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Chapter 71: O Pó do Espírito Claro

A Record of a Mortal's Journey to Immortality·Capítulo 71 de 75·~6 min de leitura

Atualizado: 2026-08-13 10:33

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Han Li franziu a testa, sombrio, e não pronunciou palavra alguma.

Acabara de tomar o pulso, de olhar a língua e as pupilas; e no seu primeiro ditame este veneno era — como os Fios de Incenso Entrelaçados de que ele próprio se valera uma vez — um veneno composto. Escolher e arrancar pela raiz, por graus, um a um, os vários venenos que nele se encerravam, não o tinha Han Li de modo algum por força sua; e assim só podia pôr a sua confiança no Pó do Espírito Claro, e num ou noutro dos demais artifícios heterodoxos da sua arte.

Mesmo enquanto este pensamento lhe vinha, Han Li amaldiçoou no seu coração aqueles outros médicos que, sem se atreverem a desfazer o veneno, lhe tinham endossado a ele próprio o duro cometimento; mas na superfície fez grande alarde de profunda e estudiosa meditação.

Ao cabo de um tempo, o Elder Zhao não pôde conter-se por mais tempo, e estalou:

"Rapazito! Podes ou não devolver a vida ao Elder Li? Diz alguma coisa!"

"Elder Zhao, a vossa pressa é demasiado grande. Não vedes que o Médico Han anda ainda a procurar o modo? Tende paciência!" Antes de Han Li poder responder, o Vice-Líder da Seita Ma voltou a pôr a máscara do bem-intencionado, e zaferiu o Elder Zhao.

O Elder Zhao pôs os olhos em branco e abriu a boca para falar; mas Han Li, sem lhe dar tempo, tossiu primeiro um pouco e cortou assim o que quisera dizer.

Essa tosse atraiu sobre ele o olhar assombrado de todos os da sala; e só então se lembrou Han Li de que um rapazito de apenas dez e tantos anos, remedando a tosse de um venerável ancião, havia de parecer algo ridículo. Ainda assim, não era grande coisa; pois já se alcançara o fim, e não tinha vontade alguma de ouvir os dois altercar mais.

"Este veneno é um veneno composto, e desfazê-lo não é de verdade tarefa leve. Não me atreveria a jurar ter um domínio completo e certo sobre ele, mas posso tentá-lo. Na desfeita haverá algum perigo, e bem poderia custar a vida ao Elder Li. Pergunto, pois, quereis ainda que ponha mão à obra?" Han Li disse estas palavras com um ar de estudado desleixo.

Da sua parte, se não se lhe chamasse a desfazer o veneno, tanto melhor; a sua confiança nisso não era de verdade grande.

Estas palavras de Han Li deixaram os parentes que ali estavam a olhar uns para os outros, sem se atrever ninguém a dar o seu consentimento para que começasse logo; mas fora de Han Li, nenhum dos outros médicos parecia já mais apto para a tarefa.

Após uma boa e longa pausa, a Madam Li, a legítima esposa do Elder Li, rompeu de repente o silêncio:

"Desejaria perguntar quanta esperança crê o Médico Han ter de restituir a saúde ao meu esposo."

"Cinco partes de dez", respondeu Han Li sem a mais leve vacilação.

"Sendo assim, que o médico se lance resolutamente à obra de o salvar. Se alguma desdita acontecesse ao meu esposo, de modo nenhum hei de guardar rancor algum ao Médico Han; não será senão o decreto do Céu." A Madam Li mostrou um ar de firme resolução, e para surpresa de Han Li decidiu-se no ato.

"Cunhada, não quereis ponderá-lo mais um tempo? Este pequenino médico é tão jovem, e não deixo de suspeitar que o assunto é duvidoso." O Elder Zhao, mostrando-se algo airado, apressou-se a dissuadir a Madam Li do seu arrebato temerário.

"Tenho pensado nisso com grande cuidado. De não desfazer o Médico Han o veneno, o meu esposo não poderia, receio, sobreviver a esta mesma noite; melhor é, pois, fazer o ousado intento, e ganhar meia oportunidade de salvação." A Madam Li falou baixo e suave, com alguma pesar que lhe abatia a cabeça.

"Isto…" O Elder Zhao ficou sem palavras.

Han Li correu com a vista os outros; nenhum parecia contradizer o decreto da Madam Li. Então, do saco de medicina que trazia consigo, tirou um frasco de porcelana verde, e dele fez cair uma só pílula vermelha.

"Que vá alguém buscar uma taça de água morna, dissolva esta pílula nela, e a dê a beber ao Elder Li."

"Irei eu!" Apenas tinham saído as palavras dos lábios de Han Li quando respondeu uma voz clara e sonora.

A donzela Zhang Xiuer, que estivera todo o tempo de pé junto a ele com os olhos avermelhados, respondeu e encaminhou-se para fora da sala.

Li Feiyu deu um leve ressaltar, e no ponto seguinte a seguiu para fora também — pelo qual Han Li não pôde deixar de derramar uma boa porção de desprezo sobre Li Feiyu no seu secreto coração.

Ao pouco, Zhang Xiuer voltou a entrar com um ar de indefesa contrariedade, com as duas mãos vazias. Li Feiyu, pelo contrário, vinha portando com grande cuidado uma taça de porcelana branca, muito de perto a seus calcanhares.

A concorrência da sala, ao ver este espetáculo, não pôde conter o riso no peito, e deixou-o assomar aos semblantes, vestindo o ar de quem espera uma fina graça; o que trouxe um rosado rubor às faces de Zhang Xiuer. Ali ficou toda desconcertada, sem saber o que fazer com mãos e pés, mostrando às claras todo o porte de uma pequena donzela.

Ainda assim, por este meio se aliviou em boa medida a tensão da sala, e o coração de mais de um se aligeirou.

Li Feiyu entregou a taça, com toda a submissão, à Madam Li.

"Médico Han, servirá esta taça de água?" A Madam Li voltou-se para procurar o parecer de Han Li.

"Servirá."

Han Li deitou uma olhada à taça branca e assentiu; depois, tomando a taça numa mão, deixou cair a pílula na água, e num abrir e fechar de olhos toda a taça se tornou de um vermelho profundo.

"Baste com a verter na boca do Elder Li. As vossas mulheres sois as de mão mais delicada, e o melhor é que seja vós quem o faça." Dito isto, Han Li estendeu a mão e lhe devolveu a taça.

A Madam Li apressou-se a assentir sem pôr reparo algum.

Por sua parte, em tal ocasião cada palavra que caía dos lábios de Han Li tocava a mesma vida do seu esposo; como então não havia de o atender?

"De que medicina se trata, ao cabo?" Enquanto a Madam Li vertia a grande taça de poção vermelha, pouco a pouco, pela boca do Elder Li, o Elder Zhao não pôde já ter mais em calma, e perguntou aquela mesma questão que todos na sala anelavam ver respondida.

"Um pó serenador da minha própria invenção; esperemos que haja de provar de algum serviço." Han Li o tomou à ligeira.

Não desejava que homem algum soubesse o nome do Pó do Espírito Claro; pois quem poderia dizer se este remédio, maravilhoso acalmador de venenos, não haveria de lhe acarretar problemas? Muito melhor era manter o assunto cercado e humilde.

Uma vez vertida a medicina, em cerca do espaço de uma refeição inteira a negra neblina que cobria o rosto do Elder Li começou a empalidecer pouco a pouco, e as manchas de veneno do seu corpo mudaram igualmente do tom profundo ao claro e começaram a encolher.

Esta mudança, tão à vista, dizia até aos ignorantes que o veneno do Elder Li se ia por graus aplacando, e que as coisas tornavam a melhor.

À vista de tudo isto, a gente da sala rompeu em sorrisos de ventura, e olhou Han Li com olhos de todo em todo distintos dos primeiros; só o Elder Zhao não pôde deixar tão presto de lado o seu orgulho, e deixou cair um leve reniflar pelo nariz; mas também o seu semblante se abrandara em não pequena medida.

Han Li mesmo se assombrou não pouco de ver o veneno retirando-se já, antes de ter dado passo algum mais.

Que o Pó do Espírito Claro houvesse de se mostrar tão potente ficava muito longe da sua esperança; talvez, não podia deixar de pensar, este veneno não era ao cabo tão mortal como parecera.

Mas com as coisas tornando assim a melhor, Han Li se achou em alguma pesar, e por duas causas. A primeira: não fizera senão de dizer que a desfeita do veneno levaria perigo, e se o veneno houvesse agora de se purgar tão à ligeira, não seria como se se assestasse ele próprio uma bofetada na face, e se fizesse crer aos homens que procurara enganá-los? E a segunda: este Pó do Espírito Claro obrava tão bem sobre o veneno dos outros — por que então não haveria de valer contra o seu próprio? Pois era ainda causa de não pouca inquietação e desvelo, que andasse traspassado de um oculto veneno yin cuja cura não conhecia.

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