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Chapter 58: O Cultivador

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 58 de 75·~7 min de leitura

Atualizado: 2026-08-13 00:47

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"—Ehem! —disse ele—. Contas tu as coisas, também eu sou uma vítima disto tudo."

Não bem Yu Zitong houvera falado, quando procurou ganhar a compaixão de Han Li, e apartar de si, quanto pudesse, toda a relação com o Doutor Mo; mas vendo Han Li inteiramente imóvel, não teve outra saída senão prosseguir.

"—Eu era no meu princípio um cultivador..."

E assim, com lisura e à la larga, Yu Zitong referiu a sua própria história e todo o curso do assunto. No relato, é claro, pintou a si mesmo como um infeliz que, só depois de ser coagido pelo Doutor Mo, fora arrastado para a conspiração, lançando toda a culpa sobre o morto Doutor Mo, até o fim.

Han Li era demasiado cauteloso para crer cada palavra que o homem deixasse cair; e, contudo, pesando o conto contra o que o próprio Doutor Mo lhe confiara em outro tempo, podia ainda crivar de tudo isto sete ou oito partes de verdade.

Despojado o discurso do outro de quanto de falso pudesse esconder, Han Li chegou a uma boa inteligência de como viera tudo a suceder.

Aquela parte da velha história do Doutor Mo que contava como ele fora atacado à traição, e como saíra a procurar algum meio de restaurar o seu poder perdido, devia de ser verdade; não houvera necessidade de enganá-lo nisto.

Mas o falatório de um livro maravilhoso achado em algum escondido lugar, e de um método recuperado dele para restaurar as suas forças, era uma ficção inventada de todo ponto. Em verdade, era inteiramente por conta de Yu Zitong que o Doutor Mo recobrara o seu poder; e contudo, também por conta de Yu Zitong a maldição se apoderara dele.

Vinha a ser isto. Yu Zitong nascera numa dessas famílias que os homens chamam clãs de cultivadores, e cultivara a Arte da Juventude Eterna até a sétima camada, logrando com isto não pequena mestria; mas para além daquele ponto a sua índole inata o amarrara. A Arte da Juventude Eterna não avançaria mais, e jamais poderia alcançar o pleno estabelecimento da Fundação.

Ora, um cultivador que não estabeleceu a sua fundação não pode contar-se como verdadeiro adepto, nem pode entrar abertamente no mundo imortal; e assim, no seu desamparo, Yu Zitong deixara o seu esconderijo e descera ao reino mortal para provar ali o seu ânimo, para ver se ainda podia quebrar o gargalo que assediava o seu coração.

Havia também, se a fortuna lhe sorrisse, a esperança de topar com algumas ervas preciosas e levá-las para casa para refiná-las em pílulas de espírito; embora soubesse que tal esperança era bem ténue. Com tudo, em todas as coisas vinha a ser questão de sorte; e quem poderia dizer que o céu ainda não o coroasse com um grande golpe de fortuna.

Com tão sedutores desígnios, Yu Zitong, então um jovem apenas passado dos vinte anos, entrou no que os adeptos chamam o mundo mortal.

Os prazeres flamejantes e deslumbrantes daquele mundo exterior lhe cansaram os olhos em pouco tempo. O seu coração jamais estivera firmemente ancorado; num punhado de anos se fora de todo à ruína, voltado um parasita à mesa de algum grande senhor, e começado a nadar em luxo e esplendor; e o seu coração pela cultivação se esfriou por graus.

Tais discípulos, como Yu Zitong, que abandonavam pela metade, veriam depois de um século os seus nomes riscados do registo familiar, e toda a sua linhagem seria tida por mortal, proscrita de todo o comércio com a casa principal — salvo se, por ventura, um dos seus descendentes mostrasse de novo aptidão e talento para a cultivação, caso em que poderiam uma vez mais ser reconhecidos como do sangue.

De não terem ido mais além as coisas, o caminho de Yu Zitong para o Grande Caminho poderia em verdade ter-se fechado, e negadas as artes imortais; mas uma vida longa e afortunada até aos cem anos não estava fora do seu alcance. Entre os cultivadores que ainda não estabeleceram a sua fundação, semelhante estado era comum, e não grande desgraça.

Mas, fosse obra do olho do céu ou simplesmente a sua hora de revés, um dia poucos anos mais tarde, enquanto se folgava pelas ruas e, como era seu costume, se voltava para uma botica, topou com uma raríssima Erva de Sangue Espiritual. Esta erva de espírito guardava tão forte parecença com a comum flor vermelha do azeite, que o boticário, que não tinha o engenho de conhecê-la, a pusera entre as suas mercadorias ordinárias.

À vista da erva, Yu Zitong alegrou-se sobremaneira; com ela na mão, a sua esperança de quebrar o gargalo se fez forte, e o coração pela cultivação se lhe moveu de novo. Teria pago no mesmo lugar e levado-a consigo.

Mas então surgiu um novo obstáculo. Outro cultivador entrou na loja, espreitou também a erva, e de nenhum modo a deixaria ir; e os dois se puseram a disputá-la no mesmo chão.

O boticário, vendo a sua oportunidade, fê-los enfrentar um contra o outro e declarou que a erva pertenceria a quem mais prata oferecesse. O bornal de Yu Zitong resultou mais fundo por um pouco, e assim a erva de espírito passou à sua guarda.

Contudo, não era tolo, e sabia que o outro não deixaria descansar o assunto. Nessa mesma noite fugiu do seu alojamento e deu toda a pressa que pôde em direção às terras da sua família; mas não houvera percorrido metade do caminho quando o homem o alcançou, e houve uma grande batalha.

O poder do outro levava-lhe vantagem de mais de meia braça; Yu Zitong foi vencido até a cuspir sangue. Mas não podia sofrer deixar a erva que já era sua. Rangendo os dentes, invocou um talismã que preservava a vida e que tirara do clã, e por uma arte secreta de destruição mútua amedrontou tanto o outro até fazer-lhe fugir, e assim escapou ao fim.

Mas então estava gravemente ferido; e foi neste transe que topou com o Doutor Mo, que também andava fora a procurar um remédio.

Era a condenação lançada sobre Yu Zitong. Caminhara pelo mundo durante anos, mas de lidar com tais pícaros do jianghu como o Doutor Mo não tinha nem a menor experiência. Notando a minguante saúde do médico, teve a tolice de falar dela sem recato e, de todo sem querer, deixou escapar que trazia uma cura valiosa sobre a sua pessoa.

Com isto, chamara uma calamidade mortal sobre a sua própria cabeça. Pois o Doutor Mo naquela mesma hora ardia de impaciência, procurando um remédio por cima e por baixo e sem achá-lo; e quando ouviu que aquele homem tinha uma medicina que podia salvá-lo, não era certo que empregaria todas as artes e todas as súplicas sobre o corpo do homem?

Mas a medicina de que falava Yu Zitong, embora não tão rara maravilha como a Erva de Sangue Espiritual, estava ainda composta de mais de uma dúzia de ervas preciosas, destiladas pelos métodos dos cultivadores ao custo de muita da sua essência vital; e dela não lhe restava senão um pouco. Ferido como estava, apreciava-a tanto mais, e como haveria de desprender-se dela como presente a algum mortal que tinha por nada mais do que uma formiga?

O Doutor Mo, vendo que até o seu rastejar não podia arrancar a medicina, sentiu-se ferido no orgulho pela vergonha e pela cólera, e despertou-lhe o coração assassino. Seguiu em segredo Yu Zitong até um lugar solitário e, dando-se-lhe pelas costas, administrou-lhe um veneno da sua própria e secreta confecção.

No curso natural das coisas, um veneno ordinário não haveria de ser de proveito contra Yu Zitong. Mas esta droga secreta do Doutor Mo — cuja própria potência nem o próprio médico entendia de todo — obrou sobre ele de uma vez, e o Doutor Mo logrou o seu triunfo.

Yu Zitong, já gravemente ferido, ficou agora sumido perto da morte pelo veneno que lhe atacava o coração; e então se mostrou o Doutor Mo, e se pôs a saquear o seu corpo com grande arrogância.

Vendo tudo isto, Yu Zitong não houve precisão de mais explicações de como estavam as coisas. Ardendo de fúria, sem pensar, invocou a "Maldição do Alento da Flecha de Sangue," tornou toda a essência vital do seu corpo num só alento de maldição, e o cuspiu inteiramente sobre a cabeça do Doutor Mo; logo o seu espírito primordial abandonou a sua carne e se deslizou, todo desapercebido, para fora do seu corpo.

Só depois de o seu espírito ter deixado o seu corpo, Yu Zitong caiu na conta de quão mal considerara o assunto: não preparara um receptáculo para recebê-lo. Sem outro refúgio, não pôde senão furar o seu caminho para dentro do corpo do Doutor Mo, e assim por um tempo conter o perigo de o seu espírito perecer.

O Doutor Mo, sobressaltado ao princípio por se ver encharcado naquela chuva de sangue, não tardou em achar que nada desagradável lhe acontecia, e não pensou mais nisto.

Fiado no seu conhecimento das drogas, tirou do cadáver aquelas poucas pílulas e, ao ponto, as tragou com grande regozijo; e, fiel à promessa da medicina, o seu poder ficou inteiro de novo.

Fora de si de alegria, o Doutor Mo recolheu quanto despojara do homem, junto com uma cópia da fórmula da Arte da Juventude Eterna que ele próprio não podia decifrar, e resolveu voltar devidamente para Lanzhou, para tomar vingança e uma vez mais fazer o seu nome.

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