Jiang Qi encarou Su Yan, sem compreender. "Você? Lutar contra um Celestial?"
Em todas as lendas, o Imortal Imperecível não possuía nenhuma proeza de combate. Ele era um espécime — enjaulado, dissecado, vendido em fatias a nobres famintos por longevidade. Uma criatura de curiosidade, não de conflito.
"Não me lembro do meu passado", disse Su Yan. Ele levantou o Castigo Celestial, e sua luz encheu o mundo-peixe com radiação impiedosa. "Mas sei no que escolho me tornar."
"Aquelas pessoas?" Jiang Qi gesticulou para os aldeões aterrorizados. "Elas não têm valor. Não têm poder. Não valem a pena morrer por elas."
Su Yan sorriu, brilhante e sem sombras. "Acredito que meu coração é luz. Não posso ser uma pessoa tão terrível."
Jiang Qi olhou para aquele sorriso e sentiu algo quebrar dentro de seu peito. Ele conhecia a verdade — os séculos de cativeiro, a carnificina, a traição. Esse garoto deveria ter sido cinza e veneno. Em vez disso, oferecia sua vida por estranhos.
"Se o ancião insiste em salvá-los", disse Jiang Qi, inclinando-se profundamente, "este servo servirá até a morte."
Ele se levantou e reuniu os sobreviventes. Seu Espírito Primordial arruinado se manifestou sobre eles, antigo e quebrado, mas ainda terrível de se contemplar. "Seus ancestrais chamam! Subam na árvore de amoreira! Agora!"
Os aldeões fugiram em direção a uma árvore sagrada que se erguia milhares de zhang no céu — um Fusang jovem, mal mais que uma muda pelos padrões de sua espécie, mas vasto o suficiente para carregar uma nação.
Su Yan se voltou para Yuan Qi e o sino. "Vamos encontrar nosso convidado."
"Você está segurando uma espada divina", disse o sino. "Não um bilhete vencedor."
"Tenho experiência."
"Com o quê?"
"Com ser subestimado."
Su Yan disparou para cima através do rasgo no céu. Lá fora, Longyuan devastava entre os peixes titânicos, suas cem cabeças de serpente despedaçando tudo que se movia. Sangue chovia através da atmosfera do gigante gasoso.
Su Yan não hesitou. Ele conduziu o Castigo Celestial em direção ao pescoço de serpente mais próximo, sua voz ecoando com o mantra assassino do Dao Celestial.
A espada brilhou. Uma cabeça caiu.
Longyuan rugiu. As cabeças restantes giraram, a visão multidimensional fixando-se na mota de um garoto que se abria caminho entre elas. "Su Yan rebelde! Você tirou minha cabeça no Céu Misterioso Menor! Você me fez reviver aquela morte cem vezes!"
"Foi esse golpe?" perguntou Su Yan. Sua lâmina desapareceu — para reaparecer, cortando através da luz de bordo onde o verdadeiro pescoço de Longyuan deveria estar.
O Celestial recuou em terror primordial. Aquele corte. Ele se lembrava daquele corte. O golpe que havia terminado sua divinidade e o lançado no exílio eterno.
* * *
Jiang Qi derramou o último de sua força no Fusang. As raízes se arrancaram da carne moribunda do peixe. Os galhos tecem um escudo de madeira viva ao redor dos refugiados.
"Aguentem", sussurrou. "Vamos para casa."
Atrás dele, a luz floresceu através do céu — a espada de Su Yan, escrevendo sua resposta ao céu em linhas de sangue e trovão.