Quando a Noite Rasante chegou, a aldeia se agitou — cada casa correndo à fonte de fogo por pedras-sol.
Qin Ming já estava pronto para a estrada: forquilha de caça, faca curta, arco e flechas. Tinha comido o pão achatado que Lu Ze trouxe, mas não mencionou seus planos de sair. Não queria ser dissuadido.
Não era imprudente. Pretendia tentar uma zona relativamente segura, e tinha pensado muito sobre isso. No outono, vislumbrara certa criatura nas matas da montanha, e por seus hábitos ela devia ter a toca por perto.
*Espero que ainda esteja lá*, pensou. *Que me traga algo bom.*
Lá fora, a aldeia silenciou. Ninguém mais foi buscar pedras-sol.
Qin Ming partiu. Cruzou com dois aldeões, sorriu em cumprimento, e sumiu antes que pudessem responder. Passou pela fonte de fogo e entrou no mundo negro.
O ermo era brutal. Ele avançava pela neve que o enterrava até o peito, só a metade superior para fora. O frio mordia forte; a respiração congelava em geada nas sobrancelhas e nos cabelos.
Mesmo na Noite Rasante, o mundo permanecia escuro. Ele não via longe.
Forquilha na mão, empurrou, passo após passo doloroso. Depois de uns quatro li, aproximou-se da meta.
À frente erguia-se uma floresta densa, ainda distante, mas ele já distinguia seu contorno. O alvo era a borda da mata — nada de penetrar fundo.
Entrou na mata, afundando em montes de neve. A maioria das árvores estava nua, exceto algumas espécies, galhos carregados de neve.
Qin Ming parou e reconstruiu os movimentos da criatura de memória. Lembrava-se de um oco numa árvore daquela área — possivelmente uma de suas tocas.
*O corpo dela era maior que o de outros da espécie. Provavelmente mutada. Se eu achar o ninho principal, o ganho pode ser considerável.*
Seguiu em frente.
A mata era negra como breu. Pássaros estranhos gritavam de repente, tornando o lugar profundamente sinistro.
De súbito o corpo de Qin Ming ficou rígido. Fraco, ele captou: um cheiro tênue de podridão. Aquilo estava errado.
Segurou a forquilha com as duas mãos, varrendo o olhar em todas as direções.
Então, sem aviso, cravou a forquilha de aço diretamente para cima, sobre a cabeça.
Tinha ouvido o som anormal do vento e localizado a fonte do cheiro. Olhando para cima, viu: uma forma escura pendurada de cabeça para baixo num galho a uma dúzia de metros — o rosto pálido de um velho — despencando em direção à sua cabeça.
Nesta mata morta, a visão era suficiente para gelar o sangue de um homem.
Mas os reflexos de Qin Ming eram aguçados. Tinha sentido o perigo cedo, e a forquilha encontrou a criatura no ar.
Um guincho dilacerante atravessou a mata, arrepiando sua nuca. A criatura não forçou o ataque. A poucos metros, desviou para o lado.
Uma rajada de vento frio enquanto ela abria as asas poderosas, rompia um vão entre as árvores e subia em espiral para o céu noturno. Deu uma volta e desapareceu.
Mesmo com a pouca luz, Qin Ming a identificara: um abutre de rosto de morto. Uma ave de rapina carniceira com corpo de águia cinza-escura e rosto — além do bico — como o de um velho pálido e enrugado. Raramente pesava mais de quarenta jin.
Normalmente não atacaria um adulto vivo, só se alimentaria dos mortos. Será que a presa escasseava tanto que até eles tinham mudado?
Um arrepio o percorreu. O ermo estava mudando — e a fome só pioraria.