Li Mutian acordou na quarta vigília, encarando o próprio telhado furado. Um brilho tênue vazava pela fresta que ele não tivera tempo de consertar — três dias já sem dormir direito. Ao lado, sua esposa dormia como uma pedra.
*Mulheres nunca entendem o peso das coisas*, pensou. Nas últimas semanas, imortais haviam enlouquecido nas montanhas Dalishan, voando sobre os cumes, caçando como se quisessem cavar a terra três pés de profundidade. Cada feixe de luz fazia os aldeões caírem de joelhos. As pequenas aldeias ao pé da serra sempre viveram em paz. Agora todos dormiam com um olho aberto.
As montanhas ficavam longe de qualquer corte, e ninguém queria a atenção da corte de qualquer forma. Mas quando imortais brigam, um único feitiço pode apagar uma aldeia do mapa — cachorros, galinhas e tudo.
Li Mutian virou de lado, achou o sono impossível e se levantou para olhar a noite.
*O garoto cresce a cada dia, come mais a cada dia.* Amanhã o mandaria ao rio Meichi buscar peixe e caranguejo. *Se morrer por um feitiço perdido, é o destino. A família Li cultiva esta terra há duzentos anos. A mãe dele não pode se mexer, o pai não quer.*
Vestiu o casaco e saiu. O cão amarelo dormia, alheio. Li Mutian caminhou pela névoa matinal, ouvindo a aldeia acordar: galos, cães, os primeiros fios de fumaça de cozinha.
«Xiangping — !» — berrou para a casa.
Um estrondo respondeu. A porta voou aberta e um garoto quase crescido disparou para fora, olhos vivos e astutos, queixo erguido para o pai.
«Pai!»
«Hoje não tem trabalho» — disse Li Mutian, dispensando-o com a mão. «Vá até o rio Meichi e traga algo fresco para sua mãe. Peixe, caranguejo, o que morder.»
«Ótimo!» Li Xiangping pegou uma cesta de corda e um tridente comprido, e saiu voando antes que as palavras terminassem de sair da boca do pai.
Li Mutian riu duas vezes e seguiu para os campos.
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O rio Meichi corria largo e raso, ladeado por lodaçais e juncos. Os gansos e patos da aldeia — criados aos centenas — não precisavam de comida. Soltos ao amanhecer, derivavam para a água; ao anoitecer, um único chamado os trazia de volta, gingando para casa.
Li Xiangping chegou antes das aves. O rio estava vazio. Duas pequenas jangadas batiam na margem. Ele arregaçou as calças e as mangas, ajoelhou-se na lama e fitou a água.
Um lampejo verde.
*Uma boa.*
Ele empurrou forte, prendeu a respiração e mergulhou. A mão direita se fechou sobre uma guelra e arrancou um peixe gordo para o ar.
«Ha!» Jogou-o na cesta e riu. Peixe tão bobo não crescia no rio Meichi — devia ter descido da correnteza. Sorte de principiante, mas ele aceitava.
Olhou para os pés. Algo sob a lama era estranho: liso demais, levemente prateado, capturando a luz onde nada devia.
Estava prestes a mergulhar de novo para investigar quando uma voz soou da margem:
«Xiangping!»