roda da Origem Azure, e um solitário cocheiro, e estes dois aguardavam Li Tongya à beira do caminho.
Feitas as provisões, Li Tongya acomodou o arroz e as peras espirituais no carro dos Wan e, ao abrigo da noite, baloiçou-se para leste.
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"Um outono dourado no lago: há-de achar-se primeiro um grande lago cheio de três mil li de volta; e quando as margens se tornarem amarelas de outono, limpo e alto o céu, clara e quieta a noite, então se há-de recolher o qi por uma só noite com o método de acender o alento Bingzi, e ganhar assim uma porção de ar outonal. Oitenta e uma noites para ganhar um só fio do outono dourado do lago, e de dez fios um inteiro. Assim pede dez anos; e por isso se chama também uma década de qi outonal de lago."
Li Chijing voltou as páginas do livro que tinha nas mãos e foi gravando o seu método na memória. Pensava: "A Verdadeira Escritura da Refinação do Qi do Sétimo Mês, que me deu o mestre, é detalhada, de certo. Mas duvido que tenha arte alguma para refinar a essência lunar taiyin."
Folheou-a uma e duas vezes, e murmurou para si: "Essência lunar taiyin... essência lunar taiyin... Aqui está!"
"Essência lunar taiyin, branca como escarcha, que corre como água, luzidia quando a lua está cheia, escura quando mingua."
Li Chijing ficou a olhar, passou uma página ou duas mais, e abriu os lábios: "E isso é tudo?"
"Ah, enfim."
Dias atrás já levara Li Chijing a seu fim a Roda do Espírito Inicial, e não o separava da Refinação do Qi senão a lenta acumulação do tempo. E assim, ao abrigo de esperar o outro, se pusera cedo a ler as artes essenciais daquele reino. Na falta de todo o fio há a essência lunar taiyin, não lhe restaria senão cultivar a Arte das Chuvas Ordenadas por Qing.
Ergueu os olhos, e viu que uma das tarefas publicadas em torno das portas do Pavilhão Marcial se esfumava do seu tabuleiro. As portas grandes do pavilhão se abriram, e uma figura saiu passo a passo adiante.
Três dias inteiros esperara Li Chijing fora daquele pavilhão antes de ser enfim arrancada a tarefa de recolher o tributo da Prefeitura de Lixia. Vendo o homem plantar-se com agilidade numa lançadeira voadora e fazer menção de partir, apressou-se a chamar:
"Este companheiro Daoista!"
A figura inclinou a cabeça: "Que se passa?"
Só então deu Li Chijing conta de que a sua interlocutora era uma mulher de rosto belo, com um vestido ciano de voltas arrastadas. Sorriu algo turbado, e disse a guisa de explicação:
"Tomou esta amiga a tarefa de viajar à Prefeitura de Lixia a recolher o tributo?"
"É assim."
A mulher aprazível pôs-se a fitar de ponta a ponta Li Chijing, e vendo que não era senão um rapaz de dezasseis verões, amaciou a voz: "Tendes parentes nessa Prefeitura de Lixia?"
"Sim, sim. Sou Li Chijing, do Pico da Espiga Azur. Poderei eu saber o nome da minha dama?"
"Ning Wan, do Pico do Lago da Lua."
Ning Wan baixou a cabeça, indicando-lhe que continuasse.
"A minha dama viaja a Lixia a recolher o tributo; rogo que olhe com bondade pela minha família, e Chijing agradeceria para além de toda a medida."
Juntou as mãos e respondeu em tom baixo e reverente: "Sou nascido da casa Li de Lijing, sobre a própria margem do Lago da Vista da Lua."
"Somos discípulos de uma mesma seita; olhar por eles um pouco é o natural."
Logo Ning Wan franziu as sobrancelhas em leve perplexidade, e perguntou por sua vez: "Já que nascestes junto ao Lago da Vista da Lua, que jaz sob o próprio domínio do meu Pico do Lago da Lua, por que não entrastes no meu Pico do Lago da Lua?"
Li Chijing respondeu com um sorriso: "O meu mestre Si Yuanbai passou pela Montanha Grande Li; Chijing, bendito para além da sua sorte, achou favor aos olhos do mestre, e assim fui trazido de volta à seita a cultivar."
Ning Wan deu um resfolego de descontentamento, e murmurou: "Si Yuanbai não pode estar-se no seu próprio Campo de Cogumelos, mas vem ao meu Lago da Lua roubar discípulos — não há justiça nisso."
Li Chijing não pôde senão sorrir torto e fingir que não ouvira as palavras.
"Pois muito bem." Ning Wan juntou os lábios, e perguntou com doçura: "Há algo que queirais que eu lhes leve?"
"Há, há." Li Chijing, que andava aflito por saber como abordar o assunto, desquitou-se de um grande peso: "Mil graças, minha dama!"
Dito isso, ofereceu um saquinho pequeno com as duas mãos. Ning Wan tomou-o e sopesou-o; um crepitar de pedras espirituais veio-lhe ao ouvido, umas quatro ou cinco. Alçou-se-lhe uma dúvida, e perguntou: "Cultivais dentro da seita sem sequer meter mão às provisões da vossa casa, e ainda assim me mandais coisas — que razoamento é esse?"
Li Chijing negou com a cabeça com presteza: "A minha família me enviou pílulas; do pico não careço de nada, e de pedras espirituais não tenho presente uso, enquanto gastá-las no meu cultivo seria prodigalidade insuportável. Melhor é enviá-las a casa, para sustentar o diário sustento da casa."
"Já vejo. Pensamento é que faz honra à vossa sinceridade."
Ao ouvir isto amaciou-lhe o coração a Ning Wan, e concebeu boa lei pelo rapaz. Sorrindo, disse: "Tendes por certo que as levarei."