O Portão dos Fantasmas fora uma lenda do profundo Submundo — um portal erguido na fronteira entre a vida e a morte. E ali estava, no mundo dos vivos.
A névoa finalmente fazia sentido. Não fora feita por homens. Era a condensação natural do céu e da terra, porque o Submundo e o Céu Azul nunca se encontravam. Um Portão dos Fantasmas no mundo dos vivos exigia ocultamento.
E também os fantasmas.
Vieram em números muito maiores do que Aldeia do Bosque Pequeno jamais abrigara. Flutuando em direção ao arco por instinto cego — sem mente por trás. Toda alma inquieta de toda a região da Cidade do Bordo devia ter se reunido ali. E enquanto o Portão dos Fantasmas permanecesse de pé, eles só cresceriam em número e em força.
Mas como o Portão dos Fantasmas viera parar aqui?
Wei Feng entendeu as palavras no instante em que as viu. Sem hesitar, tirou das vestes um bastão de incenso carmesim — antiquado, de feitura estranha — e o empurrou para Zhao Lang. "Rápido!"
Carregava uma pederneira, é claro, e conhecia bem as artes do fogo. Mas Zhao Lang era mais rápido.
Anos de parceria não precisavam de palavras. No momento em que o incenso carmesim o alcançou, Zhao Lang estalou os dedos. Uma língua de fogo lambeu o bastão e o consumiu num batimento.
Só então seu rosto escureceu. "Esse era o seu único Incenso Vermelho."
O incenso de alarme do exército vinha em três cores: preto, vermelho, amarelo. Só homens de patente o carregavam; era um recurso estratégico. Incenso Preto queimado significava que todo o estado lutava até a morte — poucos em Zhuang tinham o direito de acendê-lo. Incenso Amarelo significava que quem o acendia estava preso numa situação de morte.
Entre os dois ficava o Incenso Vermelho: o perigo de uma cidade caída, de uma terra perdida.
Incenso Vermelho aceso, e toda a Cidade do Bordo tremeria. Chegaria ao próprio Wei Lin.
A Guarda da Cidade e o Escritório de Punições estavam esticados até o limite por toda a região. Wei Lin se sentava na mansão do senhor da cidade, um fio numa teia onde puxá-lo arriscava tudo. Será que uma vila sem outro inimigo além de fantasmas merecia a chegada pessoal do senhor da cidade? E se Wei Feng estivesse errado — se a Cidade do Bordo sofresse porque Wei Lin havia partido —, poderia ele carregar esse peso?
Nada disso importava. Não contra aqueles três caracteres.
O Portão dos Fantasmas. Um mito mais velho que a memória, um fragmento da era dos deuses.
No momento em que o fantasma carmesim do incenso se ergueu, Wei Lin, senhor da Cidade do Bordo, não hesitou. Lançou-se ao céu, envolto num vendaval uivante, e gritou em direção à Aldeia do Bosque Pequeno.
Quase no mesmo instante, os olhos do reitor Dong se escancararam. Alguém do seu nível tinha que permanecer no coração da Cidade do Bordo o tempo todo. Wei Lin partira; Dong não podia segui-lo.
Não se moveu, mas sua voz atravessou as paredes, carregada de autoridade. "Mandem palavra a todo discípulo que possa ser alcançado. Qualquer que seja sua tarefa, qualquer que seja seu cultivo — parem já. Voltem para a Cidade do Bordo!"
A Academia criava a esperança de Zhuang, e isso significava um longo caminho de crescimento. Mas quando a terra estava em perigo, toda mão era necessária na muralha.
Na Academia, o vice-reitor, Song Qifang, sentava-se de pernas cruzadas diante de uma fornalha, avivando suavemente a chama com um leque de palma. Um suspiro baixo, bem baixo. "Velho, não é?"
* * *
Na Aldeia do Bosque Pequeno, Wei Feng não parou depois de acender o incenso. Seu sabre avançou num arco horizontal — uma luz de lâmina que quase partiu o ar. Atingiu o arco e desapareceu.
Desapareceu. Sem ondulação, sem eco, como se nunca tivesse existido.
Todos os ataques seguintes tiveram o mesmo destino. Fogo, vento — qualquer arte que lançavam afundava como uma pedra. Ling Chuan chegou a atirar a própria espada, e a viu sumir sem deixar rastro.
Como se a coisa não existisse. Como se qualquer coisa que a tocasse também não existisse.
Huang Azhan andou diante do Portão dos Fantasmas por um bom tempo, dividido. Tinha uma fé teimosa na própria urina de menino. Mas depois de ver a espada de Ling Chuan desaparecer, abandonou a ideia com verdadeiro pesar.
"Este vórtice... deve conectar com o Submundo. Com todos esses mortos injustiçados alimentando-o..." Wang Hao franziu a testa, pensando. "Nossos ataques caem no Submundo, não no mundo dos vivos. O que vemos diante de nós é apenas o reflexo do Portão dos Fantasmas. E nem o reflexo se formou por completo."
Não formado por completo?
Jiang Chen conhecia aquela escrita na placa. Vira-a no Reino Etéreo: escrita Dao, letras que expressavam as leis do céu e da terra. Vinha remoendo o Portão dos Fantasmas desde que chegaram. Agora, com as palavras de Wang Hao, um calafrio o percorreu.
Então quando se condensaria o verdadeiro reflexo? Como? E o que traria a este lugar?
A resposta chegou logo.
Os fantasmas que haviam invadido a Aldeia do Bosque Pequeno — os que mataram às centenas, que nunca pareciam diminuir — ergueram-se de repente como um só, todos correndo para o centro.
O grupo não teve tempo de pensar. Truque antigo: recuar, traçar um anel de fogo com as artes do fogo, e defender-se dentro.
Do alto, através da névoa, um observador teria visto um rio de fantasmas — inumeráveis, arrastados por algum puxão, despejando-se no vórtice como cem riachos no mar.
E os discípulos da Academia da Cidade do Bordo, com Wei Feng e Zhao Lang, eram as rochas amargas contra as quais o rio se moía.
Não podiam se mover. Não podiam revidar. Não viam fim.
"Toda alma inquieta da região da Cidade do Bordo está sendo arrastada para cá. Talvez morramos aqui hoje." Wang Hao deu um sorriso torto.
Os fantasmas eram fracos sozinhos. Antes, o grupo os cortara com facilidade — mas aquilo foi quando vagavam sem mente e só golpeavam os vivos por instinto. Agora se acumulavam num só lugar, e o grupo ficava no caminho.
Demais. Infindáveis.
Pelo que Wang Hao conseguia ver através das brechas que forçava no vento, não havia fim.
Não podiam saber a verdade: antes, só os mortos da própria Aldeia do Bosque Pequeno se reuniram, com algumas almas distantes à deriva. Agora, todo espírito remanescente de toda a região da Cidade do Bordo corria para lá, em velocidades muito superiores às suas.
Linhas de fantasmas cruzavam o céu, uma teia de aranha de mortos que qualquer especialista do reino tremeria ao ver.
"Não vão morrer aqui." A voz de Wei Feng era fria; frio também seu coração. "O senhor da cidade está vindo."
Ninguém sabia o quanto ele odiara acender aquele incenso. Odiara a ideia de aquele homem vê-lo fraco, implorando ajuda. Mas não podia fazer outra coisa. Diante de uma lenda como o Portão dos Fantasmas, não arriscaria a segurança da Cidade do Bordo por causa do próprio orgulho.
Jiang Chen viu as almas passarem pelas "rocas", uivarem em direção ao arco e serem engolidas no instante em que o tocavam. Seu coração era um nó que não conseguia desatar.
Aquelas almas não tinham mente. Sem luta, sem gritos. Sem pesar, parecia. Sem dor.
Mas todas haviam sido pessoas vivas. Almas que deveriam ter descansado.
Em algum lugar daquele rio — alguém com quem ele se cruzara numa rua. Alguém que conhecera. Um vizinho. Seus avós. Seu pai.
Fitou o enxame, esforçando-se para encontrar o homem que morrera em sua cama. O homem que nunca fora alto, e no entanto sustentara todo o céu sobre a cabeça de Jiang Chen.
As almas passavam como relâmpagos. Em todas as direções ao mesmo tempo. Fixou os olhos na estrada de Vila Riacho do Fênix até eles arderem em vermelho — e ainda assim não conseguia vê-los todos.
Vivera sozinho, sem querer mostrar fraqueza. Depois teve An'an para criar, e precisava ser forte por ela. Quase nunca dissera. Mas, deuses, ele sentia falta.
Queria ver o pai mais uma vez. Estava aterrorizado em vê-lo.
Aterrorizado de ficar indefeso diante do Portão dos Fantasmas.
* * *
Então, como se algum limiar tivesse sido cruzado, o rio de almas se esvaziou num só instante. E o reflexo sobre o vórtice se afiou — sólido, claro, inconfundível.
No alento seguinte, Wei Lin caiu do céu numa espiral de vento.
O Portão dos Fantasmas piscou — e desapareceu.
Por um momento, Jiang Chen sentiu uma brisa roçar sua face. Piscou.
O vasto vórtice se fora. A névoa sobre a Aldeia do Bosque Pequeno se abriu e se dispersou.
Tudo se dissolveu. O Submundo e o Céu Azul nunca se encontraram.