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Chapter 64: Convocação da Alma

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 64 de 75·~5 min de leitura

Atualizado: 2026-08-13 07:04

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Han Li sentiu com os dedos a frieza da carne do gigante e contemplou aqueles dois olhos vazios, de olhar imóvel, enquanto no coração ia revolvendo a sorte que Zhang Tie encontrara.

Nove partes em dez, tinha sido o Doutor Mo, em conluio com Yu Zitong, quem apresara Zhang Tie quando a sua Arte do Couraça de Elefante alcançava apenas um grau mediano de perfeição, e, urdindo depois o semblante da sua fuga, tinha logrado os muitos ouvidos e olhos da Seita dos Sete Mistérios. E, em seguida, às escondidas, por um ou outro arte tinha roubado a Zhang Tie a alma por inteiro, e tinha trocado o seu corpo nesta coisa monstruosa, que de tão perto se assemelhava a quem tivesse levado a Arte do Couraça de Elefante à sua plena floração.

A conjectura de Han Li tocou de perto a verdade, e o verdadeiro estado das coisas pouco distava dela.

Naqueles dias tinha sido um capricho repentino do Doutor Mo casar a Arte do Couraça de Elefante com o ofício de fazer cadáveres que Yu Zitong lhe provera, e levantar com isso uma tropa de bestas cadavericas, dóceis ao mando de seu senhor, e, com tudo, tão poderosas que varressem diante delas o mundo pugilista. Mas naquele breve trecho de tempo ele não conseguira forjar senão este único e grande sujeito; e estimava-o por cima de todo tesouro, guardando-o de ordinário em algum lugar secreto ao pé da montanha, e só o trouxera consigo na sua última volta à seita.

E, ainda assim, Yu Zitong não tinha o menor apreço por tão remendada e mal feita besta cadaverica; antes a tinha em desprezo e dela se ria. Pois enquanto o seu verdadeiro corpo ainda perdurava, ele contava com uma dúzia de artes para domar criatura tão imperfeita; e, além disso, comparada com o encorpado cadáver de ferro de um verdadeiro cultivador da imortalidade, o poder de semelhante coisa se afastava para além de todo cálculo, e só podia erguer-se e fanfarrear entre a gente comum. A sua única virtude residia, acaso, na humildade dos seus materiais e na facilidade da sua forja, de sorte que qualquer um com a mais leve faísca de magia pudesse fabricá-la.

Depois de um bom pedaço, Han Li retirou de súbito a mão que pusera sobre o rosto do gigante, e desviou a mirada, inquieta, dele, fixando-a na porta de pedra despedaçada, e caiu num devaneio em branco.

Nesse instante sentiu o coração algo frio dentro de si — não pela lástima da sorte de Zhang Tie, mas pelo seu próprio espírito frio e desapiedado, que lhe deu alarme.

Ele supusera que, ao saber do lastimoso fim do seu bom amigo, ergueria a cabeça para trás com fúria, e gritaria com todas as forças os nomes de "Mo Juren" e de "Yu Zitong", e encheria a voz do ardor irado do seu ódio por eles.

Mas, na verdade, fora de uma ligeira pontada de pesar, não sentiu grande comichão nem cólera — como se quem tivesse caído em tal trance não fosse o seu velho amigo "Zhang Tie", mas algum transeunte estranho.

Era porque ele sabia que este Zhang Tie diante dos seus olhos não era senão um destroço, e não o próprio homem? Ou se lhe tornara o coração a tanto ferro e tanto sangue?

Este porte seu, egoísta e de coração frio, encheu o próprio Han Li de espanto. Então advertiu que, ninguém sabia quando, se tornara uma coisa tão estranha a si mesmo.

Por fim Han Li se recompôs do seu estupor, e lançou ao gigante uma mirada turbada, sem saber apenas com que nome chamar "ele".

Lembrando-se do discurso do Doutor Mo — que "a alma se perdeu", que "o corpo caminha embora o espírito se tenha ido" — Han Li ergueu a cabeça para o céu e falou com brandura:

"Irmão Zhang: a estas horas já terás renascido no mundo. O corpo que deixaste para trás já não tem uso algum, por isso deixa que teu irmão menor to tome emprestado para dele servir-se. Vou usá-lo com todo o cuidado, e espero que não mo tenhas em conta."

Quando pôs fim a esta prece, e, como quem dorme para dormir, sossegou a própria consciência, disse outra vez ao gigante:

"Pois és o destroço que deixou o Irmão Zhang, sem alma própria, chamar-te-ei 'Convocação da Alma'. Oxalá, nos dias vindouros, me prestes uma só mão de ajuda."

O gigante ouviu as palavras de Han Li, mas ficou imóvel, sem nada senão a acostumada expressão de docilidade sobre ele, e nem um único gesto mais — em verdade não tinha arbítrio próprio, e só podia receber mandamentos de maneira passiva.

"Falar assim a um corpo sem engenho — que tolo me tornei!" Han Li abanou a cabeça sobre si mesmo, e, logo, a passos leves e compassados, se encaminhou para a câmara de pedra.

"Convocação da Alma, segue-me."

Han Li se recobrara por inteiro dos seus baixos espíritos, e trazia o seu acostumado semblante, como se nada em absoluto tivesse acontecido. Em verdade, tal como ele mesmo o julgara, se tornara de um temperamento prodigiosamente duro e acerado, e já não o estremeciam à ligeira as paixões.

Se esta grande mudança augurava ventura ou desventura para Han Li, que agora punha os pés no sendero do cultivador, ninguém poderia dizê-lo.

Por algum tempo depois, Han Li se manteve ocupado boa parte do dia, para deixar bem postos todos esses assuntos.

Não só enterrou o corpo do Doutor Mo debaixo de uma grande árvore, e queimou e deitou fora quanto restava na câmara de pedra, como até mandou que Convocação da Alma deitasse abaixo toda a câmara aos pedaços, de sorte que ficou feita em migalhas, esparramada, sem que se pudesse dizer o que outrora fora, e só então reteve a mão.

Após tamanha lida, o céu tinha escurecido para o entardecer, e o sol tinha começado a afundar-se.

Han Li se deteve diante do que fora a câmara de pedra e era já um montão de pedra quebrada, e lançou a vista em redor, e, não achando nada deixado ao esquecimento, assentiu com satisfação.

"Convocação da Alma, vamos embora!"

"Amanhã há uma infinidade de assuntos que atender. Lástima que não tenhas engenho, e não possas falar; pois, se eu contasse com alguém com quem aconselhar-me, sentir-me-ia mais seguro."

Sob a luz vermelha do sol a pôr-se, Han Li arrastava atrás de si a sua sombra longa e estirada, e tagarelava em voz baixa sem fim com o gigante a quem rebatizara "Convocação da Alma", como se por fim tivesse achado um bom ouvinte a quem verter o coração, e que jamais uma só vez se queixasse dele. Onde poderia já um espiar a menor traça daquele porte frio e desalmado? Era de todo um moço simples do bairro.

Quando acomodara bem e por bom a Convocação da Alma, Han Li voltou à sua própria morada. Dentro do quarto, qual um forasteiro há muito ausente da sua casa, palpa aqui as mesas e as cadeiras, olha acolá, e murmura para si mesmo:

"Que longo foi este dia! Parece mais longo do que todos os dez e mais anos que vivi antes, atados todos num só."

E de repente se atirou de cabeça sobre a cama, e dormiu o sono pesado.

Estava muito cansado — cansado por igual no espírito e no corpo.

"Mas é bom ter voltado com vida." Com um sorriso nos lábios, foi esse o pensamento que lhe veio ao afundar-se no sono.

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