Antes que a Noite Rasante chegasse por completo, Qin Ming já estava fora da aldeia.
A escuridão ainda era espessa. Pouca gente se movia.
«Tio Yang?» Avistou uma forma atarracada perto da trilha.
Yang Yongqing pareceu surpreso. «Xiao Qin, a Noite Rasante mal começou. Você já está saindo?»
«Quero tentar a sorte. Ver se alguma coisa congelou perto da orla.»
Yang Yongqing riu. «Mesma ideia. Acabei de percorrer o circuito externo — nada.»
O homem barbudo era um dos poucos da Aldeia das Duas Árvores que haviam alcançado a Vida Nova, e Qin Ming o imaginara caçando presas maiores.
Antes que pudessem falar mais, uma forma se moveu à distância.
«Patrulha da montanha», disse Yang Yongqing baixinho.
Num mundo sem sol, o ermo precisava de guardas. Os patrulheiros percorriam o anel externo da montanha, vigiando problemas.
O homem que surgiu usava armadura de couro, carregava arco e lança de ferro, e deixava o cabelo solto. Irradiava força crua e selvagem.
«Irmão Shao», Yang Yongqing o cumprimentou.
Shao Chengfeng assentiu. Meia-idade, olhos afiados como lâmina. «Este garoto saiu cedo com você. Er Bingzi?»
«Er Bingzi é da aldeia vizinha», corrigiu Yang Yongqing.
«Sua Aldeia das Duas Árvores não produz um Vivianovista da idade de ouro há décadas», disse Shao Chengfeng sem rodeios.
Yang Yongqing não discutiu. Talento não se forçava.
«Er Bingzi é mais impressionante do que ninguém imaginou», disse. «Dizem que preencheu suas deficiências e subiu mais um degrau.»
Shao Chengfeng assentiu. «Notável. Se iguala os melhores da cidade brilhante, porém — isso é outra questão.»
«O talento vem da terra que o alimenta», disse Yang Yongqing. Ele vira os muros da cidade brilhante, seus manuais de alto grau.
«Verdade.» Shao Chengfeng concordou. «Dizem que dois prodígios apareceram lá — um garoto e uma garota. Além de qualquer Vivianovista da idade de ouro de que se tenha memória. Deixaram toda a região perplexa.»
Yang Yongqing só invejava, não guardava rancor. Aquelas pessoas viviam em outro mundo.
Shao Chengfeng desapareceu na escuridão.
As montanhas guardavam segredos — ninguém sabia o que realmente vivia nas profundezas. Os patrulheiros vigiavam o anel externo e rezavam.
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Qin Ming adentrou o ermo sozinho, a neve até o peito se abrindo ao seu redor como água. Agora era rápido. A Vida Nova o mudara.
A Noite Rasante chegou. A floresta emergiu da escuridão.
Seu estômago rugiu — a fome que reprimira ao falar com as pessoas se soltou. O ácido queimou sua garganta. Agarrou a forquilha e mergulhou entre as árvores.
Passou pelo território do esquilo vermelho, cruzou a crista baixa, foi mais fundo que antes.
A floresta mostrava sinais de vida — ossos espalhados, grandes pegadas de cascos, trilhas estreitas abertas na neve por animais de passagem.
Um som lhe chegou. Choro. O lamento de uma mulher, fino e lastimoso, ecoando na mata escura.
Qin Ming acelerou na direção.
Olhos verdes. Uma dúzia, espalhados entre as árvores.
Avançou com a forquilha. Asas explodiram acima — um bando de pássaros noturnos, de sessenta centímetros de comprimento, lançou-se ao céu. Seu grito soava como uma mulher chorando.
Pássaros noturnos carnívoros. Caçavam presas pequenas em bando e às vezes atacavam pessoas.
No chão: ossos descarnados, restos sangrentos de couro. Um cervo-almiscarado, limpo até o osso.
Falhara em roubar a presa deles. Recuou, temendo que o bando voltasse.
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Uma clareira aberta. Árvores esparsas. Sangue na neve. Pegadas do tamanho de tigelas de arroz — o comedouro de um grande predador. Os restos haviam sido levados por outros carniceiros.
A floresta externa estava ficando perigosa. Lu Ze tinha razão.
Qin Ming seguiu adiante e encontrou pegadas de cascos — muitas. Seguiu-as.
Mais de vinte formas escuras se agrupavam à frente. Animais grandes, juntos. Imponentes.
Cervos-de-Galhadas-Laminadas.
Raros nesta área. Qin Ming desprendeu o arco.
Não eram cervos mansos. Os machos adultos tinham seis galhadas — planas, afiadas como lâminas de aço. Uma investida de um perfuraria um homem de lado a lado. Até predadores os atacavam por trás.
Puxou até a lua crescente e disparou. A flecha de ferro atingiu o pulmão do grande macho.
O cervo não fugiu. Investiu — direto contra ele. A manada seguiu, a neve explodindo, a floresta estremecendo.
Disparou de novo. A flecha cravou fundo. O grande macho tropeçou mas continuou vindo.
Prendeu o arco, subiu numa árvore grossa e esperou.
O macho cambaleou, oscilou e desabou na neve. A manada se agitou, em pânico, depois trovejou para longe.
Qin Ming desceu. Setecentos jin de músculo marrom-escuro, gordo de inverno e sem encolher. Ficou satisfeito.
A floresta não era lugar para demorar. Começou a arrastar o cervo de volta pela trilha.
A Vida Nova mostrou seu valor — rebocando setecentos jin pela neve, e nem estava sem fôlego.
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O vento aumentou. Grânulos de neve arderam em seu rosto. Arrepios subiram por seus braços.
Então — outra coisa. Patas peludas pousaram em seus ombros. Hálito quente em sua nuca. Uma boca, fechando-se contra sua espinha.
Baixou os ombros, agachou-se, rolou.
Garras engancharam seu casaco e entraram em seus ombros. Sangue.
A neve explodiu. Uma forma maciça estivera enterrada num monte — alta, poderosa, arremetendo atrás dele.
Caiu no chão rolando, rápido como cobra, e se libertou.
A besta veio de novo. Garras enormes. Uma boca escancarada cheia de dentes.
Qin Ming agarrou suas patas dianteiras — ambas — e segurou.
As garras pendiam a centímetros de seu rosto. Agora podia ver a coisa: uma cabeça maciça de burro, mandíbulas abertas, crina negra descendo pelo pescoço, corpo de lobo. Quatrocentas libras de predador.
Lobo-Cabeça-de-Burro. Mula-da-Montanha. Cabeça de burro, corpo de lobo, muito pior que um lobo. Os normais começavam em cento e oitenta jin. Este tinha mutado.
Avançou para sua garganta. Ele enfiou suas próprias garras em sua própria boca, bloqueando a mordida. Então se encolheu, enrolou as pernas, e chutou — forte — em sua barriga.
A Vida Nova bateu como um canhão. Quatrocentas libras de predador rolaram pela neve, dando cambalhotas.
Ele se recompôs. Afastou sua forquilha de um golpe e a cravou na neve — impedindo-o de alcançar a arma.
*Esperto.* Tinha aprendido.
Ergueu-se em pé — mais alto agora, rugindo, a crina eriçada.
Qin Ming não se importou. Puxou sua faca curta e avançou. Se o enfrentasse de mãos nuas, o mataria de mãos nuas.
O lobo investiu. As garras bateram na faca com um tinido metálico. Qin Ming se moveu — o aço lampejou — a mandíbula do lobo se partiu, os caninos saltaram.
Ele deu um passo à frente. Sua perna direita açoitou o corpo como uma barra de ferro. O osso estalou. Ele guinchou.
Imobilizou-o, prendeu quatrocentas libras de besta se debatendo na neve, e socou.
O pescoço se partiu. Ficou imóvel.
Seu couro negro estava intacto — valioso. E Qin Ming encontrou uma velha ponta de flecha de ferro cravada em sua carne.
*Então era você.*
A mesma criatura que o espreitara dias antes, quando roubou o ninho do esquilo. Ele a ferira naquela vez.
Seus ombros latejavam mas os cortes eram rasos. Se tivesse sido um batimento mais lento, as garras teriam aberto seus ombros até o osso e os dentes teriam se fechado em seu pescoço.
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Estava faminto. Queria assar uma perna de cervo ali mesmo.
Mas fogo na escuridão era um farol. Toda criatura em milhas viria.
Olhou para o lobo, o cervo, a crista baixa à frente. Carregar os dois sobre a crista seria brutal.
Decidiu aliviar a carga.
Trabalho rápido e eficiente com a faca. Eviscerou os dois animais, enterrou as vísceras fundo na neve para mascarar o cheiro de sangue. Ficou com os couros e a carne.
Acabava de chegar à meia-encosta da crista quando a floresta atrás dele explodiu.
Árvores partiram. O chão tremeu. Pássaros explodiram da copa em nuvens aterrorizadas.
*O sangue atraiu algo.*
Ele viu — uma forma como um veículo blindado, maciça, rompendo a floresta, demolindo tudo no caminho. Ferida. Sangrando.
Um javali. Pelo menos mil e quinhentas libras. Cerdas de arame de aço, presas mais longas que o antebraço de um homem. Um rei-javali — seiscentas libras dominavam uma manada; este anã a sua espécie.
*O que podia derrotar isso?*, Qin Ming se perguntou. *E está seguindo?*
O javali farejou o cheiro de sangue das presas de Qin Ming e virou na direção da crista.
*Isto é ruim.*
Subiu na árvore mais grossa que encontrou e ajustou uma flecha, mirando no olho.
O javali se aproximou — e a floresta emudeceu.
Sem pássaros. Sem animais correndo. Nada.
Então Qin Ming viu. Num pico distante, uma bola de luz se ergueu. Suave a princípio, depois brilhante, subindo mais.
Num mundo sem sol, lua ou estrelas — o céu estava iluminado.
O rei-javali não fez um som. Recuou, com cuidado de não quebrar um galho, e se enterrou num monte de neve como um gato assustado.
O coração de Qin Ming martelou. Ele sabia o que era.
Um Bicho Lunar.